Pecadinhos da auditoria interna

Como toda profissão, o auditor interno tem seus pecadinhos, para os quais ele deve estar atento.

Auditoria interna não é uma função simples. Como toda estrutura intermediária entre outras estruturas, sofre as agruras da mediação, as pressões por demandas que precisam ser equacionadas diante dos múltiplos riscos e ainda, agregar valor à gestão, gerar uma resultante.

E para se ter algum sucesso nessa função, por óbvio, são necessárias competências técnicas e outras de caráter comportamental, como a capacidade de se expressar, dialogar, ouvir (audire vem de ouvir) e ainda, de enxergar o que é mais relevante em um contexto.

O presente texto, despretensiosamente, traz dez pontos, pequenos pecadinhos, que se incorporados a prática de auditoria interna, podem trazer óbices, atrapalhando o sucesso de tão relevante função, relembrando as palavras sábias e ainda atuais do articulista Stephen Kanitz, na revista Veja em 1999; “Portanto, o Brasil não é um país corrupto. É apenas um país pouco auditado.”
Vamos aos pecadinhos:

1- Apresentar opinião que não esteja baseada em metodologia: O ofício de auditor interno não prevê tarefas como ser um guru, ou mesmo de cartomante ou comentarista de telejornal Opinião de auditor é um resumo qualificado do que revelaram os seus trabalhos de auditoria. Fugiu disso, é chute.

2- Recomendar uma solução estapafúrdia, inviável e que não mitigue os problemas detectados: Por óbvio que recomendar soluções é muito difícil, e para isso existe o diálogo, a pactuação, e as metodologias próprias. Não pode é se se livrar do problema com a proposição de uma solução inviável, descontextualizada da realidade. O bom auditor é medido pela articulação na construção de soluções, e não puramente por apontar problemas.

3- Ser alarmista, vendo “chifre na cabeça de cavalo”: Por ter acesso a muitas informações, e ser cobrado pelo aspectos preventivo (as vezes futurólogo), o auditor interno pode se converter no profeta do apocalipse. O auditor interno não pode ser um gerador de ambiguidades, e para evitar essa postura existem critérios de avaliação do que é prioridade, como a materialidade (valor financeiro), a criticidade (risco), a relevância (envolvimento com os objetivos) e a vulnerabilidade (maturidade dos controles).

4- Ser cabeça dura e aferrado a posições: A autoridade com humildade é uma característica rara, mas essencial para auditores internos. Pelo diálogo, o profissional deve ser capaz de reavaliar as suas posições diante de fatos novos, garantindo assim o respeito de seus interlocutores, mudando o que deve ser mudando e defendendo o que é relevante.

5- Focar no erro e não na solução: Como um caçador de recompensas, um Django moderno, é patológico quando o auditor interno persegue o erro como finalidade e não como meio de melhoria, oculto nesse desiderato, por vezes, um desejo de atacar pessoas, em vinganças pessoais ou na supervalorização do seu trabalho. Esquece o profissional que o seu ofício é avaliativo e propositivo, no qual o erro tem seu valor, sempre contextualizado em relação aos objetivos.

6- Concentrar-se em fatos e não em sistemas administrativos: Atuando nos sistemas de gestão, baseando-se em uma visão de riscos, agregando valor aos objetivos, o auditor interno se vacina das tentações da fofoca, do casuísmo, do abastecimento da rádio corredor, fugindo, ou tentando fugir, do jogo natural de forças endógenas a sua organização, garantindo, pela sua luta por isenção e independência, a credibilidade e a capacidade de interlocução.

7- Isolar-se da gestão, misturar-se a ela: Os extremos são ruins, em especial em uma função mediadora, que demanda um distanciamento efetivo, que permita a opinião independente que aprimora a gestão de forma efetiva, mas sem se comprometer com os processos decisórios. Gestor é gestor, auditor é auditor. Papéis diferentes e que se relacionam na construção da eficiência. Esse lócus precisa ser encontrado em cada unidade, em cada organização, com alto grau de customização.

8- Buscar um planejamento que não dê conta dos riscos: Naturalmente, em uma auditoria interna, os recursos humanos são sempre escassos frente as demandas, essas por vezes imprevisíveis. Se não racionalizar o seu planejamento a luz dos riscos de atingimento de objetivos, o auditor e a sua equipe tomarão seguidas goleadas, com “muita tosa e pouca lã”. Ter pouco recursos é uma realidade, utilizá-los bem é um dever.

9- Não ser claro em suas manifestações: Em mais esse pecadinho, tem-se que a opinião qualificada, com fins corretivos, é o produto principal do auditor interno. Se ela não for clara, conclusiva, específica, não será possível a recomendação que muda a realidade e fortalece os controles. Opiniões evasivas são desperdícios operacionais.

10- Agir apenas quando demandado: Auditor interno da autópsia, do “leite derramado”, da descrição pós e jornalística, agrega pouco a causa, gerando apenas custos de transação para um problema já materializado. A força da auditoria interna é o seu caráter preventivo, em especial por estar próxima a gestão.

Como se vê, esse breve receituário, essa bula papal de condutas pouco recomendadas, não é uma lista exaustiva ou absoluta, mas procura trazer reflexão sobre a prática dessa função, que tem como desafio angariar a adesão do gestor e a confiança dos reguladores externos, harmonizando essas interações para aprimorar a gestão, melhorando seus controles que permitam o atingimento dos objetivos e que deem conta dos riscos. Um desafio que demanda uma visão estratégica da atividade de auditoria interna, que habita faz mais de meio século em nosso país.

Texto oriundo da fala do autor no 46º FONAITec, Fórum dos Integrantes das Auditorias Internas do Ministério da Educação, realizado no período de 22 a 25 de maio de 2017, na cidade de São Bernardo do Campo/SP, no auditório da Universidade Federal do ABC
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