DOENÇAS OCUPACIONAIS DORT NAS INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS: um problema de gestão MARCELA GAMA BARBOSA[1] RESUMO: O presente artigo trata sobre as doenças ocupacionais nas instituições financeiras. Entende-se que essa problemática é de competência do gestor. Como metodologia, a pesquisa tem como objetivo ser exploratória, com uma abordagem qualitativa e como procedimento, bibliográfica. Para a realização da pesquisa, fez-se um levantamento dos dados de afastamento por acidente do trabalho e aposentadoria por invalidez entre os anos de 2000 e 2005, utilizando o Anuário Estatístico da Previdência Social, relacionando as licenças segundo a Lei nº 8.213, de 24 de julho de 1991, e a gestão adotada pelos bancos. Concluiu-se que o estilo de liderança autocrático exerce um papel significativo no surgimento de doenças ocupacionais DORT nas instituições financeiras. Palavras-chave: doenças ocupacionais, DORT, instituições financeiras, estilo de liderança. 1. INTRODUÇÃO Atualmente, as doenças ocupacionais DORT são as responsáveis pela maioria dos afastamentos e aposentadorias por invalidez dos funcionários de instituições financeiras. Segundo o Ministério da Previdência e Assistência Social, citado por Sindicato dos Bancários de Brasília (www.bancariosdf.com.br), “entre 2000 e 2005, 25 mil bancários receberam auxílio-doença devido a moléstias causadas por esforço repetitivo”. Entretanto, a gestão nos bancos continua sendo voltada para resultados com a imposição de metas muitas vezes inalcançáveis, ritmo excessivo de trabalho, hora-extra e ambiente competitivo, não havendo uma preocupação em tornar o ambiente saudável. A questão proposta é: Qual a responsabilidade do gestor em relação às doenças do trabalho nos bancos? A responsabilidade do gestor deve ser tornar os bancos um ambiente saudável para seus funcionários, mudando a forma de atuação, além de atender aos interesses da organização para a qual trabalha. A mudança deve ser feita no estilo de liderança adotada pela instituição. A liderança autocrática é voltada para resultados e metas, em que o autoritarismo é manifestado pelas relações de poder, exploração do trabalho e repressão psicológica. As doenças ocupacionais estão obrigando jovens bancários a se afastar do emprego em plena fase produtiva. Muitas desses trabalhadores ficam anos afastados, e quando voltam a trabalhar, voltam com limitações ou acabam sendo aposentados por invalidez parcial ou total. Este artigo conceitua e discute os riscos de uma gestão focada apenas em resultados. Com isso, torna-se importante tanto para estudantes e gestores da área pública, quanto para os cidadãos. A ausência dessa mão-de-obra afeta o crescimento e desenvolvimento econômico da sociedade, que tem sua base econômica e material sustentada pela capacidade de trabalho da população economicamente ativa. Com isso, questiona-se uma possível mudança no estilo de liderança e se essa mudança traria uma diminuição no número de bancários afetados por distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho. 2. DOENÇAS OCUPACIONAIS De acordo com a Lei nº 8.213, o conceito de acidente de trabalho é: (…) É o que ocorre pelo exercício do trabalho a serviço da empresa (…), provocando lesão corporal ou perturbação funcional que cause a morte ou a perda ou a redução, permanente ou temporária, da capacidade para o trabalho. (portal.dataprev.gov.br.) O acidente de trabalho é classificado em três tipos: 1) Acidente típico: ocorre na execução do trabalho; 2) Acidente de trajeto: acontece no percurso da residência para o trabalho ou do trabalho para a residência; 3) Doença ocupacional: são denominados por várias doenças que estão diretamente relacionadas às atividades laborais e às condições de trabalho às quais ele está sujeito. As mais comuns são as Lesões por Esforço Repetitivo (LER) e Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho (DORT). Segundo Instrução Normativa INSS/DC nº 98, entende-se LER/DORT como (…) uma síndrome relacionada ao trabalho, caracterizada pela ocorrência de vários sintomas concomitantes ou não, tais como: dor, parestesia, sensação de peso, fadiga, de aparecimento insidioso, geralmente nos membros superiores, mas podem ocorrer em membros inferiores. (…) Frequentemente são causa da incapacidade laboral temporária ou permanente. (portal.dataprev.gov.br.) 2.1. DORT Os Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho se referem a um conjunto de doenças como a tenossinovite, tendinite, bursite, dedo