Como não vender

O que você vai ler abaixo não é um guia, é uma história.

iStock

Numa ida ao banco, tive uma epifania.

Um mendigo não pede dinheiro. Ele vende um produto e é pago por isso. Ele vende a sensação de que, pelo menos uma vez no dia, o cidadão fez uma boa ação. Uma ilusão.

O carinha da Teologia da Prosperidade vende ilusão.

A turma que vende segredos de sucesso na internet vende ilusão.

Esse produto tem forte demanda e rende dividendos que superam os salários de muita carteira assinada. Se, em um dia, de dois em dois reais, um pedinte chegar a R$ 100, em um mês ele tem R$ 3 mil livres de impostos. É uma média tosca, existem as sazonalidades, períodos de chuva, escolha do ponto, mas serve como aproximação.

Na minha caminhada, avistei um sujeito que já é familiar; negro, com uma má formação de nascença, do tamanho de uma criança de seis anos; tem os pés tortos e caminha de um jeito peculiar, mas com desenvoltura. Simpático e acolhedor como poucos vendedores. Em um intervalo de poucos segundos, vi duas pessoas lhe entregarem cédulas.

Ou melhor, adquirirem um produto.

Na porta do banco, um músico tentava vender CDs para transeuntes que aproveitavam o dinheiro do início do mês para pagar as contas nos caixas eletrônicos. Era triste; cada um que ele tentava convencer virava o rosto, um após o outro, com um incômodo palpável. O cara forçava a barra, e sua música -- talvez seja boa -- ficava soterrada sob a tentativa malograda de convencer possíveis clientes. Tudo o que eles viam era um cara desesperado, não um autor de boas músicas.

Seu produto não era a música. Era o desespero. Para isso, não há demanda.

--

Isso me lembrou uma experiência não muito remota. Há dois meses, precisava levantar dinheiro para pagar contas urgentes da festa de casamento -- uma ilusão de felicidade que movimenta um mercado de R$ 20 bilhões; talvez menos apenas do que o mercado de divórcios.

Enfim, a primeira ideia foi vender brigadeiros na praia num sábado à noite. O que poderia dar errado? Até intolerantes à lactose comem brigadeiro, o local tem alta concentração de turistas e nativos [quase sempre em casais] e o preço era aceitável. Fui à lida com uma caixa decorada e trinta doces dentro. A abordagem: "gostaria de comprar um brigadeiro para ajudar no meu casamento?".

O resultado foi semelhante ao do carinha que vendia CDs, mas observei uma variante que poderia determinar a concretização da venda: quando eu abordava, doces à mostra, a tendência do cliente era a rejeição. Quando eu mencionava as palavras "ajudar" e "casamento", o jogo virava. Se não conseguia vender, ao menos arrancava palavras de apoio e felicitações.

Eu não estava vendendo brigadeiro. O brigadeiro era um bônus, um ornamento ou uma desculpa. Meu produto competia com o do pedinte. Porém ele tem mais simpatia e expertise do que eu.

--

Na volta, com a carteira um pouco mais abastecida do que na ida, consegui evitar o vendedor de CDs. Passei pelo mendigo, que mastigava com gosto um pedaço de bolo. Trocamos olhares, ele me saudou de orelha a orelha com uma boca cheia de gengivas, respondi com um meneio de cabeça e um sorriso. Mas hoje eu não precisava de ilusão.

Avalie este artigo:
(7)
As opiniões veiculadas nos artigos de colunistas e membros não refletem necessariamente a opinião do Administradores.com.br.

Fique informado

Receba gratuitamente notícias sobre Administração