Chovia a cântaros. Chegamos encharcados ao teatro para assistir àquele show recomendado pelos amigos. Já conhecíamos algumas das composições daquele artista, mas ainda não tínhamos assistido a nenhuma de suas apresentações. Estávamos agradavelmente ansiosos para aplaudi-lo. Mas, quando a cortina se abriu, com mais de uma hora de atraso, o que tivemos foi uma aula de como não tratar o seu cliente. O início da apresentação foi protelado porque a produção ficou na expectativa de que a casa pudesse receber ainda alguns outros expectadores, penalizando quem foi pontual. O cantor-compositor entrou no palco encarando o chão, parecendo ignorar os aplausos de boas-vindas. Nem um sorriso, nem um boa-noite, nem um agradecimento a quem tinha vencido o temporal para prestigiá-lo. Em vez disso, começou um discurso reclamando de quem não estava lá para quem estava. Carioca é fogo ele disse, ignorando a regra que afirma que, para quem é do Rio, sua cidade e seus habitantes são como a própria mãe, dos quais só ele pode falar mal. Carioca não pode ver chuva que se tranca em casa, ele continuou, como se não visse que nós, num total de talvez uns 20 gatos pingados, estávamos ali, mesmo com toda lama. A gente prepara um show incrível – ele auto-elogiou seu próprio trabalho antes de começar a tocar – e não vem ninguém assistir. Como assim? Nós éramos ninguém? Mas o show tem que continuar, não é mesmo? Finalmente uma declaração sensata! Tentamos relaxar na poltrona depois da bronca que levamos no lugar de quem não estava ali para ouvi-lo. Ele começou a cantar. Foi constrangedor acompanhar sua má vontade em cena. Ele estava visivelmente contrariado por se apresentar com o teatro tão vazio. Foi melancólico, realmente decepcionante. Ainda assim, alguém teve coragem de pedir bis ao final. Ele não tomou conhecimento do pedido e foi saindo, mal vergando o corpo rapidamente, num remedo de agradecimento silencioso. Mais uma declaração de desprezo pelo sacrifício que fizemos ao abrirmos mão da nossa hora de descanso no conforto do sofá de casa num dia de semana, ao pagarmos pelo ingresso, ao termos chegado ali praticamente a nado. Nem preciso dizer que, nem mesmo com suas boas composições, o que sempre me vem à mente quando ouço o nome daquele moço é aquela noite fatídica. E é dela que falo para meus amigos quando o assunto é a obra do sujeito. Vejo isso acontecendo também com algumas empresas, agora que o mercado amadurece, aumentando a concorrência, e o país enfrenta certa turbulência econômica. Quando os clientes minguam, tem gente que desafina e não chama os que permaneceram para perto do palco para uma apresentação intimista e memorável. Se parece óbvio que é necessário estender o tapete vermelho para os que recém chegaram e os que continuam na platéia apesar de tudo, não é o que tenho observado. Muitas vezes, o mau humor provocado por um desempenho abaixo do esperado causado pela chuva lá fora é lançado sobre quem deveria estar sendo convidado para fotos e autógrafos no camarim. Esta é a hora de fornecer um atendimento verdadeiramente personalizado e encantar. É tempo de assegurar-se de que seu cliente irá comprar seu CD na saída do show e ainda vai recomendar seus produtos e serviços. Evite ser o divo pitiático e ter ataques de estrelismo. Assim como os artistas carismáticos, use a crise a seu favor. Ganhe fãs que louvarão tanto o seu show inesquecível que quem ficou em casa vai se lamentar por não ter estado lá também. E nenhum deles vai querer perder a próxima chance de conferir seu trabalho. Mesmo sob um dilúvio ou em período de retração econômica.