em gatilho, entre outros que decorrem da sobrecarga imposta ao sistema músculo-esquelético sem um tempo adequado para sua recuperação (Instrução normativa INSS/DC nº 98). Algumas situações podem favorecer o surgimento das patologias, entre elas: Ritmo intenso de trabalho;Pressão explícita;Metas estabelecidas sem a participação dos empregados colaboradores;Patamares de metas de produção crescente sem adequação das condições para atingi-las;Incentivo por maior produtividade por meio de diferenciação salarial e prêmio, induzindo as pessoas a passarem dos seus limites;Jornada de trabalho prolongada;Não realização de pequenas pausas espontâneas quando necessário;Manutenção de postura fixa por tempo prolongado;Execução de elevado número de movimentos repetitivos por um longo tempo;Monotonia e fragmentação de tarefas;Mobiliário ergonomicamente mal projetado;Ambiente de trabalho desconfortável. (www.mp.to.gov.br) O DORT é relatado desde 1700, quando foi descrito como “doença dos escribas e notórios”. Em 1920 apareceu como “doenças das tecelãs”; e em 1965, como “doenças das lavadeiras”. O problema cresceu a partir de 1980, quando atingiu várias profissões em vários lugares do mundo, devido às grandes mudanças ocorridas no mundo do trabalho (www.ergonomia.com.br). Para que se consiga diminuir a quantidade de funcionários afastada por doenças ocupacionais, é importante que as organizações adotem uma campanha de prevenção, que continua sendo o meio mais eficaz para o combate a essas patologias. 2.2. Prevenção Sabendo que o aparecimento das doenças ocupacionais DORT se dá por fatores de risco multicausal, como postura inadequada, força, stress físico, emocional e psíquico, entre outros, um programa de prevenção não se dá por medidas isoladas, como a postura adequada na frente do computador ou a troca de mobília. Um programa de prevenção acontece com um conjunto de ações, tais como “melhoria no local do trabalho, conscientização dos trabalhadores, mudança da organização do trabalho, pausas e micropausas, revezamento e ginástica laboral” (www.nneventos.com.br). Esse conjunto de ações é denominado ergonomia. A ergonomia, também chamada de Engenharia dos Fatores Humanos, é uma ciência interdisciplinar que usa conhecimento de várias outras áreas com o objetivo da “adaptação das condições de trabalho às características psicofisiológicas dos trabalhadores”. (http://www.guiatrabalhistas.com.br) 2.3. Epidemiologia Os casos de distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho (DORT) aumenatm a cada ano, colocando os profissionais da área de saúde e organizações ligadas aos trabalhadores em alerta. Como exemplo dessa preocupação citamos a Norma Regularizadora 17, que “visa a estabelecer parâmetros que permitam a adaptação das condições de trabalho às características psicofisiológicas dos trabalhadores, de modo a proporcionar um máximo de conforto, segurança e desempenho eficiente” (www.guiatrabalhistas.com.br). Conforme Anuário Estatístico da Previdência Social (www.previdencia.gov.br) , em 2005 aproximadamente 492 mil trabalhadores foram registrados no INSS por acidente de trabalho. Nas doenças de trabalho, um dos setores mais representativos foi o dos intermediários financeiros, com 10,8%. Em 2008, foram registrados cerca de 747,7 mil acidentes de trabalho, dentre os quais as atividades financeiras tiveram uma participação de quase 13%. Isso significa um aumento de mais de 200 mil nos registros no INSS por acidente de trabalho. 2.4. Liderança Liderança consiste em saber lidar com pessoas, tratando cada funcionário como um indivíduo, respeitando suas limitações e características. Segundo Fredman e Rosenman (http://www.pessoasdagestao.blogspot.com), “liderança é o processo de dirigir o comportamento das pessoas rumo ao alcance de alguns objetivos. Dirigir, nesse caso, significa levar as pessoas a agir de certa maneira ou seguir um curso particular.” O gestor que possui essas habilidades consegue em troca desempenho e resultados, sua equipe tem satisfação em auxiliá-lo e lhe presta favores; caso contrário, há resultado de insubordinação e desordem, o caos (CARVALHO, 2002). O estilo de liderança é a relação entre o comportamento do líder e seus subordinados. No estilo de liderança autocrática, o gestor centraliza as decisões e fixa diretrizes sem qualquer participação do grupo. A liderança é totalmente focada nas tarefas e resultados, além de ser rígida (CHIAVENATO, 1995). Esse estilo de liderança pode representar um risco para as