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Economia Brasileira - Década de 1980

Fatos relevantes da economia brasileira na década de 1980

Edson Pereira,

BRASIL ECONOMIA DÉCADA DE 1980

CRISES DE 1980 a 1990

O Comitê de Datação de Ciclos Econômicos da FGV identificou que a maior crise que o país passou durou 30 meses entre junho de 1989 e dezembro de 1991. Esse período engloba a fase mais crítica de hiperinflação, quando o índice alcançou 80% ao mês e o Plano Collor , que teve como medida mais traumática o confisco, por 18 meses, dos saldos de conta-correntes e cadernetas de poupança.

Cronologia das crises econômicas no Brasil

Início

Recessão

Fim recessão

Número

Meses reces.

Número

Meses anterio

Out/1980

Fev/1983

28

-

Fev /1987

Out/1988

20

48

Jun/1989

Dez/1991

30

8

Dez/1994

Set/1995

9

36

Out/1997

Fev/1999

16

25

Dez/2000

Set/2001

9

10

Out/2002

Jun/2003

8

13

Jul/2008

Jan/2009

6

61

Fonte: FGV, in F s P , 12.02.2010, p. B-4.

1981 – RECESSÃO

Em 1981 os bancos internacionais interromperam o fluxo de financiamentos por um erro de regulamentação bancária do governo americano, que proíbe seus bancos de emprestar mais de doze vezes seus capitais, de acordo com regra fixada em 1933 e mantida nos acordos sucessivos que na última versão são os acordos de Basiléia I e II.

Em 1980 esses bancos tiveram seus capitais corroídos pela inflação americana de 14%%. Como a regulamentação americana não prevê a correção dos capitais dos bancos, aquelas instituições superaram seu nível máximo de empréstimos (Stephen Charles Kanitz, in Veja, 16.06.93, p. 98). 

Para o Brasil as consequências foram terríveis. O país passou de uma década de 1970 em que recebia recursos reais do exterior, complementando a poupança doméstica, para uma situação de remessa de recursos reais para o exterior. Então houve drástica redução da capacidade de investimento, além de crise no balanço de pagamentos.

Portanto em 1981 não existia um superendividamento do Brasil que teria sido causa da interrupção dos financiamentos.

Em 1981 o PIB caiu 3% e a inflação permaneceu no patamar de 100% até 1982. O Brasil entrou em uma recessão em 1981 que se arrastou por nove trimestres. Foi a mais intensa na história do país, com uma contração acumulada no PIB de 8,5%%.

Em 1982 o México decretou moratória em sua dívida, precedendo o Brasil que já estava em colapso.

Em 1983 com novo pacote ortodoxo monitorado pelo FMI a inflação passou para 200%%, havendo equilíbrio da balança comercial.

Mesmo assim a década foi de crise do milagre brasileiro, recessão e enorme crescimento da dívida externa. Para muitos economistas é considerada uma década perdida. O crescimento do PIB ao longo dos anos 80 foi de 1,6% ao ano. Pela primeira vez no século a renda per capita manteve-se estagnada por uma década inteira.

Em 1983 havia cessado o fluxo de empréstimos externos voluntários

A produção do setor de consumo de bens duráveis caiu 30,1% entre 80 e 90. A de bens de capital 41,1% A produção industrial em seu conjunto decresceu 20,4%%.

A balança comercial no período apresentou superávits significativos devido às medidas de estímulo às exportações, sob pressão dos credores internacionais.  A política de geração de superávits comerciais, iniciada em 1982, causou seus problemas:

“Para gerar esses megasuperávits comerciais, a política econômica brasileira ao longo dos anos 80, acionou uma série de mecanismos que levaram sim, a aumentar as exportações e diminuir as importações, mas que tinham repercussões geralmente desfavoráveis sobre as finanças do setor público. Então, através de medidas que foram mantidas ou ampliadas, câmbio, tarifas, incentivos fiscais, subsídios diretos, creditícios, ampliação do crédito ao setor privado, etc., nós fizemos um grande esforço para a geração de um superávit comercial, mas em grande medida à custa de pressões sobre o orçamento do setor público. “(Batista Júnior, Paulo Nogueira. F S P, 11.2.1990, p. B-4, 5).

A expansão das exportações não decorreu de uma eventual superioridade tecnológica, mas da disponibilidade de recursos naturais e do baixo custo da mão de obra. 

No governo Sarney os planos Cruzado I, II, Bresser e Verão foram tentativas de reduzir a espiral inflacionária.

A década de 80 no Brasil deve ser mais lembrada pela redemocratização, pelo fim da ditadura e pela realização de eleições diretas para presidente, pois em termos econômicos pouco produziu.

Com a crise da dívida externa o Estado parou de investir. Tendo em vista a grande participação do investimento estatal na ampliação da infraestrutura econômica e no estímulo a atividade em setores básicos com a indústria de bens de capital o resultado desta retração foi a estagnação do crescimento econômico que se projetou pelas décadas de oitenta e noventa. 

Porém a década perdida não implicou em destruição da capacidade produtiva e o setor privado chegou a reforça a capitalização.  As exportações foram ampliadas e diversificadas, alguns setores industriais avançaram significativamente, como a celulose, o alumínio e a petroquímica e reduziu-se a dependência do petróleo.

TAXA MÉDIA DE CRESCIMENTO DA RENDA PER CAPITA

Período

% crescimento

Período

% crescimento

1900-1909

2,2

1949-1959

4,1

1909-1919

1,2

1959-1969

3,1

1919-1929

3,8

1969-1979

6,1

1929-1939

2,2

1979-1989

0,7

1939-1949

2,4

Fonte: Cláudio Haddad, IBGE e IPEA, in Veja, 1.8.90, p. 58.

PLANO DORNELLES ABRIL DE 1985
Plano heterodoxo parcial, baseado em um congelamento de preços de serviços públicos e alguns setores oligopolísticos privados, correspondentes a 40% do PIB. Inflação caiu de 12 para 7% durante três meses, voltando para o patamar anterior com a correção dos preços.
PACOTE ECONÔMICO NOVEMBRO DE 1985.
Serviço público: proibição de ingresso de pessoal nos órgãos da administração e autarquias até 30 de junho de 1986.

Medidas precursoras em novembro de 1995 com um pacote econômico, foram tomadas para preparar o Plano Cruzado que viria em 1996:

O IGP FGV foi substituído pelo IPC do IBGE para o cálculo de inflação, o que provocou várias críticas. O IPC, Índice de Preços ao Consumidor, era um novo índice, com metodologia ainda a ser definida. NA prática, o IBGE continuou utilizando o IPCA.

