A ignorância leva ao insucesso
Gosto bastante de, uma vez por outra, reler textos ou livros de administração de há 20 ou 30 anos e verificar que mudanças se deram passado todo este tempo. Confesso que, ainda que no campo do pensamento empresarial se tenham verificado inúmeros avanços, o mesmo não se passa na questões práticas.
Tenho de concordar que as empresas se modernizaram, especialmente a nível tecnológico. Mas as inovações na sua administração foram muito poucas ou, pelo menos, o seu impacto não é tão profundo como seria desejável. A sociedade evoluiu da Industrial para a da Informação e desta para a do Conhecimento. Mas será que internamente se sentiram essas mudanças, por exemplo na condução e no enriquecimento do capital humano (agora já adequadamente chamado de "capital intelectual")?
Do muito que conheço, estou crente que as empresas continuam muito prisioneiras do pensamento e da prática de gestão que marcaram as organizações da sociedade fabril. E esse tem sido um dos mais perigosos pontos fracos de muitas empresas pois não perceberam que o mundo se transformou bastante. Aliás, depois da Educação, a Administração Empresarial é o setor que mais tempo leva a renovar-se. Isso explica também porque muitas empresas declinam e morrem, ou sofrem grandes sustos, ao longo da sua vida.
Em poucos anos passámos de um mundo baseado na indústria e transporte para outro com base no conhecimento, na informação e na inteligência.
Como alertou o professor Keith Devlin, autor de Goodbye Descartes, "essa pesada dependência do conhecimento e da informação aumentará nos próximos anos". E chama a atenção para o fato de, na nossa Era, nenhum cidadão conseguir funcionar devidamente sem uma compreensão básica da informação e avaliação do que é necessário para tornar esta última em conhecimento. Como veremos, isto exigirá uma nova política económica e novos modelos de gestão e de empresas.
Thomas Stewart acentua a importância das novas ferramentas da sociedade. "O conhecimento - diz - tem muito mais valor e é mais poderoso do que os recursos naturais, as grandes fábricas ou as chorudas contas bancárias".
Nasceu, por conseguinte, um novo "capital": o capital intelectual. Este é constituído por material intelectual: conhecimento, informação, ideias, propriedade intelectual, processos, especialização, tecnologia e experiência. Na nova sociedade, estes materiais geram riqueza. São uma espécie de matéria-prima da economia.
Qual o impacto que isto tem, por exemplo, nas empresas (a mais representativa e mais comum das organizações humanas)? Enorme, por vezes trágico.
Peguemos num exemplo: a Nike, um dos maiores e mais famosos fabricantes de calçado desportivo. Na realidade, a Nike não fabrica nada. Se você é um operário da indústria de calçado escusa de escrever-lhe a candidatar-se para um lugar na linha de fabrico. A Nike não precisa de operários para nada. O trabalho central da empresa é investigação e desenvolvimento de novos modelos de calçado desportivo, design, marketing e distribuição. Quem então fabrica os produtos da marca Nike? Outras empresas com quem a Nike estabelece contratos de produção.
Como a Nike muitas outras empresas seguem este estilo de gestão. Um outro caso exemplar é a dos modernos aviões comerciais. São totalmente projetados em computador sem desenhos nem maquetes feitas manualmente e são pilotados por computadores a maior parte do tempo de cada viagem. O combustível é gasolina mas o avião voa e depende de informação.
Finalmente, vejamos o caso dos automóveis atuais. Eles têm mais microchips do que quaisquer outras peças e a sua eletrónica custa mais do que o aço que os compõem. Os microchips, que hoje estão em todos os aparelhos eletrónicos, não mais são do que armazéns de informação útil.
Como refere o professor T. Stewart, "a força muscular, o trabalho das máquinas, o próprio trabalho produzido pela energia eléctrica estão a ser contínua e progressivamente substituídos pela inteligência".
Podemos dizer que vivemos uma revolução à escala planetária só que muito mais rápida, mais ampla e mais demolidora do que a Revolução Industrial do século XIX. As novas "ferramentas" estão a crescer exponencialmente mais depressa e a tornar-se mais baratas e mais poderosas do que alguma vez aconteceu na história humana.
O investigador James Canton, presidente do Institute for Global Futures, diz que os novos "tijolos" da economia são quatro: bites, átomos, genes e neurónios! "Eles representam - escreve Canton - o afastamento do aço e do petróleo do passado e apontam-nos uma remodelação radical na economia e do poder das novas ideias".
