A Ética e o Cocô do Cachorro do Vizinho

Após um dia de trabalho, chegando em casa, flagrei um vizinho e seu cachorro passeando por minha calçada. Desconfiado, estacionei a certa distância para observar o que poderia acontecer e então medir o grau de consideração que o simpático vizinho aparentemente demonstrava por mim e minha família. Não deu outra, o cão posicionou-se e “bomba” na calçada. Até ai tudo bem, mas para minha decepção, o desatento e agora indecente vizinho olhou a sua volta, não viu nada que aparentemente o incriminasse, e como se nada tivesse acontecido, continuou seu passeio, deixando para nós a árdua tarefa de “desarmar” o artefato. Que tristeza! Parecia ser um cara bacana. Outra vizinha tem o irritante hábito de buzinar alucinadamente até sua pobre mãe abrir o portão automático, através da janela da sala. O problema é que muitas vezes é após a meia noite. Faz alguns dias recebi a triste notícia da morte de uma das professoras de minha filha. O motivo? Fora atropelada por uma moto em alta velocidade.

Junto com essas histórias tão comuns do cotidiano, nos últimos meses, temos acompanhando as denúncias do mensalão, a deprimente tentativa de seus envolvidos em justificar suas razões e a ridícula intenção de seus delatores em posar de mocinhos. Na ótica do próprio umbigo, cada um está na sua razão. Pessoalmente, não tenho o hábito de julgar os acontecimentos da vida como certo ou errado (por que isso é apenas mais uma invenção humana), mas tento compreender a vida através da imutável lei da natureza da ação e reação. Não há nada tão pragmático quanto isso. Mas o que realmente está em jogo é como as ações individuais estão influenciando, primeiro: a própria vida; segundo: a vida dos outros e terceiro: as gerações futuras. Corrupções, mentiras, cocô na calçada, buzinada na madrugada, alta velocidade são ainda pequenos sintomas da desgraçada história humana, motivada pela intenção mesquinha de levar vantagem em tudo. Se tal atitude representa o prejuízo alheio, ai houve uma invasão muito séria. Não importa se ferrou a nação, o vizinho ou o desconhecido, o cerne da coisa é o mesmo, e nasce do egoísmo e da ignorância sobre um sentido mais amplo da vida e que nos leva a uma incapacidade de se importar genuinamente com o próximo. A conivência e negligencia com qualquer coisa que prejudique o bem comum nos torna igualmente egoísta.

O que acho ainda mais engraçado é que nunca se falou tanto de ética como nos últimos tempos. Ética nas empresas, ética nos negócios, ética na política (meu Deus, esses são os piores). Assim como um garoto apaixonado, pela musa da escola, fala demasiadamente de seu objeto de paixão (justamente porque não a tem), a sociedade está sedenta pela ética. Queremos, exigimos, bradamos, mas não praticamos. O que precisamos entender é que a mudança começa pelas pequenas coisas no cotidiano, nos pequenos atos. Parece-me que só vale a pena ser ético se alguém estiver olhando, se não for assim, parece que não tem graça.

Às vezes me pergunto se as pessoas realmente sabem o que significa ética. Então, não custa nada explicar. A palavra vem do grego Êthos e Ethos, que significam respectivamente “habitat, morada, abrigo” e “conduta, comportamento”. Então ética envolve os aspectos físicos (ambiente, local onde se vive) e comportamentais (atitude, valores que norteiam a convivência) que nos permite utilizar, de forma harmônica e sustentável, todos os bens da vida, permitindo que nossos descendentes também o façam. Numa abordagem mais objetiva, ela existe para garantir a sobrevivência das pessoas, mas é equivocadamente tratada como um valor. E ainda existem empresas que afirmam que a ética é um de seus valores corporativos.

Ética não pode ser um valor por si só, mas deve ser um conjunto de valores norteadores do convívio social. E por falar em valores sociais, como podemos tê-los num país onde a escola pública está em plena decadência e noventa e nove por cento das particulares possuem um currículo focado em apenas preparar crianças e jovens a serem mais competitivos para o mercado de trabalho. Em ambos os casos negligenciam a importante missão de formar pessoas integras, saudáveis, equilibradas para o convívio social. Estamos sem regras, sem um norte e isso aparece nas inúmeras contradições no cotidiano. Minha conclusão é que a causa da desarmonia social não é a ausência de valores (pois todos temos os nossos), mas a diversidade de valores.

Quando ouço alguém (um deputado ou outro qualquer) falar de ética, tenho dificuldades para entender o que querem dizer exatamente. Convivi com inúmeras pessoas cultas e bem formadas, que levantaram com paixão a bandeira da ética e que, em determinado momento, escorregaram em sua própria conduta, demonstrando total imaturidade ou sua real malevolência.

O fato é que vivemos uma “ética de conveniência”, onde prevalece “dois pesos, duas medidas”. O que assistimos nos cenários corporativos, políticos e sociais é o discurso muito diferente da prática. Mostram um quadro de honestidade incondicional, solidariedade exemplar, verdade e integridade a qualquer prova, mas lamentavelmente, nos bastidores, ainda ouvimos sobre corrupção, ameaças, violências, falsidades, dissimulações, fofocas, jogos de vaidades e desrespeito. Um grande mestre yogue uma vez disse: “o homem moderno, diante dos erros alheios exige justiça, mas diante de seus próprios erros, clama por misericórdia” A humanidade está seriamente perdida, doente da alma, sem rumo. E o pior. Está tão mergulhada no egoísmo e na ignorância que não têm percebido em que mar de lama tem se entregado de alguns séculos para cá.

Não será o Fome Zero, a reforma tributária ou política que resolverão os problemas da sociedade, mas uma criteriosa reforma intima que todos nós necessitamos fazer. Assim como um organismo que agrega bilhões de células e que a saúde e vida desse organismo depende da saúde de cada célula, a sociedade depende da saúde mental, emocional e espiritual de cada individuo que habita esse planeta. Conscientes ou não, comprometidos ou não, somos todos co-responsáveis.

Como disse o Prêmio Nobel Jacques Monod “O Homem sabe finalmente que está sozinho na imensidão insensível do Universo, do qual surgiu pôr obra do acaso. Seu destino não está escrito em lugar algum. Nem tampouco seu dever. O reino do alto ou as trevas de baixo: cabe a ele escolher”.

E o cocô do cachorro do vizinho? Das sujeiras a menor.

Carlos Legal é administrador de empresas e consultor organizacional

e-mail: carloslegal@legalas.com.br
site: www.legalas.com.br

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