Redução do Imposto de Renda na Fonte, para assalariados de até 100 salários mínimos.

Modificação na sistemática de devolução do Imposto de Renda, com o desdobramento das restituições de 1986 ao longo de quatro anos.

Antecipação no prazo de recolhimento de tributos como o IPI sobre fumo e automóveis.

Aumento da cobrança do Imposto de Renda para as grandes empresas e rendimentos de capital e ganhos financeiros.

Prorrogação até 1988 dos incentivos fiscais na área da SUDENE, Sudam, Sudepe e Embraer.

Substituição do Imposto de Renda pelo Imposto Sobre Operações Financeiras nas aplicações de Open Market e operações a termo nas Bolsas de Valores.

O objetivo do pacote foi o de alterar a sistemática do Imposto de Renda para pessoas físicas, adotando o chamado sistema de bases correntes visando acabar com a restituição no ano seguinte, mas pressionaram a demanda já aquecida ao aumentar a disponibilidade de renda dos consumidores.

O pagamento em quatro anos representou verdadeiro empréstimo compulsório. As demais medidas visavam aumentar a receita do governo, face ao monumental déficit, porém teriam inevitável impacto inflacionário.

Outras alterações visavam elevar a receita de tributos do governo, diante do monumental déficit público de 1985, de Cr$ 211 trilhões.

Na área social o pacote definiu vários programas: distribuição gratuita de um litro de leite a dez milhões de menores de sete anos de famílias com renda de até dois salários mínimos.

A expansão do “Programa Nacional de Alimentação Escolar”, com o fornecimento de merenda todos os dias, inclusive aos irmãos em idade pré-escolar; ampliação da oferta e descentralização dos serviços de Saúde e o Programa de Medicamentos e Imunobiológicos Essenciais, visando assegurar a disponibilidade de 40 produtos básicos na área de medicamentos.

O pacote econômico extremante complexo foi encaminhado ao Congresso e aprovado praticamente sem possibilidade de análise por deputados e senadores.

Os efeitos do pacote econômico, somados às pressões inflacionárias devido ao mau ano agrícola de 1985 em decorrência da seca no Centro-Sul, elevaram as expectativas de inflação para 1986. Vários economistas em dezembro assinalavam a mudança de patamar, estimando uma inflação em 1986 de 220%, para 350% ou 400% ao ano.

TROCA DE INDEXADOR DEZ 1985

Em dezembro de 1985, o governo determinou a substituição do IGP, pelo INPCA – Índice Nacional de Preços ao Consumidor Ampliado, com cesta de consumo de 1 a 30 salários mínimos, para medir a inflação de novembro. Isso significou diminuir a correção no mês de 15%, para 11,2%. A justificativa foi unificar, adotando o mesmo índice para correção monetária, câmbio e salários.

O pacote ao alterar o índice de inflação de IGP para o IPCA em um mês em que a diferença entre os dois era de 4% afetou a credibilidade do governo e constituiu-se também em um estímulo para o consumo.

FIM DA CONTA MOVIMENTO JANEIRO DE 1986.
As expectativas de inflação acabaram se concretizando. O índice em janeiro de 1986 atingiu a 16,2%, sinalizando uma estimativa de inflação de 350 a 400% em 1987.
Para combater essa mudança de patamar da inflação, segundo Bresser Pereira , havia três alternativas:

Em 30 de janeiro de 1986, o Conselho Monetário Nacional aprovou o fim da Conta Movimento do Banco do Brasil que permitia ao banco realizar operações do Tesouro Nacional com recursos do próprio Tesouro a custo zero, aplicando-os cobrando taxas reais de juros. Os bancos estaduais também podiam sacar a descoberto no Banco Central, dando aos governadores na prática o poder de emitir dinheiro Esta farra acabou e foi o primeiro ato legal de preservação dos recursos do Tesouro nacional.

A partir do fim desta conta o Banco do Brasil teria que utilizar os seus recursos específicos. Como compensação a essa perda, permitiu-se ao banco praticar operações ativas, passivas e acessórias permitidas aos demais bancos e antes vedadas ao BB.

A conta movimento resultou do próprio descontrole do governo que gasta mais do que recebe. Então, para comprar a produção agrícola com os preços mínimos garantidos pelo governo, pagar as contas do IAPAS, das empresas estatais, álcool trigo, etc. o Banco do Brasil tinha autonomia para usar os estoques de papel moeda do Tesouro, existentes em seu poder, a custo zero, colocando-os em circulação, ou seja, emitindo dinheiro sem autorização prévia do governo e do Congresso Nacional.

O fim da conta não significou o fim dos gastos. A mudança foi apenas de gerência que passou para o Ministério da Fazenda, além do fato de o Banco do Brasil ter que pagar para o uso dessa disponibilidade, reduzindo, portanto sua lucratividade.

Definiu-se também a criação de uma Secretaria do Tesouro, um “caixa”, com o objetivo de centralizar o orçamento e as contas públicas, visando a um maior controle dos gastos do governo.

Difundia-se a tese da inflação inercial, ou seja, o reajuste de preços ocorrendo em função da inflação passada e das expectativas, sem qualquer relação com as variações de custos. 

1. Política gradualista ortodoxa,... recomendada pelo FMI. Estava baseada em contração fiscal e monetária, elevação da taxa de juros, recessão, que provocaria redução de salários reais e de margens de lucro e, portanto, desaceleração da inflação;

2. Política gradualista heterodoxa... Baseada no controle administrativo de preços, de acordo com uma inflação futura declinante;

3. Choque heterodoxo. (Pereira, Luiz Carlos Bresser, F S P, 23.2.86).

O governo acabou optando pela terceira alternativa, a mais arriscada, pois havia poucas experiências realizadas no mundo.

Conforme assinalado por Pérsio Arida, havia pré-condições favoráveis para o lançamento do plano: taxa de câmbio favorável; equilíbrio no balanço de pagamentos; inexistência de choque de oferta, ou seja, não havia escassez agrícola no momento; equilíbrio nas contas governamentais com o controle do déficit público.

PLANO CRUZADO FEVEREIRO DE 1986

Primeiro plano de estabilização econômica da Nova República. Criado pelo ministro de José Sarney, Dílson Funaro inaugurou a era das intervenções heterodoxas na economia brasileira.

O plano Cruzado, divulgado em 28 de fevereiro, surpreendeu a população. As principais medidas adotadas pelo Decreto lei 2284 foram:

Extinção do cruzeiro e sua substituição pelo cruzado

Extinção parcial da correção monetária, mantida para poupança, FGTS, PIS e para prazos superiores a um ano.

