Irmãos Villas-Bôas: os sertanistas empreendedores do Brasil

Entrar para história, às vezes, depende da coragem de se arriscar

Wikimedia Commons

Deixar a zona de conforto e se arriscar em um empreendimento que tem 50% de chances de não dar certo, movido pelos 50% de chances que existem de ser algo capaz de mudar o mundo. Essa bem que poderia ser simplesmente uma das milhares de definições prontas sobre o que é empreendedorismo que existem por aí. E, de certa forma, não deixa de ser. Mas é, principalmente, um resumo do resumo do que foi a vida e o trabalho dos irmãos Orlando, Cláudio e Leonardo Villas-Bôas.

No final dos anos 1930, o presidente Getúlio Vargas lançou a Marcha para o Oeste, com o intuito de estender a presença do Estado ao Centro-Oeste e Norte do país. Em 1943, os irmãos Villas-Bôas se alistaram na primeira expedição do projeto, a Roncador-Xingu, deixando tudo para trás, inclusive as carreiras profissionais que tinham até então. A viagem para aquele mundo desconhecido mudou para sempre suas vidas e se transformou em um capítulo importante da História do Brasil.

Instruídos, os Villas-Bôas precisaram se passar por analfabetos para serem aceitos no grupo, já que o intuito do governo naquele momento era recrutar, majoritariamente, trabalhadores braçais, para abrir caminhos e ocupar terras. No entanto, graças aos conhecimentos que tinham sobre a região alvo da expedição e os métodos de organização que dominavam, os irmãos logo assumiram postos de comando. Orlando, o mais velho dos três, acabou se tornando o grande líder.

Grande negociador, Orlando foi o responsável por mediar a maioria dos contatos feitos na região e intermediar a maior parte dos conflitos. Com uma visão sistêmica que poucos tinham, foi capaz de garantir o andamento da expedição e, ao mesmo tempo, garantir a preservação do espaço e cultura das comunidades indígenas encontradas no caminho.

Sem soberba pela posição de liderança conquistada, os três colocaram a mão na massa tal qual todos os outros sertanistas integrados na expedição. Abriram estradas, construíram pontos de apoio, carregaram suprimentos e fizeram vários outros trabalhos braçais, como qualquer outro integrante da expedição. No fim das contas, tomaram parte em todas as etapas do processo que lideraram.

Ao longo de quase 30 anos dedicados ao trabalho entre o Centro-Oeste e o Norte, os irmãos Villas-Bôas foram responsáveis por conduzir a fundação  de quase 40 cidades e vilas, a abertura de 1.500 km de estradas, a criação do Parque Nacional do Xingu e, principalmente, a desconstrução da imagem histórica que o país tinha de que os índios eram simplesmente selvagens, sem cultura nem organização social.

A jornada dos três irmãos foi contada nos livros de História, no cinema e na TV pela ótica da aventura, mas poderia, muito bem, ser um grande case em livros de Administração. No fim das contas, ela é um exemplo do que é empreender e, principalmente, da diferença que uma boa administração - conduzida por líderes capazes de enxergar todos os fatores que envolvem o empreendimento - faz para o sucesso de uma iniciativa. Afinal, os sertanistas puseram em prática, como poucos, habilidades que o mercado espera do profissional ideal: iniciativa, "acabativa", liderança, capacidade de negociação, visão sistêmica e paixão.

LINHA DO TEMPO

1943 – Os irmãos ingressam na Expedição Roncador Xingu
1947 – Grupo ergue o posto Jacaré, o mais importante da região na época
1954 – Irmãos Villas-Bôas usam influência na imprensa para pressionar o governo federal a barrar ocupação do Xingu incentivada pelo governo do Mato Grosso
1960 – Orlando e Cláudio recebem a missão de marcar o centro geográfico do Brasil
1961 – O Parque Indígena do Xingu é criado
1967 – Governo cria a Funai e oferece a presidência a Orlando, que rejeita
1976 – Cláudio e Orlando são indicados ao prêmio Nobel da Paz pelo resgate das tribos xinguanas, levadas para o Parque do Xingu.

As opiniões veiculadas nos artigos de colunistas e membros não refletem necessariamente a opinião do Administradores.com.br.
Avalie este artigo:
(3)