Atributos do Auditor Interno no setor público

Pode-se, em um exercício, listar alguns atributos pessoais que são essenciais a atividade de auditoria interna no setor público, com as devidas justificativas e contextualizações.

Com a edição em 2017 da Instrução Normativa nº 3, de 9/06/2017, do Ministério da Transparência e Controladoria-Geral Da União (CGU), que estabelece o Referencial Técnico da Atividade de Auditoria Interna Governamental do Poder Executivo Federal, inspirada no cânone internacional para essa atividade, as Normas Internacionais para a Prática Profissional de Auditoria Interna do IIA (The Institute of Internal Auditors), ressurge, revisitada, a ideia dos Requisitos Éticos do Auditor Interno, assunto tratado anteriormente na Instrução Normativa n.º 01/SFC/2001, como Normas Relativas aos Servidores do Sistema de Controle Interno, mas que tratam todos estes normativos de atributos pessoais necessários para essa função.
A norma de 2017 traz requisitos importantes no campo comportamental, como: Integridade, Autonomia Técnica, Objetividade, Sigilo Profissional, Proficiência e Zelo Profissional. Um norte que limita, qualifica e protege o Auditor Interno e o seu trabalho, sendo características consagradas e que se aplicam a organizações públicas e privadas em qualquer lugar do globo terrestre, com as devidas adaptações culturais. Mas, é possível enumerar outros atributos, mais customizados a realidade brasileira do setor público, e que são essenciais?
Esse é o desafio dessas breves linhas. Pode-se, em um exercício, listar alguns atributos pessoais que são essenciais a atividade de auditoria interna no setor público, com as devidas justificativas e contextualizações, como se verá a seguir.
Agregador- O Auditor Interno, para agregar valor à gestão pública, necessita também convergir pessoas e setores em função da identificação e resolução de problemas no decorrer de seus trabalhos avaliativos. Muitas vezes o relatório de auditoria funciona como uma ponte que comunica setores, e os estimula a ações coordenadas. E para isso, o Auditor Interno necessita ser reconhecido e empoderado como um agente que não se limita a um diagnóstico, e sim que sabe levar aquela informação aos setores envolvidos, para por meio do monitoramento, estabelecer espaços e tempos para a resolução dos conflitos, mediando forças e demandas.
Dialogador- A Auditoria Interna é uma função limítrofe. Situa-se verticalmente entre os órgãos de Accountability, como o Controle Interno e Externo, e o gestor, a primeira linha de defesa. Horizontalmente, apesar de estar na terceira linha, pode-se dizer que ele se coloca entre outros agentes no interior da organização, como o Ouvidor, o Corregedor, o Gestor de Riscos e o Responsável pelo Compliance. Nessa rede de atores e forças, ele precisa ser um dialogador, que capte demandas e possibilidades de interação, para subsidiar seu planejamento, e que por meio da comunicação dos resultados de seus trabalhos, estimule a melhoria dos controles internos e a realimentação para os setores da casa. Para isso, o Auditor Interno não pode ficar insulado na organização, cabendo a ele interagir com aqueles que se relacionam com a sua atuação, seja como objeto de avaliação, seja como fonte de informações e demandas, para que seu trabalho seja algo vivo e presente nas discussões da organização.
Visão integral- Um Auditor Interno necessita conhecer a sua organização, seu negócio, seu histórico e seus principais problemas. Ele, como avaliador-assessor, deve ter na sua mente as questões presentes da organização, e que estratégias ele tem adotado para, por meio de suas atividades, enfrentar estas, atento as mudanças da dinâmica do ambiente. Um Auditor Interno restrito, com uma visão pontual, minimalista, não consegue inserir seus apontamentos no universo das discussões em voga, e termina esvaziado, sem lograr êxito no seu compromisso com a melhoria da gestão por meio dos controles internos. O seu posicionamento, inclusive, próximo ao corpo dirigente, e seu acesso livre como auditor, lhe dão essa possibilidade de conhecer integralmente a organização, mas por vezes observa-se que esse locus é pouco explorado.
Capacidade de priorizar- Espera-se do Auditor Interno que ele saiba diferenciar o que é relevante no contexto da organização, para que não aplique seus reduzidos recursos em ações que pouco contribuem com as questões em voga. Para isso, deve se despir da paixão e de visões pessoais, para raciocinar com a lógica da instituição, pensando na materialidade, nos riscos e nos objetivos estabelecidos, para que seus trabalhos dialoguem com o que tem potencial de agregar valor à gestão, não somente no sentido do que já aconteceu, mas do que está por vir, na análise de tendências e fraquezas percebidas. Priorizar é mais que um algoritmo matemático, e exige um conhecimento dos aspectos formais e informais da instituição, o que preocupa as pessoas, as expectativas dos atores, internos e externos, para que seus trabalhos sejam alinhados com o que está na superestrutura da organização, e o Auditor Interno tenha sempre na sua manga trabalhos relevantes, que o legitimarão para dentro e para fora.
Viabilizador- Não se deseja um Auditor Interno “empacador”, que atravanca os projetos, por vezes pela crença de que seu trabalho é derrubar coisas, e não construir/reconstruir. Espera-se dele que contribua com o desenrolar das ações, e assim, ele será procurado e ouvido. Mas, isso implica em abrir mão de verificar a legalidade, de fazer o certo? Não, pelo contrário, no trabalho Ex-Ante de consultoria, ele aponta, com a experiência de seus trabalhos, os caminhos no que se refere aos controles internos, para se promover a garantia razoável de atingimento dos objetivos, e Ex-Post, ele avalia a suficiência desses mecanismos, propondo correções, em um circuito de ações que converge e viabiliza os objetivos daquele projeto. Preso a detalhes, a formalismos, ou ainda, a guerras internas, o trabalho do Auditor Interno dialoga pouco com o que se deseja das Políticas e seus respectivos programas, e enfraquece assim seu caráter estratégico. E para isso, ele precisa identificar aliados, para ali depositar ações de melhoria que permitam seu trabalho ajudar a quem quer ser ajudado.
Como se vê, alguns outros atributos podem ser enumerados, dentro do contexto de organizações públicas imersas entre atores externos e internos que se relacionam com a figura do Auditor Interno e que esperam dele mais do que uma função de xerife, no alto de um salto de autoridade apontadora. Esperam dele o papel de um cão de guarda atento, que capta verdades mais profundas, emite alertas e propõe soluções, enlaçando setores, fortalecendo a cultura preventiva, na construção da governança cotidiana, e na reconstrução diante dos problemas que eclodem, como uma ferramenta do corpo dirigente, é fato, mas que só tem sentido inserida nessa rede que rodeia a organização.

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