Era agosto de 2007 em Miami, e a paisagem local insistia em mudar todos os dias com a veloz construção de seus arranha-céus nunca menores que 40 andares e que se utilizavam da tecnologia em parte tild up e de estrutura metálica, empilhando num dia, a laje que lá não estava no dia anterior. Com altivez e euforia da principal economia de subsistência da Florida, as betoneiras da brasileira Supermix subiam pela Collins Avenue ao norte da Ilha de Sunny Isles Beach onde estão alguns dos mais caros empreendimentos da Florida, enquanto as Maseratis, Bentleys e Ferraris desciam em direção contrária a South Beach para serem celebradas novas fortunas que se forjavam a todo o momento. Era tudo uma festa. Esse era o cenário do que prenunciava a maior crise imobiliária da história dos EUA e que serviu de efeito catalisador para a desestabilização de outros mercados como o europeu em especial os chamados PIIGS – Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha além de Rússia, China, Japão, Índia e Austrália. Nos USA, além de Miami, Detroit também foi epicentro da crise imobiliária. Mas falando de Florida, Os chamados Black listed buildings – BLB do Condado de Miami-Dade e Broward, eram os edifícios que uma vez estourada a bolha, não seriam sob qualquer hipótese propriedades objeto de financiamento dos bancos e companhias hipotecárias, eram na sua absoluta maioria, concentrados em Miami. Os blb não necessariamente eram edifícios de alto ou baixo padrão, mas por alguma política equivocada do incorporador, resultavam em vendas unitárias ou em múltiplos para investidores, corretores de imóveis e especuladores que colocavam uma parcela mínima de entrada como comprometimento para revender com lucro, ou ainda, tais unidades eram vendidas para compradores usuários finais que não possuíam capacidade financeira de adquirir tal ativo e que, portanto, caracterizariam mais tarde a massa dos empréstimos sub-prime. Houve muitas outras crises imobiliárias como a exemplo do Japão entre 1985 e 1991, Irlanda entre 1990 e 2006, Espanha 1985 e 2008, (perceba, todos os países, desenvolvidos) mas todos os dedos nos últimos anos estiveram apontados apenas para a crise americana e para uma eminente versão nacional da façanha que realmente deixou tantas economias de cabeça para baixo. A insistente repercussão deste assunto na mídia brasileira no segmento imobiliário que representa em qualquer país em desenvolvimento a coluna vertebral de um ecossistema financeiro deveria ser considerada um desserviço à nossa hoje frágil economia. São os velhos cavaleiros do apocalipse de plantão, incluindo o subdiretor do FMI, Min Zhu, fazendo profecias catacúmbicas de que quem tem um imóvel vai perder dinheiro ou quem possui a hipoteca o tal 'mortgage' vai terminar em baixo das pontes quando a bolha estourar. Haja ponte! Aliás, para colocar um pouco de sal e pimenta no assunto, a palavra mortgage, vem do francês antigo morgage, “dead pledge” literalmente aposta, garantia + morte, 'morgage' do latim 'mortus'. Mas vamos tentar mandar os cavaleiros da vitrola quebrada da bola da bolha da vez de volta pra cocheira tentando entender alguns indícios do porque possivelmente não temos uma bolha. O primeiro elemento a ser considerado é a geográfica de mercado – vivemos em um país continental e quando fazemos uma avaliação de preços de mercado, seja qual for o critério, involutivo, renda, comparativo, etc., temos que entender que São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Brasília destoam da amálgama sócia econômica e demográfica do resto do país. Não é Brasil! Da mesma forma, que os bairros de Vila Nova Conceição, Higienópolis, Moema não representam São Paulo, que o Leblon, não é o Rio de Janeiro, Lourdes e Belvedere não é Belo Horizonte, Asa Sul não é Brasília e assim por diante. A heterogeneidade continental do nosso território não nos permite definir uma equivalência ou isocromia de valores, embora saibamos que tenda a algo popular. Não