Substituição das ORTNs pelas OTNs, com valor congelado até março de 1987.

Depreciação das obrigações firmadas em cruzeiros, à exceção dos impostos, à razão de 1,0045% ao dia, com uma tablita.

Congelamento de aluguéis e prestações do SFH por um ano

Congelamento de preços aos níveis de 18 de fevereiro e instituição do povo como agente fiscalizador, os “fiscais” do Sarney.

Correção dos salários segundo o salário médio dos últimos seis meses, com um abono de 15% para o primeiro e 8% para os demais. Correção anual, vedada a reposição. Escala móvel de salário com “gatilho” disparando com inflação igual ou superior a 20%%.

Criação do seguro desemprego pagável por quatro meses.

Caderneta de poupança retorno à correção trimestral.

Estabilidade da taxa cambial.

Substituição do IPCA pelo IPC no cálculo da inflação.

Na área social foram definidos programas de distribuição de leite, merenda e medicamentos. O pacote foi aprovado ás pressas e seus efeitos, aliados à seca no Centro Sul elevaram as expectativas de inflação para 1986. A inflação que havia atingido 220% em 1985, sinalizava mudança de patamar para em torno de 350 a 400%%.

Os primeiros dois meses do plano foram de sucesso absoluto. Em março, pela primeira vez na história foi registrada uma deflação, de 0,11% medida pelo IPC.

O congelamento teve forte apoio popular, porém só funcionou no caso de produtos básicos. Nas demais mercadorias e nos serviços as variações continuaram a ocorrer.  No tocante aos gastos públicos nada foi feito efetivamente para contê-los.

O governo não tinha uma estrutura adequada para fiscalizar preços. A SUNAB há muitos anos tinha poucos funcionários. Na época os economistas assinalavam a pouca eficácia de planos de congelamento em mercados modernos, dada uma série de fatores: grande quantidade de mercadorias não padronizadas; grande número de vendedores; estruturas de custo diferenciado; diferenças de qualidade entre os produtos e desalinhamento de preços.

O governo optou por tabelar os preços no varejo, deixando por conta das próprias empresas o acerto no atacado. Porém o acerto no atacado foi lento e demorado, gerando os primeiros problemas de desabastecimento.

Os preços estavam desalinhados em março e a alternativa correta seria, a posteriori e com cuidado, reduzir os preços daqueles que foram congelados no pico e elevar os preços dos produtos congelados abaixo do custo de modo a alcançar uma média. Mas nada disto foi feito e com o passar do tempo as distorções foram se agravando e o consumo crescendo, mas o congelamento mantido inalterado. As  vendas no comércio paulista em março de 86 foram 16% maiores em relação ao mesmo período de 85

A queda dos rendimentos nominais das cadernetas de poupança, a elevação da massa salarial e o próprio congelamento estimularam o crescimento do consumo.

Em 14 de maio em face da elevada defasagem no preço do leite, colocando em risco a manutenção da oferta do produto, o governo ao invés de autorizar o aumento de preço, optou pela concessão de um subsídio de 30% ao produtor, da ordem de CZ$ 0,53 por litro, com aumento dos gastos públicos, um dispêndio adicional estimado em CZ$ 1,5 bilhão, de junho a dezembro de 1986.

No Brasil não havia tradição de baixa de preços em benefício do consumidor. Da mesma forma não foi repassada para o consumidor a queda nos preços do boi gordo, ocorrida a partir de janeiro de 1986.

Em junho o excesso de demanda permanecia e cinco formas de burla ao congelamento estavam perfeitamente caracterizadas: “mudanças de modelo especificação e embalagens de produtos; mercados negros de insumos (ágio); alteração de qualidade ou quantidade; filas de espera e, em casos extremos, desaparecimento do produto” (Martone, Celso. F S P 21.6.86). A acrescentar, observava-se a elevação de preços pela cobrança de opcionais, como no caso de automóveis.

Os índices de inflação evidentemente não refletiam o ágio encontrado no mercado, portanto já apresentando distorções. A bolsa de valores, imediatamente após o choque, teve elevação que chegou a quase 100%%, alta irreal, pois o congelamento iria afetar as margens de lucro das empresas, o que iria causar uma baixa acentuada mais à frente.

A desindexação permitiu um alívio no giro da Dívida Pública e possibilitou até mesmo o resgate de títulos, através da intensa emissão de moeda ocorrida logo nos primeiros meses do plano. Por outro lado, o congelamento de tarifas e a manutenção de subsídios, agravada com a criação de novos subsídios, como no caso do leite, constituíram-se em novas fontes de pressão sobre o Orçamento Público.

REUNIÃO DE CARAJÁS MAIO DE 1986

Em 30 e 31 de maio foi realizada pelo governo uma reunião de avaliação do Plano Cruzado. Nesta reunião, denominada “reunião de Carajás”, por que foi feita no Pará, Edmar Bacha e André Lara Resende defendiam ajustes rigorosos na economia, mas foram derrotados. Segundo Bacha, Sarney e Funaro estavam fascinados com o sucesso do plano e recusaram fazer os ajustes que seriam necessários. Segundo Luis Nassif esta afirmação de Bacha não correspondeu à verdade, pois não havia consenso entre os economistas sobre as medidas a serem tomadas.

A taxa de juros foi mantida nas alturas, para evitar a fuga de capitais, em julho era de 60 a 65%%%%, absolutamente incompatíveis, em uma economia com os preços congelados.

CRUZADINHO JULHO DE 1986

Em 23 de julho de 1986, foram adotadas as primeiras medidas de ajuste:

a)  Empréstimo compulsório de 28% sobre gasolina e álcool

b)  Empréstimo compulsório de 30% sobre o preço dos carros novos, de 20% sobre usados até dois anos e 10% de 2 a 4 anos de uso.

c)  Taxa de 25% sobre passagens e dólar para viagens ao exterior

d)  Criação do FND Fundo Nacional de Desenvolvimento, para administrar os recursos dos compulsórios e outros provenientes de venda de ações preferenciais das estatais.

Simultaneamente o governo lançou um Plano de Metas, sem qualquer discussão com a sociedade, mais para justificar a utilização dos recursos. O pretendido objetivo de conter o consumo seria insuficiente dado o restrito número de produtos.

Todavia foram alternativas desastradas. O aumento do álcool e gasolina teria sim pressão inflacionária, sobre preços congelados, inviabilizando o próprio congelamento, pois empresas e profissionais que os utilizavam como insumo, iriam repassar o maior custo para os preços.

