O que determina o fluxo de talentos?

Entenda como a competitividade dos países influencia os principais fatores envolvidos na entrada e fuga de talentos

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Artigo escrito em parceria com Shlomo Ben-Hur e José Caballero.

Com base em dados amplos e resultados de avaliações coletados do IMD World Competitiveness Yearbook entre os anos 2000 e 2016, o Ranking Global de Talentos do IMD avalia a capacidade de 63 países de desenvolverem, atraírem e reterem talentos para operações de negócios nessas economias.

A entrada e a fuga de talentos podem ser fatores-chave para determinar o nível de competitividade e atratividade de talentos de um país. Na ocasião do lançamento do Ranking Global de Talentos de 2016, observamos em profundidade o fluxo de talentos para tentar entender o que determina esse fenômeno.

Primeiro, vamos observar quais países são os mais influenciados. Entre os que sofrem impacto negativo estão Croácia, Grécia, Bulgária e Brasil. Essas nações têm altos níveis de fuga de talentos e não conseguem atrair talentos estrangeiros.

México, China, Índia e Filipinas demonstram altos níveis de fuga, mas são capazes de se manterem atrativos para profissionais oriundos de outras nações.

Já a Noruega, Holanda, Canadá e Cingapura têm baixos níveis de fuga de talentos e altos níveis de entrada de talentos. Por fim, a Islândia, Finlândia e, em menor grau, a República Tcheca, experimentam baixos níveis de saída de talentos e altos níveis de entrada. Veja o gráfico para detalhes mais específicos.

Quais indicadores exercem um papel-chave no fluxo de talentos? Quais fatores conferem uma "vantagem competitiva de talentos" para um país em particular?

A partir dos resultados da nossa pesquisa, ficou claro que há uma série de fatores-chave que determinam o fluxo de talentos. As principais áreas que impactam a saída e a entrada de talentos são:

Legislação

A legislação de um país pode efetivamente promover a pesquisa científica, leis de imigração não-restritivas e um menor risco de instabilidade política; todos esses aspectos diminuem a saída de talentos. Esse indicador sugere que sociedades mais abertas e visionárias conseguem prevenir melhor que os talentos domésticos deixem o país.

Agilidade

A agilidade e adaptabilidade das empresas às mudanças de mercados, bem como os valores inclusivos das corporações, também reduzem a saída de talentos. A agilidade demonstrada por empresas podem ser percebidas como traços de inovação, atraindo talentos de além-mar ao mesmo tempo em que encoraja os talentos locais a permanecerem no país.

Educação

A qualidade de um sistema educacional é um fator importante para aumentar a entrada de talentos. Esse pode ser um indício de que equipes altamente capacitadas consideram a qualidade das escolas para suas crianças quando tomam a decisão de se mudar ou não. Somado a isso, a qualidade da educação, especialmente em nível universitário, pode convencer os talentos locais a permanecerem em seus países ao reduzir a necessidade de buscar uma educação melhor em outras nações. Por outro lado, estudar em universidades estrangeiras pode levar a uma relocação permanente, aumentando a saída de talentos de uma economia.

Saúde

A infraestrutura da saúde de um país é um fator determinante para a atração de talentos. Profissionais que têm vidas saudáveis tendem a permanecer no país de origem, reduzindo a necessidade de atrair profissionais estrangeiros.

Pagamentos

Falando relativamente, os níveis de remuneração parecem ter um impacto marginal na atratividade de talentos estrangeiros. A qualidade do sistema educacional, por exemplo, tem um impacto bem maior no fluxo de talentos.

Motivação

A motivação da força de trabalho é um fator-chave na redução da saída de talentos e também aumenta a atratividade de uma economia para talentos estrangeiros. Empresas em um determinado país que oferecem um ambientes de trabalho estimulantes mantêm a moral dos funcionários em alta e enviam um sinal para profissionais de outras economias.

Para aumentar suas vantagens competitivas, os países precisam adotar uma abordagem em três frentes: Institucionalmente, os governos deveriam focar em regulações que estimulem o desenvolvimento científico, abertura (especialmente para trabalhadores estrangeiros) e fortalecer a estabilidade política.

O setor privado, por sua vez, deve adotar estratégias para aumentar a flexibilidade das empresas para que elas se adaptem as mudanças, reforçando uma cultura de inovação. Somado a isso, as estratégias de negócios devem incluir ambientes de trabalho que aumentem a satisfação e a motivação da equipe.

Academicamente, é importante fortalecer o papel da educação no fluxo de talentos. Para isso, melhorar a qualidade do sistema é fundamental. A adaptabilidade do currículo escolar também é vital para facilitar o desenvolvimento de habilidades particulares e competências necessárias para demandas específicas na economia. Essa abordagem pode estimular fatores apontados na nossa pesquisa como indícios significativos para reter talentos locais e estrangeiros.

A pesquisa não inclui características específicas dos países que podem prejudicar o fluxo de talentos, como idioma, localização geográfica, clima e legado histórico. Há barreiras óbvias para atrair talentos, como um idioma falado por poucas pessoas, ou quando um país é geograficamente distante de áreas onde a população tende a se concentrar (como a Islândia, por exemplo). Não é possível abranger esses fatores em um prazo curto ou médio, portanto não os levamos em consideração no estudo.

Shlomo Ben-Hur é professor de Liderança, Gestão de Talentos e Aprendizado Corporativo no IMD, onde ele dirige os programas Aprendizado Organizacional em Ação (OLA) e Cultivando Energia de Liderança por meio Consciência e Reflexão (CLEAR).

José Caballero é economista sênior no Centro de COmpetitividade do IMD.

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