Resiliência? O que é isso? Desdobramentos no conceito.

No artigo original “Resiliência? O que é isso?” apresentei a resiliência como a capacidade de uma pessoa transcender aos obstáculos. Com as novas pesquisas acrescento que essa capacidade é estruturada pelos esquemas básicos de crenças, que denominei de Modelos de Crenças Determinantes (MCDs).

Autor: GEORGE BARBOSA*

 

Instituição: Sociedade Brasileira de Resiliência - www.sobrare.com.br

Introdução

No artigo original "Resiliência? O que é isso?" defendi que resiliência é a capacidade de uma pessoa transcender nos obstáculos, nos embates, nas adversidades e nos conflitos que a vida apresenta – o inesperado. Após esse período de novas pesquisas e análises acrescento que essa capacidade é estruturada pelos esquemas básicos, que denominei de Modelos de Crenças Determinantes (MCDs) que uma pessoa organiza ao longo de sua vida. Por vezes, já na primeira infância.

A partir desse meu mais recente conceito me pergunto o que significa ser resiliente?

Desdobramentos

Ser resiliente dentro desse conceito é assegurar a qualidade essencial de alguém contar com modelos de crenças que possam responder a uma situação de aflição rompendo com padrões que normalmente são esperados pela educação, cultura, religião, etc. E isso sem apresentar longos períodos depressivos, ao contrário, ganhando em maturidade.

O que leva a pessoa resiliente sair de uma situação horrível sem longos períodos depressivos é a maturidade que ela adquire com a experiência do embate, do sofrimento. Sendo assim a pessoa resiliente se fortalece na luta.

O que caracteriza uma pessoa como sendo resiliente é o conjunto de suas crenças que possibilitam uma postura de transcender os empecilhos na vida, de ler o ambiente e outras pessoas com acuidade e de imaginar um futuro com superação.

As pessoas resilientes são reconhecidas na literatura como "os sobreviventes", uma vez que resiliência é por excelência - sobrevivência.

Refiro-me à sobrevivência no âmbito social, conjugal, físico, psicológico e profissional, mesmo diante do sofrimento ou tensão que lhes são impostas.

O recurso que a pessoa resiliente utiliza para sobreviver é a maturidade em equacionar de modo sensato os seus modelos de crenças básicos. A maturidade se expressa em não ser apegado em demasia às crenças ao ponto de se tornar intolerante ou, no outro extremo, ser apático demais a ponto de tornar-se submisso demais nas situações de enfrentamento. Ou seja, atuar além da raiva (intolerância) ou da tristeza (passividade) que são as emoções instintivas para uma pessoa reagir à adversidade.

Das análises estatísticas posteriores à pesquisa de doutorado me foram possível verificar que a pessoa com bons índices de resiliência traz a capacidade de elaborar estratégias de como se posicionar na vida de forma calculada. Isto é, assumir o risco - desde que ele assegure a sobrevivência.

Bem, mas e depois da resiliência (do sobreviver)?

Depois vêm outras disciplinas, como a qualidade de vida, a educação, a profissionalização, a cultura, etc. Que aprimoram e enriquecem a sobrevivência (a resiliência). Dessa forma, baixos índices de resiliência significam ameaças à sobrevivência em uma dessas áreas.

O caminho de transcender às reações instintivas leva a pessoa resiliente a viver e enxergar a vida com um rico sentido de vida.

Esse traço (contar com um Sentido de Vida) é constituído fundamentalmente de autoconhecimento, da percepção do outro e da leitura do ambiente.

