"Pescando Tolos": o livro de Economia que você precisa ler em 2016

Mas leia criticamente, reflita, pensa e leve o tema para debate

Seguir + Luiz Kehrle,
Reprodução

A nomenclatura "Pescando Tolos" é uma tradução livre e bem comportada de “Phishing for Phools”, título do mais recente livro de dois ganhadores do Nobel em Economia, George Akerlof e Robert Shiller, que tem agora tradução brasileira, com lançamento previsto para breve pela editora Alta Books.

Um título contundente como “Phisgando Otários” ou, talvez, “ À Caça de Otários”, como Rachel Warzszawsky traduziu para o Valor Econômico, estaria mais de acordo com o espirito dos autores, mas essa é talvez somente uma questão de marketing. De todo modo, é bom saber que a palavra phish, em inglês, tem o significado de pesca fraudulenta de informações de usuários da internet, mas os autores amplificaram seu significado para comportamento fraudulento em qualquer área.

Ainda bem que o subtítulo “A Economia da Manipulação e Fraude" não deixa dúvidas quanto ao escopo do livro, de modo que a edição brasileira é muito bem vinda por se tratar de um trabalho original que defende ideias novas e polêmicas. Alguma controvérsia deve-se esperar com essa tradução brasileira, a despeito da boa repercussão no lançamento americano, quando foi louvado por outros ganhadores do Nobel e grandes nomes da Economia e áreas correlatas, tendo sido referido em muitas listas prestigiosas de melhores livros de 2015. Os interessados podem facilmente achar na internet a apresentação que os autores fizeram no Banco Mundial quando do lançamento.

Os elogios são, de fato, merecidos. Se não houvesse outras razões, e existem muitas, pelo menos devido ao fato de dois consagrados economistas se darem ao trabalho ( e que trabalho! quatro anos da dupla e uma grande equipe de auxiliares ) de escrever sobre questões para as quais um economista acadêmico poderia torcer o nariz: as fraudes geradas pelo mercado - o que, convenhamos, não é um tema usual. Ainda mais porque, segundo os laureados autores, essas fraudes, a que todos estamos sujeitos, decorrem de incentivos do mercado, da mesma forma que decorrem as inovações, a melhoria da qualidade e tantos outros avanços, dos quais dependemos para uma vida confortável e plena.

Logo na Introdução, que não pode ser contornada, está a tese que guia o que vem a seguir: a cata aos otários é uma disfunção do mercado tal como externalidades e distribuição de renda distorcida. O capítulo primeiro intenta mostrar que o phising for fools é uma fonte de desequilíbrio do orçamento familiar e que o crescimento da renda não pode solucionar o problema, enquanto perdure um tipo de consumo que interessa somente aos vendedores. O mais importante é que é na introdução que o conceito de equilíbrio na presença de phising é introduzido.

Por sua vez, o capítulo dois constitui mais uma explicação para a grande crise financeira iniciada em 2008, claro que com o phising for fools desempenhando um papel ativo no seu desenvolvimento. Os canais para essa ação seriam os bancos de investimentos, as agencias de classificação de risco e a interação quase delituosa desses dois agentes, propiciadas por uma desregulamentação que gerou incentivos à mancomunação. Vale a pena o final do capitulo com a citação quase cândida, se não fosse trágica, de dirigente da agência Moody´s que explica a prodigalidade na classificação triple A dada a ativos podres como decorrente da incompetência, da venda a alma ao diabo ou uma combinação dessas duas coisas tenebrosas.

A segunda parte do livro, que vai do capitulo três ao onze, tem grande apelo mesmo para o público não especialista porque ali são identificadas falcatruas em mercados tais como de carros, residências, cartões de credito, fumo, álcool, alimentos e muitos outros. Vale a pena ler o livro mesmo que fosse somente pelo catálogo de fraudes montado pelos autores, que nos faz conhecer ou relembrar nomes de autores de grandes golpes e seus ardis , alguns deles geniais, outras vezes somente possíveis por conta da sempre renovada estupidez dos otários contumazes que somos quase todos, incluindo os dois autores, que modestamente também assim se reconhecem.

Na segunda parte também se incluem analises detalhadas sobre fraudes no mercado financeiro e na política, o que se deveria esperar dado o imenso potencial dessas áreas para a geração de comportamento oportunista. Mas há também um menos óbvio capitulo sobre fraudes na área de inovação, o décimo, e o ultimo dessa parte, intitulado nada mais nada menos que “The Resistence and its Heroes”, que é na verdade uma grande louvação aos agentes públicos dedicados ao combate ao comportamento fraudulento dos agentes econômicos.

Os autores defendem uma maior participação do governo pondo claramente nos ombros da liberação da economia americana, ocorrida partir do governo Reagan, a maior parte da culpa pela crise dos sub prime e do aguçamento do phisgamento de otários na economia do país.

Mas muitos economistas, entre os quais me incluo, identificam na origem dessa crise o próprio governo, com sua política habitacional populista, com credito amplo concedido com critérios frouxos, semelhante ao que ocorreu e ocorre em muitas economias ao sul do Rio Grande. Raghuram J. Rajam, ex Economista Chefe do FMI e atual presidente do Banco Central da Índia, talvez o primeiro economista a prever fundamentadamente a crise de 2008, coloca, em seu excelente livro “Fault Lines”, o governo americano e sua política de credito imobiliário, compensatória do crescimento da desigualdade de renda no país, na origem da grande crise iniciada em 2008.

A última parte do livro amplia o estudo da caça aos otários a áreas mais amplas: seguridade social, regulação de ativos mobiliários e financiamento de campanhas, temas na ordem do dia na discussão da crise brasileira. Há muito o que aprender nessa parte conclusiva, mas há ainda mais no posfácio, onde os autores tentam convencer o leitor, na minha opinião sem muito sucesso, que estão a expandir significativamente a análise econômica convencional. Todavia, mesmo se concedendo que fizeram um trabalho relevante, não há novidade teórica à vista.

Mas o livro ainda não acabou. Antes de fechá-lo seria bom ler os agradecimentos, para se ter uma ideia da infra estrutura utilizada pelos autores para produzi-lo, e assim saber porque é nas universidades americanas que a pesquisa econômica floresce com mais vigor que em qualquer parte do mundo.

Atualização dos editores

O livro finalmente foi lançado no Brasil e já está à venda pela Alta Books.

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