Ao criar o empréstimo compulsório, o governo aumentava a sua dívida já bastante elevada, da pior forma possível, transformando os consumidores em investidores forçados de títulos públicos.

A estimativa de receita do FND era de 50 bilhões de cruzados por ano, ou US$ 10 bilhões em três anos.

A adoção do empréstimo compulsório, por outro lado, revestiu-se de dúvidas quanto à sua legalidade. Em primeiro lugar, por ter sido cobrado imediatamente, quando juristas entendiam que ele só poderia ser cobrado no ano seguinte. Mais agravante ainda foi a forma de devolução em cotas do FND e não em dinheiro. Um fundo que poderia não apresentar rentabilidade, desvalorizando o valor de suas cotas. A taxa sobre passagens e dólar era manifestamente ilegal, pois além de ser cobrada imediatamente, caracterizava-se como imposto, o que só poderia ocorrer através de lei e não por resolução do Banco Central.

O compulsório sobre os carros representava uma ingênua tentativa de apropriação por parte do governo, do ágio que vinha sendo cobrado pelo mercado sobre os carros novos e usados.

Outra crítica contundente aos empréstimos compulsórios foi à decisão de não incluir no cálculo da inflação os aumentos gerados. O IBGE foi fortemente pressionado a “expurgar” esses aumentos, mas resistiu, optando por divulgar dois índices, um expurgado e outro não expurgado.

A medida do empréstimo compulsório iria gerar centenas de milhares de ações judiciais cobrando sua devolução.

Segundo o jurista Ives Granda da Silva Martins na época “sempre prevalece, não o princípio ético tributário, mas a tradição governamental segundo o qual, o ilegal, o inconstitucional, passam a ser legal constitucional e devido, na medida em que as pessoas não ingressam em juízo” (O Estado de São Paulo, 27.7.86).

No primeiro semestre de 1986, a emissão primária de moeda atingiu o montante de 75,07 bilhões de cruzados, cerca de 2,2% do PIB, dos quais, Cz$ 61,13 bilhões foram para cobrir a necessidade de financiamento do Banco Central e Cz$ 13,95 bilhões, para o resgate líquido de títulos da dívida pública da União. No mesmo período de 1985, o crescimento da base monetária foi de apenas 0,4% do PIB.

O Banco Central justificou esta elevada emissão como a remonetização da economia provocada pela eliminação da inflação inercial, e pela maior confiança na moeda, sem repercussões inflacionárias, portanto. Entretanto, o volume de emissões foi sem dúvida excessivo, refletindo pressões do lado das contas públicas.

Em agosto, o ágio já estava institucionalizado no país. Nas feiras livres, as tabelas da SUNAB nunca foram respeitadas, nos açougues carne só era encontrada com ágio. Eletrodomésticos, carros, alimentos, tijolos, adubos, eram vendidos acima dos preços tabelados, além do surgimento de dezenas de novas marcas para burlar o tabelamento. Foi realizada uma fracassada operação de caça aos bois no pasto.

A situação econômica, gradualmente ia se agravando. Os juros começaram a subir, o déficit na balança comercial começou a cair, pois o congelamento do câmbio já agia como freio às exportações e estímulo às importações. Os empresários estavam inibindo os investimentos devido às dúvidas quanto às medidas futuras que poderiam ser tomadas. O aumento do ágio no Black, que chegou a 100%, ocasionou a inútil intervenção da Polícia Federal, registrava o agravamento dos problemas com a balança comercial.

As críticas ao cruzadinho aumentavam. Basicamente vários discordando do mesmo na medida em que praticamente não houve efeito significativo na redução da demanda aquecida, mantendo a expectativa por um novo “pacote” o que era prejudicial.

Muitos economistas teriam preferido à alternativa de maior tributação do imposto de renda ou aumento de impostos pelo impacto geram sobre os produtos, mas as vésperas das eleições impediam qualquer medida neste sentido.

Em setembro, o consumo de derivados de petróleo atingiu a 1,351 milhão de barris dia, contra 1,315 milhão em agosto, atestando a ineficiência do depósito compulsório como instrumento redutor da demanda.

Em 15 de outubro, face ao agravamento da situação cambial, com queda acentuada das exportações, o governo descongelou o câmbio, promovendo a primeira desvalorização cambial do Plano Cruzado, da ordem de 1,8%.

O presidente do Banco Central, Fernão Bracher, procurou afastar a ideia de descongelamento, mas era evidente que a medida refletia a inviabilidade de manter o câmbio estável, em uma economia com elevada dívida externa, fortemente dependente do superávit comercial para pagar os juros.

O governo teve amplo sucesso nas eleições. O PMDB elegeu 22 dos 23 governadores, 44 dos 49 senadores e 260 deputados federais.

INFLAÇÃO FIPE 1986-87

Período

Índice

Período

Índice

Período

Índice

Janeiro

14,05

Junho

0,96

Novembro

4,43

Fevereiro

10,86

Julho

1,07

Dezembro

10,30

Março

1,83

Agosto

1,88

Janeiro 87

13,75

Abril

2,31

Setembro

1,43

Fevereiro

87

11,28

Maio

1,92

Outubro

3,08

CRUZADO II NOVEMBRO DE 1986

 Em 21 de novembro, logo após as eleições, foi anunciado o chamado Cruzado II. As principais medidas foram:

a)  Aumento da alíquota de IPI de vários produtos

Automóvel de 33% para 100%;

Cervejas, de 80% para 230%;

Vinhos, de 10% para 50%;

Cigarros aumento de 50% a 120% no preço final;

Caminhões aumento de 50% no preço final.

b)  Exclusão do IPC de fatores sazonais e irregulares, impostos indiretos e despesas com fumo e bebidas alcóolicas.

c)   Extinção do BNH e sua incorporação pela CEF

d)  Aumento de 60,16% da gasolina e álcool e do açúcar em 13%

e)  Aumentos de energia elétrica: 44% para consumidores residenciais e comércio e 10% para a indústria; correios aumento de 80% e telefone 35%,

As medidas, em estimativa considerada conservadora feita pelo economista Francisco Lopes iriam gerar, caso bem sucedidas, uma receita líquida de Cz$ 135 bilhões, ou 3,2% do PIB.

O anúncio explodiu como uma bomba em todo o país. A reação geral foi de perplexidade. Ao invés de realinhar preços, como estava sendo esperado, aumentar IR ou mesmo o IPI em doses moderadas, para reduzir o consumo, o governo partiu para uma inédita e brutal elevação de impostos, no caso dos carros, símbolos do Capitalismo, praticamente dobrando o preço.

