“É absurdo chamarem-me de marxista”, diz Thomas Piketty, autor de Capital no século XXI

Uma entrevista exclusiva, em Paris, com o professor francês, cuja tradução do livro chegará ao Brasil em novembro

Thomas Piketty subiu ao estrelato mundial em poucos meses desde a tradução para inglês pela editora de Harvard do seu livro publicado na França, na língua-mãe do autor, no ano passado pela editora Seuil. O termo “Capital” no título – “Capital in the Twenty-First Century” - atraiu a atenção, recordando subliminarmente outro “O Capital”, o do defunto Marx, e o diagnóstico sobre o que este professor francês designa de “contradição central do capitalismo” gerando, de novo, elevados graus de desigualdade económica e social e de forte concentração da riqueza (e do poder) no topo dos “0,1% ou “1%”, caiu como um bomba.

A projeção mundial do livro do autor levou a revista “Bloomberg Business Week” a recentemente fazer uma capa ao estilo das estrelas de cinema ou de rock, em que o “Dr. Doom” (Nouriel Roubini) é passado para segundo plano.

O diagnóstico histórico realizado por Piketty agradou à maioria, mesmo aos críticos anglo-saxónicos, mas a proposta de política fiscal “reganhando o controlo do capitalismo” foi criticada violentamente por muitos no plano da teoria económica e da economia política. As suas propostas em matéria tributária são classificadas por alguns como puramente de confisco, raiando a expropriação.

Piketty, de 43 anos, afirma-se da geração “pós-Guerra Fria”, pragmático, interessado sobretudo no debate, e militante de que estas questões sejam resolvidas democraticamente e não nos gabinetes técnicos ou por uma elite. Recebeu-me num exíguo gabinete da École d’Économie de Paris, que ele ajudou a criar, pejado de livros e com uma temperatura abrasadora. Como o telefone em cima da secretária não parava de tocar, ele desconectou-o literalmente. Em 2012, ele foi um dos 42 economistas franceses que, numa carta aberta, apoiaram François Hollande na candidatura presidencial. O Nobel Paul Krugman disse que o professor francês escreveu provavelmente o livro da década – a ver vamos.

A conversa original realizada a 19 de maio foi editada posteriormente para uma versão mais reduzida em entrevista na edição impressa do semanário português “Expresso”, publicada a 23 de maio, no próprio dia em que o “Financial Times” lançaria a crítica ao livro. A versão completa da entrevista, nomeadamente abordando o tema da austeridade na Zona Euro, pode ser lida no portal Janelanaweb.com.

A escolha do título foi um piscar de olhos ao “O Capital” de Karl Marx? A revista britânica “The Economist” apelidou-o recentemente de “Um Marx moderno”…

É ridícula essa comparação. O “Capital no Século XXI” é um livro de história sobre o dinheiro, o rendimento e o capital, sobretudo desde a Revolução Industrial. O objetivo foi colocar o tema das desigualdades numa perspetiva histórica e contribuir para fazer agora um debate democrático mais informado sobre estas questões.

E sobre o seu marxismo?

Sobre o meu “marxismo” é absurdo – sou da geração pós-Guerra Fria, pós-comunista. Tinha 18 anos em 1989, quando o Muro de Berlim caiu. Nunca tive nenhuma tentação pelo comunismo. A questão para mim sobre o mercado ou a propriedade privada nem se coloca. Estou vacinado contra a retórica anticapitalista. A questão é meter o mercado ao serviço do bem comum e da democracia e não a democracia ao serviço do mercado.

Mas alguns dos grandes economistas do século XIX atraem-no…

Partilho com alguns deles, como David Ricardo e Karl Marx, a preocupação de colocar a questão da distribuição da riqueza no centro da análise económica. Durante a “Guerra Fria” no século XX houve uma espécie de tabu sobre a questão da distribuição nas economias capitalistas, em parte por boas razões, pois houve no pós-guerra uma fase de crescimento, e noutra parte por más razões, pois esta fase já terminou há muito.

E a questão é ainda mais pertinente depois desta crise global recente?

Sobretudo depois desta crise.

O seu livro é uma homenagem a Simon Kuznets, um nome provavelmente desconhecido da maioria dos leitores não especializados?

Sim. Eu reivindico Kuznets, ainda que não partilhe o otimismo dele na época. O trabalho dele sobre a distribuição desigual do rendimento publicado em 1953 não foi prosseguido infelizmente. As séries dele limitavam-se aos EUA e a um período de 1913 a 1948. Há também razões que se prendem com o fosso entre as várias disciplinas sociais. Esse tipo de trabalho em que Kuznets foi pioneiro parecia demasiado “histórico” para os economistas e muito “económico” para os historiadores. E as barreiras entre as diferentes ciências sociais solidificaram-se com o tempo.