podemos simplesmente estabelecer uma média ou uma mediana. Não há uma verdade única. A segunda questão é a de Demanda Primaria e Secundaria – Questão fundamental a ser compreendida é que em razão de nosso déficit habitacional, nossa demanda é predominantemente primária e não tem um forte componente de demanda secundária. A demanda primária é composta pelo comprador final, pelo adquirente que faz enorme esforço para compor a renda familiar, trabalha duro para honrar seu nome no SPC e realizar o sonho da casa própria, não dirige maserati, sabe bem o que compra e, portanto, é um agente regulador do livre mercado. Já o comprador da demanda secundária, são aqueles compradores que já possuem residência, mas querem um segundo imóvel produzindo um comprometimento de renda maior, por vezes são especuladores ou investidores buscando alternativa a baixa atratividade da renda fixa como poupança, CDB, LTNs, etc. São também razoes de especulação questões exógenas a uma economia em si como especulação cambial de países vizinhos, problemas de segurança, regimes protoditatoriais, hubs (centros interligadores) turísticos ou logísticos, impacto de novas tecnologias e extração de commodities como, por exemplo, o gás de xisto que esta redesenhando um novo eixo de desenvolvimento imobiliário nos USA podem ser motores de ignição ou dínamos de uma bolha. Oferta e Demanda – Com relação à absorção do setor imobiliário, para que se tenha uma ideia, todos os anos nossa ainda jovem população economicamente ativa, gera uma demanda de 1.27 milhão de acordo com a PNAD/IBGE de novas moradias no país. Pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios PNAD-2012 mostra que o déficit de 10% do total dos domicílios brasileiros registrados em 2007 reduziu para 8,53% em 2012, o que representa 5,24 milhões de residências, mas se considerarmos todas as unidades entregues por este calculo, 903.302 aproximadamente, teremos de um ano para outro aumento nominal no déficit habitacional acumulado de 366.698 de moradias pelo menos. Com relação à concessão de crédito e a solides do sistema financeiro, na última convenção da Basileia III, aonde se reúnem os banqueiros para determinar a governança do setor, estabeleceu-se um aumento de reservas financeiras em diferentes níveis para cada real emprestado, além disso, como teste de sensibilidade a estas novas políticas de reforço, em março deste ano, o Banco Central submeteu o SFN a uma prova para medir os impactos da necessidade de aporte de capital para os bancos em caso de uma forte desvalorização dos imóveis residenciais. Observou-se que o desenquadramento de algum banco só aconteceria com um decréscimo de 45% nos preços, enquanto uma queda de 55% seria necessária para levar um banco à insolvência. Ambos os choques são maiores do que a queda acumulada, ocorrida em um período de três anos, entre os valores máximo e mínimo dos imóveis residenciais nos Estados Unidos da América durante a recente crise do sub-prime, de 33%. Além disso, o SFN como um todo não ficaria desenquadrado mesmo em casos extremos de desvalorização. Dessa forma, conclui-se que o SFN é resistente ao impacto direto causado por grandes oscilações nos preços dos imóveis residenciais. Entre os fatores que ajudam a explicar essa resistência, estão o LTV Loan-to-Value (Percentual financiado do todo) médio que no Brasil gira em torno de aproximados 70% nas concessões e, portanto representam níveis seguros; o sistema de amortização constante (SAC) utilizado, que promove uma redução mais rápida do saldo devedor que outros sistemas conhecidos (por exemplo, Price); a constituição de provisões superiores ao mínimo regulamentar; e a capitalização do sistema em níveis elevados. Descolamento de Preco – Dentre os fatores que poderiam contribuir para uma bolha poderíamos considerar o descolamento entre custo e preços praticados do metro quadrado, o que não vem acontecendo. Estudos do mercado indicam que os incorporadores e