O clima de confiança gerado em 28 de fevereiro, que transformou a população em “fiscais” do Sarney, simplesmente desapareceu. Adotado logo após as eleições o impacto não poderia ter sido pior. As medidas foram recebidas como uma traição à confiança do cidadão que havia acabado de votar e a confiança existente no início do plano se evaporou. O Cruzado II representou um golpe de morte no Plano Cruzado

Os preços continuaram desalinhados como antes e pior, desalinharam-se mais ainda. Os planejadores do governo tiveram a inacreditável ideia de que poderiam fazer um ajuste nas contas públicas, imaginando que a sociedade aceitaria passivamente medidas absolutamente inviáveis.

O incrível é que o Palácio do Planalto passou a creditar a má recepção a erros de “marketing”, publicidade mal feita, daí a “incompreensão” do povo.

José Sarney em reflexão posterior assume o erro. “Além da moratória, fizemos o que hoje considero o maior erro da minha vida, o Cruzado Dois. Hoje, preferia cortar a mão a assinar novamente os atos do Cruzado Dois. (F S P 22.008.93, p. 1-7). Segundo Sarney, foi Dílson Funaro o responsável pelo Cruzado 2 e na época João Sayad o teria alertado do equívoco: Isso é um desastre, está errado”.

Em sequência a economia rapidamente foi voltando à situação pré-cruzado. As desvalorizações cambiais passaram a ser diárias e as taxas de juros e a inflação passaram a subir rapidamente.

Em 24 de novembro de 1986, o Decreto 2290 eliminou do cálculo do IPC os preços do vestuário, automóveis, cigarros, bebidas e eletrodomésticos. “O decreto de reformulação do índice, faculta á SEPLAN, por outro lado, manipular livremente o indicador no futuro, sempre que julgar qualquer aumento de preços como motivado por ‘sazonalidade’ ou ‘irregularidade’, como antes mencionado. É incrível, mas procurou-se com um decreto, revogar toda uma metodologia científica, internacionalmente consagrada, na qual se baseia qualquer índice de preços que mereça um mínimo de confiabilidade”. (Dércio Garcia Munhoz, F S P, 4.12.1986).

Em 16 de dezembro o ministro Dílson Funaro anunciou o fim do congelamento a ser substituído por um rígido sistema de preços administrados pelo Conselho Interministerial de Preços. Porém o governo não tinha estrutura para isto e generalizou-se o clima de desobediência civil.

O fim de dezembro e o início de janeiro movimentaram governo, sindicatos e empresários, em busca de um pacto social, intensa negociação que acabou fracassando pela impossibilidade de se chegar a um denominador comum.

A demora por parte do governo em iniciar o realinhamento de preços, gerou uma instabilidade nunca vista no país, generalizando-se um clima de desobediência civil, ou seja, as empresas reajustando seus preços autonomamente, a ponto do presidente Sarney, chamar o empresário Mário Amato, presidente da FIESP, de anarquista.

A produção industrial em dezembro e janeiro reduziu-se intensamente, na expectativa do realinhamento. A indústria automobilística teve em janeiro a sua produção reduzida à metade. O transporte rodoviário de carga, grande indicador da produção, operou em janeiro com 20% da sua capacidade.

Em 27 de janeiro teve início “oficialmente”, o realinhamento de preços, com autorização de reajustes para o setor de eletrodomésticos. O início nesse setor causou certa estranheza nos meios industriais, pois não se tratava de uma área onde a defasagem era mais grave e por ser um dos setores que mais desobedeceram ao congelamento, através da chamada “maquiagem” dos produtos.

 Janeiro marcou também as primeiras declarações enfáticas pelo fim do “gatilho” salarial, ressaltando-se o seu efeito de realimentação da inflação. Entre os partidários de seu fim, alinhou-se o Conselho de Desenvolvimento Econômico (CDE), que em sua reunião realizada em 12 de janeiro de 1987, propôs o fim do gatilho e sua substituição por um abono salarial.

Em razão da prioridade ás políticas de combate á inflação o governo praticamente abandonou as políticas de desenvolvimento regional, passando esta incumbência aos Estados o que deu início à chamada guerra fiscal.

O salário mínimo atingiu o seu mais baixo nível na história do Brasil, 60 dólares, contra 179 em 1959. Os sindicatos reivindicavam um mínimo de 150 dólares, o Ministro do Trabalho, 97 dólares e os empresários 65 dólares. Entretanto, para cobrir a lei ao pé da letra e remunerar adequadamente a despesa familiar em bens e serviços essenciais, o salário mínimo deveria ser de 325 dólares.

Associada à proposta de correção do salário mínimo, apareceu embutida a ideia de desindexar o mínimo como valor de referência para contratos, pisos profissionais, benefícios sociais, como solução para permitir uma elevação de seu valor real.

Em janeiro foram divulgados os índices de inflação referentes a dezembro. O INPC atingiu a 7,27%, com um acumulado em 1986 de 59,2%%. O IPCA em dezembro foi de 11,65%, com um acumulado de 79,66% em 1986. Portanto, apenas em dezembro a perda na troca de índices, representou 4,38 pontos percentuais.

 O governo tentou no Cruzado II, manipular os índices de inflação, excluindo os reajustes, mas a medida provocou tamanho mal estar que foi revogada.

Em fevereiro permanecia a expectativa sobre os rumos da política econômica do país para 1987. A inflação em janeiro atingiu um recorde na história do país, com 16,82%, em fevereiro a previsão era de 20%, e vislumbrava-se a possibilidade de o país mergulhar em hiperinflação.

O ano de 1986 marcou a mais formidável demonstração de autoritarismo por parte do governo federal. No melhor estilo da “Velha República”, reformas radicais foram adotadas através de decretos-leis, inconstitucionais dada a variedade de assuntos abrangidos, sem consulta ao Poder Legislativo, que permaneceu absolutamente inoperante em um ano de eleições.

Institucionalizou-se a mudança como padrão de política governamental. A regra do jogo em um dia, poderia não ser a do dia seguinte. Estabilidade de regras, eliminação das incertezas e previsibilidade das ações públicas, elementos indispensáveis para o investimento empresarial e o desenvolvimento econômico do país, foram deixadas de lado.

FRACASSO DO PLANO: CAUSAS

Como o Plano Cruzado promoveu uma reforma monetária, desindexou a economia e congelou a taxa de câmbio, apoiado em uma taxa de juros extraordinariamente alta (16% no primeiro mês) o fracasso é total e a retomada da inflação crescente é mais rápida, caminhando para a hiperinflação em dezembro.