Essa atração pela multidisciplinaridade levou-vos a retomar Kuznets?

O que fizemos agora, com uma vintena de colegas, foi alargar no tempo – um período de 200 anos – e geograficamente – abrangemos quase 30 países nos cinco continentes [incluindo Portugal com a evolução de 1936 a 2005] e temos em curso mais três dezenas, incluindo, por exemplo, o Brasil [onde houve dificuldade em obter dados sobre o Imposto sobre a Renda junto da Receita Federal] e o Chile. É preciso não esquecer que Kuznets não tinha os utensílios de trabalho que temos hoje. E a conclusão que tirámos da nossa investigação foi menos otimista do que ele. O nosso trabalho é, também, uma herança da escola britânica de Anthony B. Atkinson, nomeadamente em relação ao estudo da herança e do seu papel na distribuição da riqueza. Com o Tony, Facundo Alvaredo e Emmanuel Saez colocámos na web a The World Top Incomes Database.

E qual foi a conclusão menos otimista que tirou?

Que há uma reemergência clara da desigualdade depois dos anos 1980 e que isso foi devido a mudanças políticas nas últimas décadas devido à política fiscal e à finança. O peso das fortunas privadas no início do século XXI parece estar na iminência de regressar aos níveis elevados do século XIX. O rácio do capital em relação ao rendimento nacional caiu quase 2/3 entre 1914 e 1945 e, depois, mais do que duplicou entre 1945 e 2012. Em 2010, aquele rácio regressou aos níveis anteriores à 1ª Guerra Mundial, ou mesmo ultrapassou-os se for medido em relação ao rendimento disponível das famílias.

O livro é também um tributo ao economista americano Thorstein Veblen, outro desconhecido do comum dos leitores? Veblen trouxe para a ribalta a importância da “classe rentista”, usando o conceito de rendas no sentido social original do termo (e não no atual usado pelo FMI, como aliás sublinha no seu livro)…

Com Veblen há, de facto, uma proximidade na análise das classes sociais e na importância do património como fonte de riqueza. A questão do “rentismo” não é uma história de números, mas social. É uma história viva que tento meter em cena, inclusive recorrendo à literatura, que cito no livro.

Se não houver uma mudança política onde vai conduzir a trajetória atual de concentração da riqueza nos famosos “0,1%” ou mesmo “1%” da população? Essa tendência é politicamente viável?

Sinto-me melhor a analisar o passado do que a fazer previsões. No entanto, quero sublinhar que essa tendência de concentração é particularmente mais forte nos EUA do que até na Europa - por aqui ainda temos o estado social e uma política fiscal mais atuante que limita as coisas. A questão do financiamento privado das campanhas políticas nos EUA é um sinal que pode ameaçar a democracia. A questão do domínio de uma oligarquia não é apenas um problema da Rússia e da China – coloca-se nos EUA. Na Europa está-se mais distante desta ameaça, mas há o problema de uma lógica de concorrência fiscal desenfreada em relação aos impostos sobre as empresas que pode facilmente levar a uma dinâmica de forte desigualdade no longo prazo.

Corremos o risco do regresso a uma sociedade dominada por uma oligarquia, como diz Paul Krugman, ou da criação de uma economia dominada por uma plutocracia, uma “plutonomia”, um termo cunhado por analistas do Citigroup, esmagando as classes médias?

Eu acho que a emergência de uma classe média patrimonial, que foi um dos traços do século XX, é uma conquista frágil. A parte das classes médias na riqueza nacional tem diminuído, mais claramente nos EUA. Não sei predizer onde isso poderá levar. Mas uma coisa julgo certa: se a evolução atual de concentração da riqueza prosseguir, a parte das classes médias vai continuar a cair.

É curioso que muitas da recensões do seu livro elogiam-no em relação às três primeiras partes, à análise histórica e ao diagnóstico, mas depois zangam-se seriamente com a parte final intitulada “regulando o capital no século XXI”. Alguns mais radicais acusam-no mesmo de ser uma espécie de Marx disfarçado de cobrador do fisco…

De facto há quem se tenha interessado mais pelas primeiras parte do que sobre a parte final, como o “The Economist” e o “Financial Times”. E à medida que avançaram no livro começaram a inquietar-se. “Ó, como o senhor Piketty está possuído de ideologia!”. Achei isso divertido. Penso que os tabus ideológicos estão do lado deles e parece-me que ainda não estão prontos para um debate sério. A abertura de espírito termina lá onde começam os interesses do portefólio. Cada um pode tirar da análise que faço nas três primeiras partes as conclusões que quiser. Se têm outras propostas, com base nesse diagnóstico, ótimo, que as apresentem. Por exemplo sobre a minha proposta da política fiscal se basear num imposto progressivo não foi Marx nem a União Soviética que o inventaram.

