A Psicologia Experimental e a Administração
Como a Psicologia pode ajudar a Administração? Nesta série de textos nosso colunista Rodolfo Araújo revisita os mais famosos Experimentos em Psicologia e mostra como eles podem nos ajudar a entender o comportamento humano - dentro e fora das empresas.
Em 2009 escrevi no meu blog pessoal (www.naopossoevitar.com.br) uma coletânea de textos sobre os mais importantes Experimentos em Psicologia do século passado.
Sou um apaixonado pelo tema desde que li, em 2003, Influence: The Psychology of Persuasion*, de Robert Cialdini. Ph.D em psicologia pela Universidade do Arizona, o autor sempre recorria a algum estudo famoso para ilustrar e embasar suas teorias sobre os motivos pelos quais exercemos e sofremos influências em nossas interações junto à sociedade.
Desde então, adquiri o hábito de frequentemente citar em meus textos alguma fonte acadêmica ou algum experimento relacionado, que não me deixe mentir sozinho...
A pesquisa feita para cada texto abriu caminho para muitas outras idéias e conceitos que, quase um ano depois, trago para o Administradores. Além de esta ser a primeira revisão desta série acrescentarei também, ao final de cada texto, uma análise dos conceitos envolvidos à luz da moderna Administração. Isto é: como as idéias apresentadas no texto podem ajudar o dia-a-dia das pessoas, seja no trabalho, em casa ou em suas relações pessoais?
O ponto de partida foi a obra Em Opening Skinner's Box: Great Psychological Experiments of the Twentieth Century (W. W. Norton & Co., 2004), onde a premiada psicóloga americana Lauren Slater seleciona os dez estudos mais importantes nessa área e elabora uma instigante narrativa a respeito de cada um deles.
Partindo de sua seleção particular de temas, Slater extrapola as bases puramente acadêmicas dos experimentos e oferece, numa narrativa bem acessível ao público leigo (como eu), detalhes sobre a vida pessoal dos pesquisadores, os contextos dentro dos quais os estudos foram realizados e até mesmo depoimentos de quem participou deles.
Ainda que a autora não revele seus critérios de seleção para escolher os Experimentos em Psicologia relatados, senti falta de alguns célebres casos com os quais já tive a felicidade de me deparar e a oportunidade de citar. Ficaram de fora, por exemplo, os estudos de Phil Zimbardo sobre a origem da maldade humana, os voluntários conformistas de Solomon Asch e os famosos cãezinhos condicionados de Ivan Pavlov.
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Tais experimentos tentam reproduzir em laboratório - ou noutro ambiente igualmente limitado - as mesmas condições sociais com as quais convivemos em nosso dia-a-dia, de forma a observar nossas reações e decisões de acordo com a situação apresentada. Como há inúmeros fatores que podem alterar nosso comportamento, os estudiosos procuram isolá-los ao máximo, para que somente o objeto da pesquisa exerça algum tipo de influência no contexto.
Boa parte da minha admiração por esse tipo de estudo vem, exatamente, da forma engenhosa como são idealizados de modo a permitir, assim, esta redução de variáveis e focar a observação num único ponto.
São soluções originais e enredos extremamente criativos que proporcionaram avanços incríveis na forma como hoje interpretamos o comportamento humano.
Espero conseguir transmitir todo o meu entusiasmo e admiração por essas pequenas revoluções da ciência, nessa ainda breve viagem pelos misteriosos caminhos da mente humana. Veremos de que forma conseguimos avançar em passos tímidos e, muitas vezes, vacilantes.
Abaixo você vê uma lista dos próximos textos, onde vou acrescentar os links na medida em que for publicando-os:
TEXTOS DESTA SÉRIE:
.: Pavlov e a empresa condicionada :.
"(...) comumente chamamos de Reflexo Condicionado: a história do cão que, acostumado a ouvir uma sineta tocar antes das suas refeições, passou a salivar toda vez que ouvia o tal som, independente de sua ração ser servida ou não. Mas poucos conhecíamos a história (...)."
.: Treinamento corporativo: você se comporta como um macaquinho? :.