Segundo Edmar Bacha, foi a questão salarial que resultou no fracasso do Cruzado. “Foi aí que o plano se perdeu de vez. Em qualquer processo de ajuste, há sempre o risco de uma inflação corretiva, até por causa da compressão dos preços. Esse processo de inflação corretiva temporária estava impedido pela existência do gatilho. Qualquer inflação que houvesse batia no gatilho. Foi isso o que acabou com o plano”. (F S P 26.02.2006, p. B-07).

A desincronização nos reajustes de salários era um dos fatores que desaconselhava a implantação de um choque heterodoxo, sendo mais recomendável a sua adoção quando a inflação tivesse atingido patamares mais elevados e os reajustes salariais sendo realizados mensalmente, como havia ocorrido na Argentina. A adoção da fórmula de conversão dos salários pela média gerou reclamações de perda salarial. As categorias que esperavam reajuste de 120% em março obtiveram 56%%. O congelamento pela média, face aos elevados índices de inflação no semestre precedente, resultou em uma média baixa, que se projetaria por todo o ano. O descontentamento gerou uma mobilização por reajustes salariais, que se transformou em forte pressão sobre os custos, em uma economia com os preços congelados;

Na época as condições macro econômicas eram favoráveis. Taxa de câmbio, equilíbrio no balanço de pagamentos e boa oferta agrícola. Os preços do petróleo estavam baixos e as reservas internacionais em bom nível. Porém o aquecimento interno desviou exportações e o aumento das importações acabou desequilibrando as contas externas.

A inflação chegou a zero e ficou estabilizada por nove meses, mas o consumo explodiu.

No período de abril a junho de 1985, havia ocorrido um congelamento parcial de preços, via controle administrativo exercido pelo CIP e muitas empresas, no início de 1986, ainda não haviam recomposto sua margem de lucro.  Portanto, devido à desincronização de preços, alguns preços foram congelados abaixo dos custos, pois estavam próximos a um reajuste e outros foram congelados acima.

Não houve ás vésperas do plano, um reajuste de preços como ocorreu na Argentina. Ao contrário, muitos preços foram tabelados abaixo dos custos, como o caso do leite, 30% abaixo do custo, dos derivados de petróleo, do aço, dos remédios, serviços públicos e cana-de-açúcar.

O governo ignorou os desequilíbrios setoriais e manteve o congelamento inalterado. O resultado foi o surgimento de ágio e desabastecimento em diversos setores o que contribuiu para o descrédito para com o plano, apesar do forte apoio popular.

Na análise de José Serra, a falta de produtos revelou situações específicas: a) produtos em falta porque a oferta não cresceu no mesmo ritmo da demanda; b) produtos em falta porque seus preços foram apanhados abaixo da média pelo congelamento; c) produtos em falta devido a manobras especulativas, como o caso da carne. (F S P, 20.07.1986).

Outro inconveniente do Plano Cruzado foi o de ter sido adotado em um ano eleitoral. Embora tenha sido um estrondoso sucesso eleitoral, com a vitória maciça do PMDB, a necessidade de ganhar as eleições, protelou reajustes, adiou decisões, até a abertura das urnas, quando muitas distorções existentes já tinham produzido dano irreversível.

O déficit público foi apenas timidamente atacado e decisões para a manutenção do congelamento como redução de impostos e de tarifas das estatais acabaram agravando ainda mais a situação. O governo não tinha números confiáveis para monitorar a situação. Havia cinco orçamentos monetários. Posteriormente o orçamento foi unificado. 

A redução dos rendimentos financeiros estimulou o desvio de recursos para o consumo, estimulando a cobrança de ágio. Este efeito psicológico da diminuição dos rendimentos nas aplicações não foi levado em consideração pelos planejadores; 

Na avaliação de Luis Nassif tanto no Cruzado, como depois no Plano Real os autores esfrangalharam as contas públicas, as contas externas, atropelaram (especialmente no Cruzado) a segurança jurídica e paralisaram reformas econômicas.

Regras de conversão mal feitas praticamente quebraram o Sistema Financeiro da Habitação e produziram imensos prejuízos aos usuários dos planos de previdência. A estabilidade afinal foi obtida à custa da criação de passivos públicos gigantescos, da volta dos desequilíbrios externos, em função de uma apreciação do Real. Estes esqueletos se projetariam nos anos seguintes. (F S P 2.3.2006, p. B-4).

Outro erro monumental do Cruzado reconhecido por Sarney no plano externo foi “termos nos descuidado do nosso comércio externo. Acabamos com todos os incentivos às exportações. Isso gerou um colapso nas exportações.”.

O economista Marcos Cintra Cavalcanti de Albuquerque, em artigo publicado na Folha de São Paulo, assinalou as hipóteses equivocadas que permearam a execução do Plano Cruzado: “o crescimento da demanda agregada era incompatível com a evolução da oferta; a de que as margens de lucro suportariam bruscas elevações dos salários reais; a de que o déficit público havia sido zerado; a de que os preços relativos estavam em equilíbrio; a de que o congelamento poderia ser definitivo, e finalmente, a de que os superávits da balança comercial eram indestrutíveis”. (F S P, 1.2.1987).

Para André Lara Resende em uma análise feita 10 anos depois, o Plano Cruzado falhou devido ao crescimento exagerado da demanda agregada e ao déficit público. Segundo ele, na época do choque não se sabia qual era o efetivo déficit público. O nível de reservas externas também era muito pequeno (F S P 28.02.96, p. 1-10).

O grupo de economistas já tinha plena consciência de como acabar com sucesso com a inflação. A partir de reflexões de Mário Henrique Simonsen e elaborada pelo Departamento de Economia da PUC RJ concluiu-se que a inflação crônica no Brasil era um processo especialmente diferente tanto das inflações moderadas quanto das hiperinflações. Desenvolveu-se o conceito de inércia inflacionária, pela qual os preços sobem, hoje porque subiram ontem. Esta inércia havia se formado devido a um a peculiaridade da economia brasileira que era a indexação legal, criada em 1964 a que se seguiu a indexação informal.  Daí para se acabar com a inflação surgiu a ideia de se criar uma moeda indexada o que seria a URV em 1994, mas na época de Sarney ficou-se apenas no congelamento que era mais fácil de entender. Ninguém entendia esta ideia de moeda indexada e havia dúvidas sobre a legalidade da existência de duas moedas legais ao mesmo tempo.

