O que a história das ‘vacas magras’ ensina sobre geração de valor

Administrar na crise é para poucos, confira nesse relato antigo algumas lições valiosíssimas acerca da competência e coragem necessárias aos gestores atuais para enfrentar os desafios da escassez

José foi o décimo primeiro filho do patriarca Jacó, sua história está registrada na bíblia a partir do capítulo 37 do livro de Genesis.

A convivência com seus irmãos não era nada pacífica tendo em vista que seu pai o distinguia dos demais, José era preferido pelo pai por ser filho único de Raquel a esposa que ele amava de fato, e se ainda não bastasse ele tinha sonhos constantes os quais relatava à família onde assumia posição à frente de todos, inclusive com os parentes inclinando-se aos seus pés. Isso foi enchendo a paciência dos irmãos a ponto de jogarem-no num poço na intenção de mata-lo, todavia Rubem o mais velho não o permitiu, então os demais decidiram então vende-lo como escravo para mercadores que iam ao Egito, José foi vendido por 20 moedas de prata e chegando àquele país foi adquirido pelo comandante da guarda pessoal de Faraó, um oficial chamado Potifar.

Enquanto Jacó teve José consigo procurou ensinar-lhe sobre a cultura e a literatura geral dos povos, aprendeu também sobre ciência, cálculos, economia e liderança, devido a isso se tornou um homem capacitado a lidar com tarefas diversas que envolviam a administração.

Assim que Potifar percebeu as habilidades daquele escravo o constituiu como mordomo chefe de toda a sua casa, e confiou tudo o que tinha às suas mãos, o problema maior ocorreu quando a mulher de Potifar tentou seduzi-lo a cometer adultério com ela, José era íntegro de conduta e regia-se por elevados princípios morais, por isso fugiu. Isso despertou a ira da mulher que passou a acusa-lo de abuso no intento de condena-lo à morte, todavia seu marido apenas o colocou na prisão por perceber que a história não estava bem contada.

Na prisão José continuou manifestando excelente capacidade administrativa, tanto que o carcereiro confiou a ele a guarda de todos os presos e o encarregou de todo o trabalho a ser realizado ali, desta feita começou também a despontar uma habilidade que lhe daria grande vantagem competitiva: a interpretação de sonhos.

DOIS PRESOS ILUSTRES

O padeiro e o copeiro de Faraó estavam detidos na referida prisão juntos com José, esses cargos eram de alta confiança no Egito antigo tendo em vista que ambos eram responsáveis pela alimentação do Rei podendo inclusive envenena-lo nesse ofício, por algum deslize aqueles homens se fizeram culpados ou no mínimo suspeitos de crime grave.

Os dois sonharam com episódios de sua rotina anterior e acordaram apreensivos quanto ao que poderia significar esses sonhos, José observou-lhes a perplexidade e ofereceu-se para ajudar de alguma forma, o copeiro sonhou com uma videira da qual saía 3 ramos que produziam uvas maduras, enquanto o padeiro sonhara com 3 cestos sobre sua cabeça e que as aves dos céus vinham e comiam.

Pela interpretação de José o copeiro seria readmitido no palácio do rei enquanto o padeiro seria enforcado, e assim sucedeu.

Depois de 2 anos completos penando naquela masmorra aconteceu algo que mudou a sorte do pobre injustiçado, o faraó Rei do Egito também teve um sonho e inquiriu todos os sábios, encantadores e adivinhos da terra para dar o significado, porém sem sucesso. Nessa hora o copeiro lembrou-se de José e deu relatório a faraó de tudo quanto José lhe fizera na prisão e de como era hábil para interpretar sonhos, de imediato mandaram chama-lo e apresentou-se ao Rei na segurança de que agora lhe fariam justiça.

Ao ser interrogado sobre seu dom incomum José atribuiu a Deus a resposta favorável que porventura viesse a dar, dessa forma Faraó lhe relatou como sonhara com 7 vacas gordas que saiam do rio Nilo e que eram seguidas por outras 7 magras que as devoravam e ainda assim continuavam magras, e no segundo sonho havia 7 espigas boas que saiam de uma haste e que também eram seguidas por 7 espigar secas e crestadas que devoravam as primeiras permanecendo com o mesmo aspecto.

José de imediato não apenas interpretou aqueles sonhos como apresentou a solução para a problemática envolvida, as 7 vacas boas e as 7 espigas boas seriam 7 anos da fartura, da mesma forma as 7 vacas magras e as 7 espigas secas seriam também 7 anos de seca e devastação que se seguiriam ao período, no entanto o período de escassez seria tão duro que faria desaparecer qualquer vestígio da abundância anterior.

A solução seria colocar um administrador no Egito que soubesse planejar e dirigir a produção do período fértil de maneira a organizar a oferta de grãos e controlar a demanda nos anos secos, um administrador que fosse capaz de fazer isso mantendo recursos suficientes para durar por 7 anos de escassez não seria fácil de encontrar nem naquele tempo nem hoje.

Faraó ficou tão perplexo que afirmou: “onde acharemos um homem como este, em quem há o Espírito de Deus?”

Só que assim como Potifar e o carcereiro da prisão, também percebeu que José demonstrava segurança e habilidade para lidar com situações problema, dessa forma o constituiu como governador do Egito tendo em vista que, se ele foi capaz não apenas de ver o eu iria acontecer como de prever uma solução viável para o problema, também deveria ter a aptidão necessária para administra-lo.

Moral da história

Aqui se vê o papel do administrador nato, aquele que mostra seu valor não pelo título acadêmico mas sim pela capacidade de gerenciar empreendimentos submetidos a anos sucessivos de crise, qualquer um com desejo de poder consegue assumir a direção de uma empresa que tenha fluxo positivo constante, mas não é qualquer um que suporta nem que seja apenas 1 ano de caixa negativo!

José não se tornou o primeiro ministro do Egito por não haver outro com formação específica, ele foi escolhido por que demonstrou conhecimento de causa e disposição para enfrentar desafios que para pessoas comuns seriam impossíveis de resolver.

A situação que lhe foi apresentada poucos líderes no mundo teriam coragem de encarar: 7 anos na gestão de produção para atender a demanda em 7 outros seguidos de produção zero! para uma tarefa dessas, competência é pouco.

A lição principal desse relato mostra que é precisamente no período das vacas magras que surgem os administradores responsáveis por fazerem as empresas e o mundo entrarem em um novo estágio de prosperidade.

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