"Com a ajuda dos ratinhos Skinner explicou porque perdemos fortunas em máquinas caça-níqueis e porque a leitora se apaixona pelo namorado que liga de vez em quando. Ou, usando o jargão habitual, como os reforços/recompensas intermitentes transformam-se em compulsão."
.: Você é um maria-vai-com-as-outras? :.
"O estudo de conformidade de Solomon Asch dá indícios sobre o poder de influência que os grupos exercem sobre os indivíduos. Mostra que o simples desejo de pertencer a um ambiente homogêneo faz com que as pessoas abram mão de suas opiniões, convicções e individualidades."
.: Como você lida com a autoridade? Obedece ou desafia? :.
"(...) Stanley Milgram estarreceu o mundo com um experimento que revelava o assustador comportamento que transforma pessoas comuns em malvados algozes, capazes de atrocidades inimagináveis. Demonstrou que cidadãos comuns, como eu e você, podiam cruzar os tênues limites da maldade."
.: Deixa que eu deixo: terceirizando a responsabilidade :.
"A presença de várias pessoas parece diluir nosso sentimento de obrigação para com o próximo (...) no que eles batizaram de Difusão de Responsabilidade. Latané e Darley perceberam, nesse momento, que Kitty Genovese não morreu apesar de haver muitas testemunhas, mas exatamente porque havia muitas testemunhas. Fosse apenas uma, provavelmente ela teria lhe ajudado."
.: Alguém errei, não sei quem fui - justificando os próprios erros :.
"Basicamente, a Dissonância Cognitiva é um estado de tensão que ocorre quando uma pessoa tem duas cognições (idéias, atitudes, crenças, opiniões) que são psicologicamente inconsistentes. É a velha moral dupla que nos permite tomar uma atitude enquanto pregamos outra."
.: Elizabeth Loftus e o homem que não estava lá :.
"Ela buscava desesperadamente de uma prova definitiva e irrefutável da tese que defendia, sobre a fraca natureza da memória enquanto evidência ou até mesmo prova de um crime. E se essas memórias não eram reais, de onde viriam?"
Este texto não foi adaptado para esta série, por guardar pouca relação com a Administração. Veja o texto original clicando aqui.
.: Como o ambiente influencia nos julgamentos das pessoas? :.
"Nos cinco dias anteriores ao início do experimento, nenhum deles deveria tomar banho, fazer a barba ou escovar os dentes. (...) no dia combinado, todos se apresentaram ao setor de emergência de um determinado hospital com exatamente a mesma queixa: Estou ouvindo vozes há três semanas. Elas dizem "tum!"."
.: Por que pessoas boas fazem coisas ruins? :.
"Para Zimbardo, a linha que todos nós gostamos de traçar entre nós, pessoas boas, e eles, pessoas más, não era assim tão rígida e impermeável como gostamos de pensar. À estranha e onipresente força que eventualmente nos faz cruzar essa tênue fronteira, ele chamou de Efeito Lúcifer."
.: Conheça o efeito Lúcifer - e resista às suas diabólicas tentações :.
"Quando essa cadeia de eventos ocorre numa situação que não lhe é familiar, ou seja, onde seus habituais padrões de resposta não funcionam, você está pronto para perpetrar o mal - e nem se dará conta disso. Sua personalidade e princípios morais já estarão desligados."
.: Você não precisa de superpoderes para ser um herói :.
"(...) algumas situações têm o poder de fazer três coisas: inspirar a maldade em uns; atos heróicos em outros; ou ainda, a indiferença. Para Zimbardo nós precisamos instilar na população o sentimento de que podemos fazer a diferença em ocasiões especiais. Ele acredita que o heroísmo é o melhor antídoto para a maldade"
.: O vício existe mesmo ou é apenas um mito? :.
"(...) talvez mais do que desequilíbrios químicos, a necessidade incontrolável por determinadas substâncias poderia estar relacionada, por exemplo, ao trabalho, a um lar opressor, a uma infância sem afeto, à sorte ou até mesmo ao mau tempo - ou seja, fatores situacionais em vez de biológicos."
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* Disponível no Brasil pela Editora Campus com o título "O poder da persuasão"
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