O poder insuperável do bom humor

Conheça a história do pugilista Jack Johnson e entenda os princípios para obter vitórias em qualquer situação da sua vida

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Após derrotar — sem muita resistência — o então campeão mundial dos pesos-pesados, Jack Johnson se tornou, inquestionavelmente, o melhor lutador de boxe do planeta. O ano é 1910 e a ideia de um negro campeão é intolerável para o esporte. Logo, um novo competidor foi encontrado para derrotá-lo.

O homem escolhido foi Jim Jeffries, a "Grande Esperança Branca", campeão anterior, chamado de volta da sua aposentadoria como se fosse um Cincinato fora de época para derrotar a ameaça negra.

O que aconteceu a seguir foi um dos episódios mais sujos e baixos da história dos esportes. Johnson é odiado pelo público. As pessoas vaiaram e gritaram coisas horríveis, 20 mil torcedores em estado de revolta durante toda a luta.

Jeffries, seu oponente, partiu para cima do seu oponente dizendo que iria "tomar o cinturão dos pesos pesados em nome da raça branca", e desafiando: "proponho dar a ele a pior surra já dada em um homem no ringue".

Mesmo assim, foi um dos momentos mais bonitos do esporte. Isso por conta da maneira como Johnson reagiu à provocação. Lá estava ele, no centro do ringue em Reno, Nevada, focado no ódio intenso contra ele, mas de alguma forma aproveitando cada minuto. Sorrindo, brincando, jogando com o oponente do começo ao fim da luta.

Não é que ele tenha caído na provocação. Em vez disso, Johnson projetou seu plano de luta ao redor do ressentimento contra ele. A cada xingamento do corner de Jeffries, ele partia para cima do seu oponente. A cada truque baixo ou investida de Jeffries, Johnson zombava e revidava — mas nunca perdeu a calma.

E quando um golpe bem aplicado abriu um corte no lábio de Johnson, ele continuou sorrindo — um sorriso sangrento, horripilante, mas alegre. Johnson ficou tranquilo durante toda a luta, sempre no controle, usando a energia do público como desafio, para ver se ele poderia se superar, queiram eles ou não.

A cada round, ele ficava mais alegre, amigável, e seu oponente se irritava, cansava e, eventualmente, perdeu a vontade de lutar. Johnson não era apenas o desportista ideal, ele era também a força dominante no ringue.

Cada zombaria da multidão, do seu oponente, provocava a reação merecida, e não mais — ele deixou que Jeffries cavasse sua própria cova. A luta terminou com Jeffries no chão e todas as dúvidas sobre Johnson foram silenciadas.

O escritor Jack London estava na plateia naquele dia. Quando removamos o perturbador e aberto racismo da reportagem do autor, podemos encontrar um parágrafo memorável:

"Ninguém o compreendia, o homem que sorria. Bom, a história da luta é a história do sorriso. Se, alguma vez um homem venceu por nada mais fatigante do que um sorriso, esse homem foi Johnson, hoje."

Jack Johnson era dotado de uma disciplina semelhante ao que os estóicos se aplicavam: alegria em todas as situações, especialmente nas piores. Ninguém sabe onde Johnson aprendeu isso, mas ele claramente aprendeu. E, usando essa sabedoria, ele conseguiu transformar uma situação terrível em combustível.

Esse é um poder surpreendente. A multidão racista em Reno esperava que seu ódio atingisse Johnson, que ele veria como era detestado e que isso destruiria sua confiança. Jeffries e sua equipe também esperavam irritar Johnson para que ele lutasse mal e irracionalmente.

Mas ver o homem reagir a tudo isso com um sorriso, reagir mesmo a um corte violento no seu rosto com alegria? Todos ficaram confusos. Como vencer alguém que não pode ser tocado? Que fica mais feliz à medida em que sentimentos negativos são atirados contra ele?

Se pudermos, vamos usar essa luta como uma metáfora para a vida. O mundo vai tentar nos derrubar. Enfrentaremos injustiças, animosidades e o próprio mal. Como reagiremos? Com raiva? Com ódio? Deixando que eles nos atinjam?

Não. Devemos responder com a excitação e sorriso de Jack Johnson. Ao escrever seu próprio diário, que mais tarde seria conhecido como Meditações, o imperador Marco Aurélio registrou: "uma labareda transforma em chama e brilho tudo aquilo que é atirado dentro dela". Foi o que Johnson fez. Bravamente, lindamente, maravilhosamente. Ele recebeu tudo com um sorriso.

Por essas razões, tenho em meu bolso uma moeda com a inscrição amor fati. É uma figura com o fogo de que Marco Aurélio fala. Essa frase, amor fati, vem do filósofo alemão Friedrich Nietzche, que diz que não precisamos simplesmente aceitar o que a vida atira em nós, mas amar tudo isso. É isso o que amor fati significa. Um amor pelo destino.

Quando eu toco a moeda, gosto de pensar no sorriso de Johnson, o sorriso que vence, que frustra os oponentes e obstáculos. E eu tento colocar um no meu rosto e seguir meu caminho. O que devo fazer além disso?

Sabemos que, na adversidade, emergimos mais fortes, mais sábios, mais poderosos. Sabemos que, inevitavelmente, veremos que tudo o que experimentamos é para o melhor. Então por que não começar a sentir isso agora? Por que esperar? Por que não sorrir agora?

Talvez algumas pessoas ao nosso redor tenham dificuldade em entender isso. Talvez esse sorriso seja uma pequena gota no oceano cheio de maldade. Não importa.

Se queremos vencer e queremos viver, só existe uma reação aceitável.

Amor fati. Alegria. O sorriso indefectível.

Eu carrego essa moeda e outra, com a inscrição memento mori. A vida é finita. Pode acabar a qualquer momento. Quem garante que vocẽ tem tempo para se sentir melhor amanhã sobre o que aconteceu hoje? Quem garante que você pode ter meses e anos para ter uma perspectiva melhor sobre sua situação atual?

Só existe o agora. Não há tempo para ser miserável, nervoso ou amargo.

Há uma outra frase de Nietzche, que se tornou um clichê, que diz: o que não me mata, me torna mais forte.

Seja o que for que esteja acontecendo, o quão horríveis são as coisas que atiram em você, desde que não seja fatal, só existe uma reação possível:

Ame. Aceite. Use.


O artigo foi publicado no blog do autor e cedido gentilmente ao Administradores.com

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