02 de novembro de 2007, às 18h40min
Copa de 2014: o atestado definitivo de um país incapaz de se levar a sério
O orçamento para a Copa de 2014 ainda não é conhecido, mas, de acordo com Joelmir Betting [1], que cita pesquisa da Revista Máquina do Esporte, o custo total poderá chegar a R$ 18 bilhões, a maior parte advinda do setor público. Valerá a pena? Talvez sim, mas o risco é enorme.
De acordo com o banco holandês ABN AMRO [2], os dados históricos indicam que o vencedor de uma Copa do Mundo experimenta um ganho médio adicional de 0,7% do PIB em relação ao ano anterior. Por outro lado, o segundo colocado experimenta uma perda média de 0,3% do PIB em relação ao ano anterior.
Supondo um crescimento médio de 5% durante os próximos sete anos (estimativa otimista), chegaremos em 2014 com um PIB de R$ 2,974 bilhões. Logo, se ganharmos o campeonato, o crescimento adicional de 0,7% corresponderá a R$ 20,8 bilhões, o que dará para pagar as contas, com alguma sobra.
O problema é se perdermos! Em outras palavras, estamos colocando um investimento bilionário nas mãos (ou nos pés!) de um reduzido número de jogadores, os quais são historicamente incapazes de suportar a pressão psicológica e nem mesmo moram no Brasil. E, no caso de mais uma final decidida por pênaltis, que tenha o Brasil como finalista, o destino do investimento será decidido por uma mera loteria.
Apesar de tudo, cabe lembrar que o crescimento adicional de 0,7% apontado pelo ABN AMRO indepente do país sediar a copa. Assim, não seria melhor, embora um pouco oportunista, deixarmos que outro país pagasse as contas, tentarmos ganhar a copa assim mesmo e investirmos o dinheiro em outras áreas? Vale a pena arriscarmos tanto dinheiro somente para nos desforrarmos da humilhação de 1950?
É claro que, mesmo que não se vença o campeonato, há alguns benefícios em um país sediar uma Copa do Mundo, tais como melhorias nos sistemas de transporte e de telecomunicações, reformas urbanas, melhorias no setor de hotelaria, etc. Todavia, tais melhorias e reformas poderiam, e deveriam, ser feitas a despeito da Copa do Mundo, não por causa dela. Ou será que, depois de 2014, teremos que esperar outros 64 anos para que alguém perceba que investimentos em infra-estrutura são importantes?
Se o Brasil fosse um país capaz de estabelecer suas prioridades de maneira racional, deveríamos investir todos esses bilhões de reais nos verdadeiros fatores de crescimento econômico, como saúde, educação, ciência e tecnologia. Para crescer, precisamos de inovação, não de pão, circo e futebol.
[1] BETTING, Joelmir. Secos & Molhados, 23 out. 2007. Disponível em: . Acesso em: 02 nov. 2007.
[2] ABN AMRO. Soccereconomics 2006, mar. 2006. Disponível em: . Acesso em: 02 nov. 2007.
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Professor do curso de Engenharia Industrial Elétrica da UTFPR, consultor da Electra Power Geração de Energia, formado em Engenharia Elétrica pelo CEFET-PR, pós-graduado em Finanças Empresariais pela FGV e em Desenvolvimento Web pela PUC-PR.
Visite meu blog: http://alvaroaugusto.blogspot.com
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