Mas o congelamento adotado deveria ter sido apenas uma estratégia para a adoção de políticas monetárias e fiscais austeras e reformas de fundo. Não se havia na época uma clara percepção da gravidade do déficit público, pois as contas eram ainda muito precárias. Todo mundo ficou deslumbrado com o efêmero sucesso do congelamento e a ajuste fiscal foi abandonado.  André Lara Rezende entendia que o congelamento não poderia passar de 90 dias, mas esta ideia foi abandonada.

José Sarney refletindo sobre os erros do Plano Cruzado confirma este posição de Resende “Imaginávamos que tínhamos zerado o déficit público. Na realidade, como naquele tempo tínhamos cinco orçamentos monetários, a contabilidade pública era impossível de ser desvendada. Hoje o Brasil tem transparência pública porque unificamos o orçamento”. (F S P 22.08.93, p. 1-7). 

O Cruzado reuniu pela primeira vez uma equipe afinada de brilhantes economistas: João Sayad, Pérsio Arida, André Lara Resende, Chico Lopes. As condições para o ajuste da economia e o fim da escalada inflacionaria eram perfeitamente possíveis, mas isto somente ocorreu com o Plano Real em 1994 devido a seguidos erros na implementação de vários planos.

ECONOMIA EM 1987 RECESSÃO
O início de 87 foi semi anárquico. O fracasso do Cruzado 2 trouxe o retorno da inflação. Os empresários cautelosos diante da indefinição econômica protelaram seus investimentos e reajustaram os preços para compensar as perdas do período de congelamento e já projetando uma margem adicional por precaução.
O resultado foi uma explosão de preços, as taxas anuais atingindo a 500%%, que não era nem inflação de demanda que já tinha arrefecido, nem de custos, pois estes não subiram tanto assim. Deve ser explicada pela sucessão de planos econômicos e as ameaças de congelamento.
A economia entrou novamente em recessão, com o PIB caindo 4,2% em seis trimestres.
Face ao risco do país mergulhar em hiperinflação, alguns propunham um novo choque, após o realinhamento, com o congelamento dos preços e salários por 120 dias, período no qual trabalhadores e empresários costurariam um pacto social.
A situação externa continuava grave. Desapareceu o superávit comercial e a projeção para o ano de US$ 8 bilhões, já tinha caído para dois bilhões. A expectativa dos bancos internacionais continuava negativa.
Os recordes de inflação em janeiro e fevereiro e a falta de credibilidade da política econômica oficial aumentavam o temor de hiperinflação. Mas, do lado do consumo, vários fatores contribuíam para arrefecer a alta de preços. As altas taxas de inflação desestimulavam o consumo e estimulavam a poupança e concorriam para reduzir o poder aquisitivo da população. Além da queda no consumo, a formação de estoques era desestimulada pelas altas taxas de juros.  A manutenção das medidas do pacote de novembro contribuiu para arrefecer o consumo no setor automobilístico, contribuindo para uma recessão por ação do próprio governo.  O cenário delineava-se mais para o retorno de uma inflação entre 100 a 200% ao ano e uma recessão em 1987.
A queda do superávit comercial agravou sensivelmente a situação do balanço de pagamento e em fevereiro, foi acelerada a desvalorização do cruzado, caracterizando uma mídi-desvalorização em doses homeopáticas.
Na área social o governo tratou menos de reformas básicas, partindo para o fortalecimento de programas de caráter assistencialista, como a distribuição gratuita de leite, de grande rendimento político.
O Ministro Dílson Funaro apesar do apoio do PMDB acabou pedindo demissão, no final de abril 87.
Para o seu lugar foi nomeado o governador Tasso Jereissati, vetado pelo PMDB, tendo ficado apenas 12 horas no cargo.
Finalmente optou-se por Luís Carlos Bresser Pereira. Sua primeira medida foi uma midi desvalorização de 8,5% para tentar elevar o superávit comercial.
Apesar da indefinição econômica Sarney insistiu em prosseguir com a concorrência da Ferrovia Norte-Sul, ligando Brasília ao Maranhão, a um custo de US$ 2 bilhões.
PLANO BRESSER, JUNHO DE 1987.

Em 1987, ainda no governo Sarney foi lançado o chamado Plano Bresser, com novo congelamento de preços e salários, por prazo máximo de 90 dias, mas mantida a indexação. A inflação caiu de 25 para 5%%, mas depois de um ano já estava em 25% de novo.

Foi feita nova minidesvalorização do cruzado em 10,5%%, fim do subsídio ao trigo e adiamento ou suspensão de obras públicas como a Ferrovia Norte-Sul e o Trem Bala entre São Paulo e Rio de Janeiro. Foram extintos 40.000 cargos na administração pública.

Apenas cinco meses após seu lançamento o Plano Bresser já tinha fracassado O congelamento de preços e salários, virou congelamento de salários.  Em julho a inflação já alcançava 3,05%%, em agosto 6,36%%, setembro 5,68% e outubro 9,18%%.

Foi extinto o gatilho salarial e criada a URP – Unidade de Referência de Preços. O reajuste de preços e salários seria a cada três meses, com base na média de inflação do trimestre anterior. Com a inflação crescente a fórmula de reajuste salarial, baseada na média de três meses, a URP, resultou em arrocho salarial. O próprio governo não respeitou a regra que criou, concedendo aumentos superiores nas estatais e para o próprio funcionalismo federal.

O congelamento não foi respeitado. Em junho e julho vários preços foram reajustados a título de “reequilíbrio” dos preços relativos. A partir de setembro os controles foram afrouxando, com liberação total em novembro.

O governo rompeu a moratória, não declarada oficialmente em fevereiro de 1987 e pagou parte dos juros devidos.

Em dezembro de 1987 com a inflação em 366% Bresser se demite.

Em 18 de dezembro de 1987, com mais um decreto-lei, o governo abortou o IPC super-restrito, antes que começasse a valer efetivamente. Voltou a ser usado o INPC restrito para o cálculo do IPC, ou seja, o cálculo é baseado em uma “cesta” de produtos de consumo na faixa de um a cinco salários, incluindo automóveis, cigarros, bebidas, etc. A rápida mudança representou o reconhecimento do erro do governo em tentar manipular os índices e do fato de que o índice decretado não teria credibilidade.

Com o fracasso dos planos econômicos, Sarney anunciou a política do “arroz com feijão”, para manter a situação econômica sob controle, transferindo ao novo governo a responsabilidade de solucioná-la.

Mailson da Nóbrega procurou combater o déficit público, executou uma política monetária restritiva e fez novo acordo externo.

