A FORMAÇÃO HUMANA COMO SUPERAÇÃO DA ESCOLA CICLADA
Elena Roque de Souza Almeida
Pedagoga, Pesquisadora, Alfabetizadora
Ao longo da minha caminhada profissional, vivencie enumeras mudanças educacionais no estado de Mato Grosso: Escola tradicional; gestão democrática – construtivismo; Escola Ciclada e a atual Ciclo de Formação Humana.
Essas experiências, apesar de terem apresentado alguns problemas estruturais e de reajustes na prática, mostraram que o currículo organizado por ciclos de formação humana contribui efetivamente para a superação dos desafios encontrados nas escolas públicas estaduais. A organização escolar do ensino fundamental, previstas na LDB (Lei de Diretrizes e Bases), onde a base da enturmação das alunas e dos alunos ocorre com referência na faixa etária e, a partir disto, o processo de escolarização busca contribuir com o desenvolvimento integral do estudante, desenvolvendo atividades que consideram a heterogeneidade da turma como uma força motriz da aprendizagem escolar.
A estrutura proposta nessa política educacional se constitui em três ciclos: o primeiro ciclo com crianças de 6 a 8 anos, o segundo ciclo com crianças de 9 a 11 anos e o terceiro ciclo com crianças de 12 a 14 anos.
O objetivo desta contraposição é compreender as dificuldades que hoje ainda se apresentam em diferentes redes de ensino, na tentativa de romper com a seriação e ciclo de aprendizagem (retenção do aluno ao final do ciclo, prevendo que, os que apresentem maior dificuldade ao final do ciclo repitam o último ano), como formas de organização da escola de ensino fundamental. Pois ainda é muito comum encontrar professoras que defendem a reprovação, no caso dos ciclos de aprendizagem chamada de “retenção”, com o argumento de que “até que ponto ajudaremos [o aluno, a aluna] se ele vai adiante”.
Esse paradigma é rompido com a organização da escola em Ciclos de Formação Humana onde todo o trabalho educacional é norteado pelas idades da vida e da formação humana, desde o planejamento, a organização das atividades, os conhecimentos até a intervenção do educador e educadora no processo de ensino aprendizagem.
Miguel Arroyo ressalta que a questão fundamental não é, em primeiro plano, o fluxo escolar, a reprovação ou o sistema seriado, mas que o essencial “é repensar a concepção e a prática de educação básica que estão presentes em nossa tradição e na estrutura seriada que as materializa” Arroyo (1999, p.11).
Dessa forma, os ciclos são estruturados nas temporalidades do desenvolvimento humano, entendendo a concepção de educação básica como “direito ao desenvolvimento humano, à realização humana”. (Arroyo, 1999, p11).
Nessa perspectiva, os Ciclos de Formação Humana são caminhos alternativos caracterizados pela possibilidade de subverter a ordem do que se encontra estruturado nas instituições escolares. “Trabalhar em um determinado tempo-ciclo da formação humana passa a ser eixo identitário dos profissionais da educação básica e de seu trabalho coletivo e individual” (Arroyo,1999, p.11).
Daí, então, a preocupação em observar o fazer pedagógico dos docentes de uma escola organizada em ciclos de formação humana, para uma análise da qualidade do ensino desenvolvido sob esta proposta.
É necessário refletir sobre a significação que a reveste no interior da prática educativa. Ou seja, a palavra qualidade requer uma adjetivação: boa ou má.
Um “ensino de boa qualidade” é aqui entendido dentro de uma perspectiva social e histórica, porque emerge de um contexto da realidade e, por isso, requer reflexão crítica da atividade docente que articula a dimensão técnica com as dimensões política e ética.
Assim, não se trata de um ensino-aprendizagem baseado apenas na socialização, mas na formação e no desenvolvimento humano.
Nesse sentido, o objetivo é compreender a didática do professor que consegue desenvolver um ensino aprendizagem de boa qualidade, relacionando sua prática à proposta do governo, escola em ciclo de formação humana e identificando as aprendizagens que os mesmos promovem em uma sala de alfabetização.
Para tanto, são abordados alguns aspectos da proposta em ciclos formação humana de uma escola da rede estadual de ensino de Mato Grosso e apontado alguns elementos ou supostos da prática pedagógica da professora, que contribuem para uma boa qualidade do ensino-aprendizagem.