Embora eu tenha iniciado as minhas pesquisas em 2004 descrevendo fatores de resiliência, HOJE, mais maduro na teoria, eu ensino que se trata de oito (8) Modelos de Crenças Determinantes (MCDs) em uma pessoa, como apregoa a teoria da Terapia Cognitiva. São esquemas mentais (grupamentos de crenças acerca de uma área da vida) que literalmente organizam a atitude, o comportamento, o emocional e o intelecto de todos nós ( Freeman, 1998). Esses MCDs são estruturados desde a primeira infância. São crenças que se aglutinam quando vamos conhecendo / aprendendo / experimentando os fatos da vida com aqueles que nos cercam. Esses MCDs quando organizados com uma base adequada, já desde cedo, capacitam a criança a aquilatar de forma simples e flexível suas convicções face as adversidades. Os MCDs são mapeados por meio da escala de resiliência que desenvolvi no doutorado (Barbosa, 2006).

Os MCDs são:

1 – MCD de Autocontrole.

Capacidade de se administrar emocionalmente diante do inesperado. É amadurecer no comportamento expresso, uma vez que será esse comportamento que irá ser lido pelas outras pessoas.

2 – MCD de Leitura Corporal

Capacidade de ler e organizar-se no sistema nervoso / muscular. É amadurecer no modo como lidar com as reações somáticas que surgem quando a tensão ou o estresse se tornam elevados.

3- MCD de Otimismo para com a vida

Capacidade de enxergar a vida com esperança, alegria e sonhos. É a maturidade de controlar o destino da vida, mesmo quando o poder de decisão está fora de suas mãos.

4 – MCD de Análise do ambiente

Capacidade de identificar e perceber precisamente as causas, as relações e as implicações dos problemas, dos conflitos e das adversidades presentes no ambiente.

5 – MCD Empatia

Capacidade de evidenciar a habilidade de empatia, bom humor e de emitir mensagens que promovam interação e aproximação, conectividade e reciprocidade entre as pessoas.

6- MCD Autoconfiança

Capacidade de ter convicção de ser eficaz nas ações propostas.

7 – MCD Alcançar e Manter Pessoas

Capacidade de se vincular as outras pessoas sem receios ou medo de fracasso, conectando-se para a formação de fortes redes de apoio e proteção.

8 – MCD Sentido de Vida

Capacidade de entendimento de um propósito vital de vida. Promove um enriquecimento do valor da vida, fortalecendo e capacitando a pessoa a preservar sua vida ao máximo.

Conclusão

O entendimento de que a intensidade dada a um conjunto de crenças determina se o comportamento expresso terá maior ou menor resiliência, a clareza de que essa intensidade é dada de acordo com a maturidade em avaliar as próprias crenças e que as crenças podem ser aglutinadas em modelos básicos ou determinantes, são os desdobramentos fundamentais ao conceito de resiliência aqui apresentado.

 

* o autor é Mestre e Doutor em Psicologia, atua como Coach. É o Diretor Científico da Sociedade Brasileira de Resiliência. www.sobrare.com.br

 

BARBOSA, G. (2010) Resiliência e a lógica dos estilos comportamentais. in: http://www.administradores.com.br/informe-se/artigos/resiliencia-e-a-logica-dos-estilos-comportamentais/49925/

 

BARBOSA, G. (2006). Resiliência em Professores do Ensino Fundamental de 5ª A 8ª Série: VALIDAÇÃO E APLICAÇÃO DO "QUESTIONÁRIO DO ÍNDICE DE RESILIÊNCIA: ADULTOS - R - S / BARBOSA".

http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=29754

 

BARBOSA G. (2007) Resiliência? O que é isso. Vox Scientiae, revista eletrônica do Núcleo José Reis ..., 2007 http://www.abradic.com/voxscientiae/anteriores.html

 

BARBOSA G. (2010) Os pressupostos nos Estilos Comportamentais de se expressar resiliência. In: KREINZ, G; PAVAN, O. H.; ANDRADE, R. G. (2010) Divulgação Científica: Enfrentamentos e Indagações. São Paulo: NJR/USP. 287p.

 

FREEMAN, Arthur, Dattilio, Frank M., Compreendendo a Terapia Cognitiva. Editorial Psy, 1998.

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