construtores vêm praticando margens liquidas de resultado por vezes exíguo, sendo a única razão para o aumento de preços do metro2 nos últimos anos, o acompanhamento do reajuste da cesta que compõe o custo de mão de obra, insumos, terrenos e outorga onerosa, custo financeiro que são minimamente reajustados pelo INCC – Índice Nacional da Construção Civil e que não refletem qualquer tipo de descolamento desproporcional que justifique exageros ou preços aviltantes. O consumo de cimento per capta – de acordo com o relatório do ICR – International Cement Review, de agosto de 2013 o consumo de cimento Brasileiro per capta em 2012 foi de 330 kg, abaixo de 16 países dos quais; China 1.581 kg, Iran 770 kg, Turquia 744 kg, Egito 554 kg, Itália 546 kg, Espanha 438 kg, Rússia 402 kg e Alemanha 342 kg. O estouro da bolha japonesa se deu com 507 kg, da Espanha com 936 kg, USA 305 kg (Que faz grande uso de estrutura metálica) e nada sugere estouro de bolha com menos de 350 kg. A Comparação do endividamento hipotecário X PIB – Conforme ultimo relatório do banco central brasileiro de 2012, o endividamento médio do brasileiro ainda é de 4% sobre o PIB. Comparativamente a outros países como Republica Checa de 8%, USA 65%, China 15%%, Chile 13%, Espanha 46%, África do Sul 20%, Índia 7% Coreia do Sul 26%, México 9%, Irlanda, 53%, Inglaterra 73%. As bolhas imobiliárias estouraram quando o crédito hipotecário superou pelo menos 45% do PIB. Caso efetivo da Irlanda, Japão, Espanha e USA. Vamos ter que cavalgar muito para chegar la.Comparação de Preço de m² com outras Cidades do Mundo – No sentido de comparar peras com peras e macas com macas, de acordo com pesquisa da rede de televisão CNBC de marco de 2014, O preço médio do m2 ao redor do mundo em sequencia do mais caro ao mais barato é: Mônaco, Hong Kong, London, Singapore, Genebra, Nova York, Sydney, Paris, Moscou, Shanghai, Beijing, Roma, Los Angeles, Miami, Tóquio, Mumbai, Istambul e somente depois São Paulo. Somos mais econômicos que 17 paises. Bolhas podem ser detectadas também com equações matemáticas de preço de ativo (valuation) – Se calcularmos o aluguel de um imóvel, multiplicamos pelos doze meses do ano e dividimos pelo preço de mercado deste mesmo imóvel, deveremos ter uma taxa aproximada as medianas de taxa das principais rendas fixas praticadas neste mercado, caso a taxa de rendimento seja muito menor, as chances de existência de bolha são maiores, mas não conclusivas; se muito maior que nossa referencia for a taxa percentual de retorno do aluguel, excelente!, Você tem um ativo de renda e por excludencia de possibilidade, não existe bolha. Dentre todos os itens acima analisados, pude observar que não nos enquadramos em nenhuma das regiões de nosso país em mais de dois dos dez critérios acima apresentados e, portanto, o que me leva a crer que o Brasil não é o candidato ao prêmio bolha da vez. Não obstante, temos alguns casos isolados de sobre oferta em alguns bairros de SP, Santos (curto prazo), Rio de Janeiro, Brasília, Curitiba e especulação isolada no Rio de Janeiro. No que concerne a problemas de crédito faço apenas ressalva à margem de inadimplência de 20%, bastante acima da média nas carteiras de recebíveis da CEF principalmente no programa faixa um para famílias que compõe renda de ate R$ 1.600 reais (um a três salários mínimos) do programa MCMV apontado. Ainda assim, não podemos considerar de potencial impacto sistêmico para o SFN um eventual aumento abrupto do inadimplemento desta carteira e consequentemente um detonador de bolha, haja vista que conforme relatório do BCB de setembro de 2014, o numero de inadimplentes com três ou mais prestações atrasadas era de 2,38% do total do SBPE – Sistema Brasileiro Poupança Empréstimo, um numero considerado dentro dos padrões. Como disse há mim esta semana o presidente de uma das maiores construtoras deste país, – 'No curto prazo, a única bolha que vejo atualmente é a do meu pé'. – Este não anda a cavalo.