Alguns elementos de práticas educativas de boa qualidade
O tema proposto nesta investigação sobre os Ciclos de Formação e desenvolvimento Humano tem suas origens na observação do cotidiano e na reflexão sobre a prática educativa.
Ao longo dos anos trabalhados no ensino fundamental, alguns fenômenos contribuíram para apontamentos de questões tais como: o papel do professor e da professora na educação escolar, as práticas educativas que contribuem para um ensino aprendizagem de qualidade, a operacionalização do currículo, entre outras questões que se relacionam ou interferem no processo ensino-aprendizagem.
No entanto, um fenômeno específico foi observado ao longo da prática educativa e fez emergir a seguinte questão: por que os mesmos alunos e alunas apresentam uma qualidade de aprendizagem boa em um determinado ano letivo enquanto que em outro ano acontece o oposto? E em alguns anos foi percebido que essas alternâncias correspondem a certa qualidade de ensino, ou seja, à participação dos alunos em atividades educativas que colaboraram para o ensino-aprendizagem de qualidade.
No entanto, resta a questão sobre quais práticas educativas estão relacionadas com essa qualidade.
É necessário um olhar mais profundo sobre as práticas educativas, partindo de observações sobre fenômenos aparentemente normais, sobre coisas que acontecem todos os dias, meses, anos e até décadas.
Muitas vezes, aquilo que é tão óbvio passa despercebido porque não se ajusta o olhar a esses tipos de fenômenos, mesmo quando estão a todo o momento incomodando rotinas, perturbando práticas e impedindo avanços.
Dessa forma, este artigo tem como objeto de análise as práticas educativas de boa qualidade de uma professora que proporciona ao aluno e à aluna o ensino que promove o desenvolvimento cultural e cognitivo. E, supostamente, três características são fundamentais nesta prática: a flexibilização, a interação e o conteúdo.
Atualmente, vivemos um momento histórico (estadual) na educação, que proclama os direitos humanos, reclama a escola para todos e busca meios para que essa escola se efetive na sociedade.
Nessa perspectiva de escola, nasce a defesa dos grupos historicamente excluídos dos sistemas educacionais.
No panorama da educação matogrossense, a incorporação das diretrizes nacionais para a educação para todos, na prática, tem transformado radicalmente o sistema educacional. Essa mudança foi representada, de forma geral, pelo aumento significativo do número de matrículas na escola.
Dessa forma, professores e professoras passaram a lidar com contingentes maiores de alunos de diversificados grupos sociais. A prática educativa, nesse aspecto, deve ser tão ampla quanto à diversidade na sala de aula, em outras palavras, as práticas educativas devem incluir essa diversidade. Se não há essa consideração, o professor e a professora correm o risco de atender pequenos grupos com sua prática, transformando-a em um forte instrumento de exclusão dentro da sala de aula e, consequentemente, contribuindo para o fracasso escolar.
No âmbito das atividades de sala de aula, o professor e a professora devem flexibilizar suas práticas educativas, ou seja, propiciar que o aluno e a aluna tenham acesso ao currículo. Isso quer dizer que o professor e a professora devem conhecer estratégias de ensino que possibilitem a participação e a construção do conhecimento coletivo.
Interagir quer dizer agir reciprocamente, ou seja, agir com o outro. Nos primeiros anos escolares alguns elementos contribuem para essa reciprocidade entre professor e estudante como, por exemplo, a relação afetiva ou de sentimento.
No entanto, o sentimento contribui, mas não é o suficiente no sistema escolar.
Na educação em uma instituição escolar, é necessário que essa interação esteja respaldada em outros aspectos, tais como: conhecer como o ser humano aprende e como cada sujeito aprende. Em estudo realizado com crianças cursando o primeiro ano letivo do ensino fundamental sobre as suas expectativas em relação à escola, a maioria respondeu que freqüentava a escola para aprender a ler e a escrever.
A partir desse estudo, é possível enfatizar que quando a criança freqüenta a escola (e por mais que possa atribuir seus sentimentos ao professor e à professora que muitas vezes se fazem mais presentes em sua vida do que os próprios pais), não espera ser vista apenas como “carente”, mas quer ser incluída em um grupo social que contribua para o seu desenvolvimento mental, para sua participação na sociedade em “pé de igualdade” com os outros sujeitos.