No final de 1988 a inflação tinha chegado a 933%%, o PIB com crescimento de –0,2%%. Nas eleições municipais de 1988 grande número de prefeitos foi eleito por partidos de oposição.

CONSTITUIÇÃO DE 1988

A Constituição de 1988 contribuiu para o agravamento da situação das finanças públicas federais por diversas razões

As despesas com pessoal foram aumentadas, em função de mudanças da Constituição;

Os benefícios previdenciários foram aumentados e os pagamentos das aposentadorias. Só a despesa com previdência passou de 4,8% do PIB e, 1988, para 6,3% em 1989 e 10,1% em 1990.

Houve uma redistribuição da receita do governo federal para os Estados ainda maior do que a ocorrida antes, com o aumento das transferências.

A União perdeu alguns tributos, incorporados ao ICMS, como o IUM, IUEE, IST, IUCLGL, onde participava de 10 a 100%. A distribuição do ICMS alterou-se nos Estados de 80 para 75% e dos municípios de 20 para 25%.

Estas alterações provocaram mudanças estruturais na economia. Os Estados e Municípios passaram a se recusar a assumir parcelas de despesas da União, aumentando os gastos desta. A União passou a ter dificuldade de tocar grandes projetos. Os investimentos em Estados e Municípios são de menor porte, por mobilizarem recursos menores e terem interesses diferentes e mais localizados.

1989 PLANO VERÃO

No momento da adoção do Plano Verão, optou-se por adotar uma regra dupla de indexação: 100% da inflação acumulada na data base de reajuste, e reajuste mensal pleno pelo IPC. Repete-se o esquema de indexação do Plano Bresser, com um agravante, a unidade temporal básica foi encurtada de um trimestre, para um mês.

De agosto em diante, o “motor” inflacionário em sua mais elevada rotação é o processo de formação de juros e de expectativas.

No final da década a situação do Brasil em relação ao mercado internacional havia piorado sensivelmente. O percentual de investimento das empresas multinacionais direcionado para o país caiu de 6,1% na década 1976-80, para 4,2% na década 1981-85 e para 1,1% na década 1986-90, segundo dados da CEPAL. (F S P 19.11.92, p. 2-3).

Conforme assinala José Serra, a década de 1980 foi um impressionante inventário de frustrações: “Na média de uma vez a cada ano e meio, o país passou por sete planos de estabilização da moeda e treze políticas salariais diferentes. As regras do câmbio mudaram dezessete vezes, as regras para o controle dos preços sofreram cinquenta e três alterações. Os planos para encaminhar o problema da dívida externa foram vinte e cortes nos gastos públicos somaram dezoito decretos. Nesse período, o cidadão brasileiro conheceu quatro moedas diferentes e calculou a desvalorização do dinheiro por dez índices variados. Não seria nunca por falta de mexer nas coisas via poder público, portanto, que as coisas não se resolvem” (...). (Serra, José. Revista veja 1.8.1990, P. 62).

As diversas experimentações mostraram que não existe plano de estabilização que seja bem sucedido, popular e sem custos sociais. Serra assinala que apesar dos problemas houve avanços na década como o avanço de setores industriais como a celulose, o alumínio e a petroquímica. A substancial redução na redução da importação de petróleo e na área das finanças públicas a unificação orçamentária. Torna-se indispensável ainda a estabilização da moeda e a reforma do Estado, mas o Brasil continua como um país viável, pois sua capacidade produtiva continua intacta e reforçada.

De 1980 em diante ocorreu a estatização da dívida externa. A dimensão exagerada da dívida, desde o início tornou infrutíferos os esforços de ajustamento, que resultaram em um aumento da taxa de juros interna, reduziram a capacidade de investimento do país e aceleraram a inflação.  Ocorreu uma ampliação da dívida externa pública de 50% para 87% da dívida total ao longo da década.

A persistência do déficit público, em nível superior a 5% do PIB, e a expansão de novos empréstimos internacionais fizeram a dívida interna crescer. As duas dívidas somadas são elevadas, mas ainda representam 60% do PIB.

Os prazos de maturação da dívida interna pública mobiliária foram se reduzindo, até sua transformação em quase moeda, com prazo de vencimento de um dia.

A rolagem diária da dívida pública no chamado overnight trouxe um risco enorme de hiperinflação, pois uma massa enorme de poder de compra podia, a qualquer momento, por uma quebra de confiança, correr para a compra de bens e serviços. O governo passou a perder o controle da política monetária. O público passou a determinar a quantidade de moeda em circulação.

DÉFICIT PÚBLICO EM RELAÇÃO AO PIB – Conceito Operacional

1980

1981

1982

1983

1984

-0,08

-0,32

0,62

0,91

2,4

1985

1986

1987

1988

1989

4,3

3,6

5,3

4,3

4,3

DÉCADA PERDIDA

“[A Década Perdida] pode ser a década de 1980, mas pode ser também uma década ‘expandida’, começando em 1982, com a moratória mexicana, e terminando em 1994 com o Plano Real. Ou começando mesmo antes, em 1979, quando teve início, com o catastrófico episódio da pré-fixação da correção monetária, toda uma série de feitiçarias cuja expressão mais madura seriam os choques heterodoxos, dos quais o Cruzado e o Collor seriam os mais assustadores. A Década Perdida parece, portanto, uma década longa, até porque foi sofrida no campo econômico e pontilhada de frustrações no plano político.” (FRANCO, Gustavo. A década perdida e a das reformas. Jornal do Brasil, 30/01/2000). O sofrimento no campo econômico e as frustrações no plano político a que o autor se refere são: o descontrole inflacionário, os altos índices de desemprego, o fracasso de sucessivos planos econômicos e, no plano político, a derrota da emenda das Diretas Já e a morte de Tancredo, entre outros fatos.

“O saldo da década foi um impressionante inventário de frustrações. Na média de uma vez a cada ano e meio, o país passou por sete planos de estabilização da moeda e treze políticas salariais diferentes. As regras do câmbio mudaram dezessete vezes, as regras para o controle de preços sofreram cinquenta e três alterações. Os planos para encaminhar o problema da dívida externa foram vinte e os projetos de austeridade e cortes nos gastos públicos somaram dezoito decretos. Nesse período, o cidadão brasileiro conheceu quatro moedas diferentes e calculou a desvalorização do dinheiro por dez índices variados. Não seria nunca por falta de mexer nas coisas via poder público, portanto, que as coisas não se resolvem”. Serra, Jose. (Revista Veja 1.8.1990.)


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