Uma revolução inimaginável
Numerosos estudos sustentam que o futuro próximo e a médio prazo (10 a 15 anos) será moldado por 8 inovações determinantes: a biomimética (fabrico de produtos a partir da imitação dos mecanismos na Natureza), a fotónica (utilização da luz para criar produtos), a nanobiotecnologia (combinação de nanotecnologia com a biologia), a genómica orientada (utilização da informação genética para produzir fármacos e alimentos), a biodeteção (utilização da informação biológica para detetar riscos), os neurodispositivos (micromáquinas para reparar funções cerebrais), nanoenergia (para a criação de combustíveis renováveis) e encriptação quântica (para proteção de informação, produtos e pessoas).
Para quem não esteja a par desta terminologia técnica pode pensar que estamos a descrever um mundo de ficção. Olhando à nossa volta parece que vivemos ainda num mundo simples e acessível ao nosso entendimento. Mas a verdade é que há grandes vagas de mudança a ocorrerem longe dos nossos olhos.
De fato, como refere James Canton, muitas das inovações que vão mudar o nosso mundo ainda não foram captadas pelo "radar das empresas e dos países", e muito menos pelo cidadão comum.
Também aconteceu o mesmo nas primeiras décadas da Revolução Industrial. E depois, quase de um dia para o outro, a vida das pessoas mudou, os transportes sofreram um forte impulso, surgiram milhares de fábricas e novos produtos, criaram-se novos empregos e escolas para um mundo novo e quase desconhecido.
Nós estamos num estádio similar. Só que agora podemos ter a certeza de que as mudanças vão ser muito maiores. E isto faz-nos regressar ao tema inicial: a informação, o conhecimento e a inteligência, isto é, o capital intelectual; algo que cada um de nós possui e que pode (e deve), obviamente, aumentar.
A nova sociedade (da Informação, do Conhecimento, da Inteligência) exige capital humano talentoso e especializado, gente com "cabeça", inovadora e autónoma. É que no futuro próximo os empregos exigirão capacidades ainda mais avançadas, mais instrução e formação mais sofisticada.
Segundo o governo norte-americano mais de 75% dos atuais empregados dos Estados Unidos vão necessitar de receber nova formação para poderem manter os seus empregos. Estima-se que, dentro de 8 anos, cerca de 80% de todos os empregos exigirão algum tipo de formação superior. Problema grave (para os americanos e não só): as escolas não estão a preparar adequadamente a futura força laboral para competir na economia global.
Este é o maior desafio do ensino e da formação em gestão nos próximos tempos.
Nelson Lima
Investigador em Psicologia na Euradec (Alemanha)
nelsonlima@europe.com
uk@euradec.eu
Diretor Nacional da EURADEC Inglaterra (Reino Unido)
CEO do Instituto da Inteligência (Portugal)
Notícia:
O 2º Congresso Nacional do Instituto da Inteligência já foi anunciado. Terá lugar em Portugal e versará os temas deste artigo. Data: Março ou Abril de 2011 (faltando precisar os dias).
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- Diretor Nacional da EURADEC UK na Inglaterra (Associação Europeia para o Desenvolvimento da Educação e Cidadania).
- Diretor da Divisão de Investigação Psicológica da EURADEC na Alemanha.
- CEO do grupo Instituto da Inteligência (Portugal, África e América do Su).
- Consultor e membro da Universidade do Futuro, em construção, em Portugal.
- Palestrante Profissional.
Memórias autobiográficas:
- Momento profissional 1: iniciei a escrita do meu primeiro livro aos 12 anos mas apenas foi publicado em 1980 com o título "5 Mil Anos de Transportes" (498 pág., 17 capítulos) onde conto a aventura do invento humano desde antes da roda até às viagens espaciais. Tive a colaboração do Jornal de Notícias, NASA, Boeing, numerosos museus de transportes, etc. O livro está exposto no Museu de Transportes do Porto (Portugal;
- momento profissional 2: atravessia do Atlântico entre Lisboa e Nova Iorque em barco de transportes (10 dias, em Agosto de 1969); nos meses seguintes, nos Estados Unidos, trabalhei em marketing para uma empresa do grupo Nestlé;
- momento profissional 3: formador convidado do curso de "Liderança & Economia Capitalista" para professores universitários de vários países a Europa de Leste, em Bratislava, República Eslovaca, 1992;
- momento profissional 4: fundação do Instituto da Inteligência, em 1998;
- momento profissional 5: meu estudo do perfil psicológico de José Mourinho, ex-coaching do Inter de Milão e do Manchester; atualmente no Real Madrid. Esse estudo foi pedido pelo jornalista J.Marinho, do canal SPORT TV e saiu no livro "José Mourinho - vencedor nato";
- momento profissional 6: nomeação para Diretor Nacional da EURADEC na Inglaterra e Diretor de Investigação em Psicologia na sede da mesma instituição, em Berlim (Alemanha), 2010.
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