Quem é que deu o primeiro passo?

Foram os Estados Unidos que começaram a impor taxas acima de 70% nos escalões mais elevados, primeiro sobre os rendimentos em 1919-22 e depois sobre o imobiliário em 1937-39. Em 1942, a taxa máxima subiu para 88% e em 1944 chegou aos 94%, devido a várias sobretaxas. Entre 1932 e 1980, a média foi de 81% e que eu saiba isso não matou o capitalismo norte-americano ao longo de meio século. É importante sublinhar que nenhum país do Continente europeu jamais impôs tais níveis. O meu objetivo é abrir um debate sobre as vantagens e desvantagens de um tal tipo de imposto. Não pode haver anátemas.

Alguns acusam-no de querer meter a mão fiscal em toda a riqueza…

A política fiscal de que falo aplica-se a níveis muito altos de rendimento e de stock de riqueza líquida. Não se destina às classes médias. Mas isso depende da realidade concreta da relação entre a taxa de crescimento anual do retorno do capital (depois de impostos e de perdas) e a taxa de crescimento do produto. O problema atual é que o crescimento económico nas economias desenvolvidas é medíocre e a taxa de retorno do capital é muito superior. O “The Economist” e o “Financial Times” querem outras soluções distintas da fiscal sobre o stock de riqueza líquida e os rendimentos mais elevados. Mas o meu ponto de vista é que não são opções que se possam substituir umas às outras. São complementares. Mas em relação a muitas críticas é preciso que primeiro leiam o livro. Há muita gente que critica o livro mas que nem sequer o leu [risos] ou o leu muito rapidamente.

Quais são os próximos passos da sua investigação?

Por agora não tenho nenhum plano em relação à continuação do livro. Há um projeto coletivo, de que já falámos, o The World Top Incomes Database. Estamos a alargar o leque de países sobretudo entre as economias emergentes. E vamos dar particular atenção à China, que já temos na base de dados. Estive recentemente nesse país, numa conferência sobre o património, e começa-se a discutir a possibilidade de um imposto sobre a riqueza. Os chineses querem uma solução estrutural e não medidas avulsas, caso a caso, como na Rússia, através de expropriação ou cadeia.

O conhecido professor de Harvard, Lawrence Summers, numa crítica que publicou recentemente na revista “Democracy”, considera-o um bom candidato ao Prémio Nobel de Economia por este trabalho…

Não tenho grandes comentários a fazer. Não sou candidato [risos]. Vejo-me mais como investigador em ciências sociais do que estritamente como economista. A economia tem de se abrir mais para a história e mesmo para a filosofia, como acontece com Amartya Sen. Não tenho fantasmas sobre o Nobel. Importa-me sobretudo que o livro inspire mais a aproximação entre diversas ciências do que a importância de medalhas. Vejo a Economia como uma subdisciplina das ciências sociais. Não me agrada a expressão “ciência económica”. Muitos dos métodos dos economistas levam-nos muitas vezes a negligenciar a história e o facto de que a experiência histórica continua a ser a nossa principal fonte de conhecimento.

Esperava este surpreendente sucesso de vendas nos Estados Unidos e na Amazon com a tradução em inglês do livro que publicou em francês no ano passado?

A editora em inglês Harvard University Press não estava habituada a esta situação [risos]. Não me passava pela cabeça este sucesso, mas eu esperava uma boa reação, confesso.

Por quê?

Não é um livro para economistas. Não necessita de bagagem técnica.

Mesmo as fórmulas que usa no livro explica-as bem e quanto ao detalhe remete para um anexo online…

Pois. É mais um livro de história do dinheiro e virado para um público internacional curioso por estes temas. Os EUA têm uma história complicada com a desigualdade. Mas o livro também está a ser bem recebido na Europa, na Ásia e na América Latina. Entre outras, a tradução para português está em curso no Brasil [vai ser lançada em novembro no Brasil, pela editora Intrínseca] e em Portugal (em outubro]. Na Europa claro que poderão haver distintas leituras do livro, por exemplo sobre a dívida pública, de que já falámos. O que eu pretendo é colocar estas questões numa perspetiva histórica e não ideológica. A mensagem do livro é que não há “forças naturais” no sistema que evitem o que se passou no século XIX. É preciso reler o que se passou então para evitar que essa deriva se repita hoje.

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