A criança tem a sua representação de escola definida como “lócus” de aprendizagem. Essa interação entre o professor / professora e o aluno / aluna deve pautar-se em uma postura ética e coerente com as questões escolares.
O estudante e a estudante são seres de direito em sala de aula e o professor / a professora devem interagir com ele / ela de forma respeitosa, não negando o que esse aluno e essa aluna têm garantido em lei.
Uma das contribuições da abordagem histórico-cultural para o trabalho pedagógico, especificamente para a organização escolar em ciclos de desenvolvimento e formação humana, refere-se à importância da interação, uma vez que as mais elevadas funções mentais do indivíduo emergem de fenômenos sociais.
Essas contribuições da abordagem histórico-cultural reiteram o fato de que os Ciclos de Formação Humana não são apenas organizados como espaços de convivência e socialização, mas espaços de ensino-aprendizagem comprometidos com o desenvolvimento humano.
Uma das maiores dificuldades, no ensino, está relacionada basicamente com o conteúdo. Com as mudanças ocorridas no âmbito educacional, alguns elementos foram incorporados para superar algumas críticas feitas à escola denominada tradicional e conteudista.
Na tentativa de superar tal crítica, a escola propõe o desenvolvimento de trabalhos de diferentes formas. Assim, tem-se o trabalho pedagógico organizado por projetos, como exemplo.
Os projetos pedagógicos são formas de significar o ensino com seus métodos e conteúdos.
Dessa forma, o ensino orienta-se para um sentido na realidade.
Contudo, é percebida a dificuldade desse trabalho com projetos. Muitas vezes, quando não descartados totalmente, os conteúdos não são contemplados porque o professor e a professora não conseguem operacionalizar o projeto vinculando-o aos conteúdos.
Isto significa que se anteriormente os conteúdos não tinham uma condição mínima de sentido na realidade, nesse momento encontram-se quase ausentes das práticas educativas.
Por isso, é necessário reafirmar a função social da escola e o papel do professor na atividade escolar. É na escola que há a aprendizagem dos conhecimentos culturalmente acumulados pela humanidade.
Nessa perspectiva, na sua prática educativa, o professor e a professora devem desenvolver estratégias de ensino que possam dar condições ao aluno e à aluna de apropriar desses conhecimentos.
O professor e a professora que conseguem desenvolver práticas educativas de qualidade conseguem que o aluno e a aluna apropriem- se do conhecimento e se desenvolva.
Portanto, não se trata de voltar ao ensino “conteudista”, mas de se considerar o conteúdo relacionado-o a outros aspectos, tais como o cultural e o social, sem excluí-los do plano de ensino.
Conclusões
A organização do ensino em ciclos de formação humana tem por essência o compromisso com a formação e o desenvolvimento dos alunos e das alunas. Para além da mera aquisição de conhecimentos sistematizados, os Ciclos de Formação Humana incluem as dimensões políticas, éticas e sócio-culturais.
Nesse processo, são fundamentais tanto as experiências socializadoras que possibilitam a construção e reconstrução de saberes, valores e atitudes, quanto os processos de construção de conhecimentos, desenvolvimento de conceitos e da linguagem e de estruturação do pensamento.
Segundo Vygotsky (2002), a construção do pensamento e da subjetividade é um processo cultural, e não uma formação natural e universal da espécie humana.
Nesse sentido, o processo de humanização revela que o indivíduo não nasce com todas as características, mas é formado na interação de suas características biológicas com o meio social. Quando a escola não separa o pensar do agir, o educador e a educadora planejam e intervêm na organização das idéias, na formulação de hipóteses e nas conclusões que os alunos e alunas constroem e reconstroem em suas vivências escolares.
Sendo assim, para que a escola de formação humana adote uma proposta pedagógica que privilegie não só as fases do desenvolvimento humano, mas que também evidencie a sua formação é necessário que sejam identificadas e garantidas práticas que contribuam para a boa qualidade da aprendizagem formal destes alunos e destas alunas.
Referências Bibliográficas
ARROYO, M. G. “Ciclos de Desenvolvimento Humano e Formação de Educadores. Educação e Sociedade, Campinas, n. 68, p. 143-162, 1999.
VIGOTSKY, L. S. A formação Social da Mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. São Paulo: Martins Fontes, 2002.








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