Pare de confiar no seu feed do Facebook

Os filtros-bolha continuam a prejudicar o debate

Kazuend/Unsplash

O aviso foi dado há alguns anos. As personas nas redes sociais estão se isolando cada vez mais em bolhas particulares, indispostas a buscar dados que contradigam suas opiniões formadas e adestrando os algoritmos para que continuem alimentando o que elas já entendem como a verdade absoluta.

Em um artigo publicado na Wired, o diretor de marketing da empresa de software WorkZone, Mostafa El-Bermamawy, relata como poucas informações e artigos favoráveis a Donald Trump, presidente eleito dos Estados Unidos, chegavam ao seu feed – embora a presença online do republicano fosse bem superior à da adversária, Hillary Clinton.

"Percebi que o segundo artigo mais popular publicado nas redes sociais nos últimos seis meses com as palavras 'Donald Trump', intitulado 'Por que eu vou votar em Donald Trump', foi compartilhado 1,5 milhão de vezes. Ainda assim, a história nunca chegou ao meu newsfeed do Facebook", relata. "Perguntei aos meus colegas liberais de NOva Iorque, e todos eles disseram que nunca o leram", conta.

O resultado todos conhecem: ninguém cujo voto era favorável a Clinton esperava a derrota da democrata, visão validada inclusive por pesquisas eleitorais.

O Facebook é utilizado como fonte primária de notícias por 61% dos chamados millenials quando o assunto é governo e política, aponta o centro de pesquisas Pew. No Brasil, cerca de 70% dos brasileiros usam a rede social como fonte principal de informação, segundo a Quartz. Mesmo assim, o Facebook não se define como um meio de comunicação e, geralmente, evita se responsabilizar pelo conteúdo disseminado. Isso mudou na última semanam, quando o próprio Mark Zuckerberg anunciou medidas para combater as notícias falsas – especula-se que elas tiveram peso na decisão eleitoral.

Um levantamento do Buzzfeed Brasil aponta, por exemplo, que as notícias falsas referentes à operação Lava-Jato obtiveram mais engajamento na rede social do que as reportagens verídicas. Segundo o levantamento, 10 das notícias falsas mais compartilhadas somaram 3,9 milhões de interações, enquanto entre as verdadeiras o volume chegou a 2,7 milhões. Ainda há o problema marginal das manchetes: poucos leitores sequer abrem os links para terem acesso às informações apuradas.

Os três problemas – filtros-bolha, notícias falsas de amplo impacto e o péssimo hábito de ler apenas as manchetes – concorrem para o fenômeno que o Dicionário Oxford elegeu como palavra do ano: Pós-Verdade. A verdade factual dá lugar a argumentos de apelo emocional e crenças pessoais, tudo isso reforçado com dados parciais e notícias de aparente credibilidade. O fenômeno não é novo, mas ganhou uma dimensão extrema em 2016, após o referendo conhecido como Brexit e a eleição presidencial nos Estados Unidos.

'Idiota confiante'

O efeito Dunning-Kruger parece ter se espalhado em escala viral. O próprio David Dunning, cientista que nomeou o efeito mais conhecido como a síndrome do "idiota confiante", sugeriu que as redes sociais e os três problemas elencados acima estão apresentando reflexos reais e perigosos quando tudo se mistura com política. "Em muitos casos, a incompetência não deixa as pessoas desorientadas, perplexas ou cautelosas. Em vez disso, os incompetentes são abençoados com uma confiança inapropriada, impulsionada pelo que eles acham que é conhecimento", alega.

Esse não é um fenômeno exclusivo de pessoas que declaram voto por um candidato ou defendem uma determinada posição. Todos estão sujeitos a extrapolarem seu limite de conhecimento e opinar sobre o que não entende, provocando efeitos reais na vida das pessoas. "A maneira como concebemos ignorância – como a falta de conhecimento – nos leva a pensar que educação é um antídoto natural. Mas educação também pode produzir confiança ilusória", afirma.

Inundação

Quando se compara o efeito Dunning-Kruger com o potencial de disseminação oferecido pelo Facebook – relembrando: utilizado como fonte primária de notícias por sete em cada 10 pessoas – o prognóstico não é animador. Se tudo o que aparece no feed das pessoas confirma o que elas pensam, aquilo passa a ser verdade, já que o contraditório é mantido à distância pelos algoritmos que mapeiam as preferências individuais.

"Como um liberal novaiorquino, meu feed estava repleto de hashtags como #ImWithHer ou #FeelTheBern somados a algumas manchetes do tipo 'Obama é o maior', que eu ficava feliz em ler", conta Mostafa. "Quando entramos na fase de debates, meu feed passou a exibir escândalos de Trump e os motivos pelos quais eu deveria apoiar Clinton. Eu acessava artigos apenas de veículos liberais, como o New York Times e o Washington Post. Eu sei que é importante ser cético com a mídia, mas mesmo um olhar crítico fica menos aguçado com a propaganda de apenas um lado", conta.

Nos Estados Unidos, veículos de comunicação tradicionais, em geral, assumem preferências políticas e apoio a candidatos em editoriais. É uma maneira de deixar o leitor ciente do que está lendo. Mas o Facebook não é um veículo de comunicação, não tem ingerência sobre o conteúdo nem se responsabiliza. "Na vida real, comunidades já são segregadas por cor, classes, e visões políticas e culturais. Facebook, Google e outras redes são nossas comunidades online, e elas são similarmente segregadas. Precisamos lembrar a nós mesmos que existem pessoas no outro lado da tela que querem ser ouvidos e podem pensar e sentir como nós, mas chegar a diferentes conclusões", conclui Mostafa.

Como escapar da bolha

A ascensão do Facebook e a fragilização – alguns diriam consequente – dos meios de comunicação tradicionais e do interesse pelo jornalismo de qualidade levam a apenas uma saída. Os leitores precisam aprender a duvidar, buscar o contraditório e compreender as pessoas que estão do outro lado. Para o exercício do senso crítico diante do volume de informações, a jornalista norte-americana Asha Dornfest recomenda nove medidas para que as pessoas não se deixem manipular por suas próprias preferências.

– Pare de usar o Facebook como fonte primária de notícias;
– Assine um jornal local;
– Assine um jornal nacional;
– Acesse informações de ao menos uma fonte que não reflita suas visões políticas;
– Leia ao menos uma fonte de notícias dedicada à cobertura internacional;
– Aprenda a identificar notícias falsas;
– Conecte-se pessoalmente com sua comunidade local;
– Comprometa-se a fazer gentilezas todos os dias.

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