13 de junho de 2005, às 16h25min
Altruísmo Recíproco
Robert Trivers, um biólogo de Harvard, foi quem primeiro falou sobre esse conceito. Veja de que forma ele se aplica ao seu dia-a-dia
Se cada indivíduo maximiza seus benefícios através do comportamento egoísta, por que algumas espécies (inclusive, mas não só, o Homo sapiens) evoluíram através de um mecanismo de trocas altruístas? Para responder a esta pergunta, Robert Trivers, um biólogo de Harvard, produziu um estudo em 1971 chamado "A Evolução do Altruísmo Recíproco", um paper acadêmico que procura responder à questão inicial deste parágrafo através de conceitos da Biologia Evolucionista e da Teoria dos Jogos.
Apesar de ser um texto da Biologia, o trabalho de Trivers contém inúmeros insights para a formulação de estratégias profissionais e de negociação. Por trás de muitos comportamentos que adotamos na nossa vida profissional - principalmente aqueles que estejam associados à formação de coalizões, como contratar, ser contratado, formar uma sociedade, estabelecer uma parceria etc. -, pode-se enxergar o altruísmo recíproco operando. Este artigo e os próximos irão explorar algumas aplicações práticas da teoria de Trivers.
SOMA ZERO
O altruísmo recíproco está relacionado ao conceito de soma diferente de zero que, por sua vez, é proveniente da Teoria dos Jogos. Um jogo de soma zero é aquele em que o ganho de um implica na perda do outro. Já nos jogos de soma diferente de zero - como os que ocorrem nas relações altruisticamente recíprocas -, os jogadores podem sair, ambos, vitoriosos (ou perdedores). Vamos considerar o modelo básico de Trivers, um jogo que poderemos chamar de "O Dilema do Afogamento". Suponha a seguinte situação: Em um determinado local, existe uma pessoa se afogando em um rio. Se ninguém tentar salvá-la, esta pessoa teria 50% de chances de morrer, mas quem tenta salvar pode também morrer em 5% das vezes. Admita também que sempre que o salva-vidas morrer, a pessoa que está se afogando também morre; e que sempre que o salva-vidas sobreviver, a pessoa que está se afogando se salva.
Se o afogamento for um evento único, não faria sentido racional alguém tentar salvar alguém que estiver se afogando: o salva-vidas só teria a perder neste caso. Mas, admitindo que todo mundo pode estar, cedo ou tarde, em uma situação análoga, salvar uma pessoa de um afogamento faz sentido econômico (racional) devido à soma diferente de zero. Se A não salva B e, posteriormente, B não retribui salvando A, A e B terão 50% de chances de morrer em seus respectivos afogamentos. Mas se A tenta salvar B e, quando ocorrer situação inversa, B também tenta salvar A, os dois terão 5% de chances de morrerem juntos em cada evento. Ou seja: eles estarão trocando uma chance global de morte de 50% por somente 10%. Esta é a lógica da soma diferente de zero do altruísmo recíproco.
A partir deste modelo, nós analisaremos nos próximos artigos algumas conclusões que podem ser obtidas pelo conceito de altruísmo recíproco, como:
* Que condições favorecem a ocorrência do altruísmo recíproco?
* Como ocorrem os processos de sinalização nas trocas altruístas
* Por que não agir como um aproveitador, obtendo os benefícios e deixando de pagar os custos das relações recíprocas?
* Onde entram as emoções no processo de altruísmo recíproco?
* O ostracismo como principal forma de punição aos infratores das relações altruisticamente recíprocas.
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Autor
Raul Marinho é administrador de empresas, ex-executivo e ex-empresário do mercado financeiro, consultor de corporate finance e estratégia, colunista da revista Você S/A, escritor e palestrante. Sua área de interesse são as aplicações da teoria dos jogos e da evolução aos negócios.
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