instituições, uma vez que o líder autocrático trabalha impondo suas ordens ao grupo que tende a ficar frustrado e agressivo. Essa frustração pode se manifestar de várias maneiras, como baixo grau de qualidade no desempenho de suas tarefas, desmotivação, ou até mesmo em doenças ocupacionais como a depressão e a LER/DORT. 3. METODOLOGIA O presente trabalho realizou uma pesquisa básica sobre doenças ocupacionais dos bancários, com a finalidade de propiciar ao leitor informações sobre as posições doutrinárias sobre o tema. A pesquisa básica, segundo Gil (1991, p. 2), “objetiva gerar conhecimentos novos, úteis para o avanço da ciência sem aplicação prática prevista. Envolve verdades e interesses universais” (www.fag.edu.br). Utilizou a pesquisa exploratória para alcançar os objetivos específicos propostos no item quatro. A pesquisa exploratória, segundo Gil (1991, p. 21), “visa a proporcionar maior familiaridade com o problema, com vistas a torná-lo explícito ou a construir hipóteses” (projetos.inf.ufsc.br). A abordagem utilizada neste trabalho é qualitativa. Gil (1991, p. 20) “considera que há uma relação dinâmica entre o mundo real e o subjetivo, isto é, um vínculo indissociável entre o mundo objetivo e a subjetividade do sujeito que não pode ser traduzido em números” (projetos.inf.ufsc.br). 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS Considerando o tema abordado, o problema estudado, os objetivos propostos, a metodologia utilizada e a fundamentação teórica, pode-se concluir que o estilo adotado pelo gestor contribui para o desenvolvimento das doenças do trabalho nas instituições financeiras. Podemos inferir que muitos gestores ainda não tiveram a percepção da epidemiologia em que se tornaram as doenças ocupacionais DORT nos bancos. Por esse motivo, cada vez mais as instituições financeiras estão enxugando os seus quadros de pessoal, e em contrapartida estão aumentando as metas, a carga horária e o foco na produtividade. Isso ocorre graças ao estilo de liderança autocrático adotado pelos bancos. O líder autocrático pressupõe que os liderados só farão as suas tarefas se ordenados. Isso impõe certo medo ao funcionário e, consequentemente, causa desmotivação, insatisfação com o trabalho, agressividade e indisciplina. No atual momento de automatização, terceirização e exploração nas organizações, é inevitável que a gestão praticada seja revista e atualizada. O gestor precisa criar um equilíbrio entre as metas desejadas pelas instituições financeiras e as metas realmente possíveis de ser realizadas pelos funcionários, para que possa haver uma melhoria no ambiente de trabalho, diminuindo assim a quantidade de funcionários afetados por doenças ocupacionais DORT. Os reflexos da gestão na saúde dos funcionários é um fato. Pode- se observar que uma má gestão pode causar danos irreversíveis na saúde do bancário. Esses danos não afetam apenas o funcionário e a empresa, mas a sociedade como um todo, que deixará de ter mão-de-obra qualificada e produtiva e terá gastos para manter esses bancários afastados pelo INSS. 5. REFERÊNCIAS Leis, Decretos e Doutrinas: BRASIL. Ministério Público do Estado de Tocantins. Ações Preventivas Para Prevenção de LER/ DORT. 2005, p 40. Disponível em: <http://www.mp.to.gov.br/portal/sites/default/files/Ações%20Coletivas%20para%20Prevenção%20de%20LER-DORT.pdf>. Último acesso 05/05/2010 às 21h30min BRASIL. Norma regulamentadora 17. Ergonomia. Disponível em: http://www.guiatrabalhista.com.br/legislação/nr/nr17.htm. Último acesso 27/04/2010 às 15h17min. BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Memorando Circular n° 45 Brasília. 2001 que formaliza a Comissão Nacional de Ergonomia – CNE. Bibliografia: CHIAVENATO, Idalberto. Administração de Empresa Comportamento- Uma abordagem Contingencial. 3 ed. São Paulo: Makron Books do Brasil Editora LTDA, 1995, p.531-534. CHIAVENATO, Idalberto. Administração Geral e Pública. 2. Ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2008. 514p. CHIAVENATO, Idalberto. Introdução à Teoria Geral da Administração. 4°ed. Rio de Janeiro: Campus, 1999.494 p Sites Consultados: ANVISA. Disponível em <http://www.anvisa.gov.br/institucional/anvisa/rh/qv/ler_dort.pdf> . Último acesso 05/05/2010 às 21h52min CHIAVENATO, Idalberto. Comportamento organizacional: A dinâmica do sucesso das organizações. São Paulo: Pioneira Thomson, 2004. Disponível em <http://www.pessoasdagestao.blogspot.com./2009/08/conceitos-de-liderança-chiavenato.htm>. Último acesso 27/04/2010 às 14h05min. GIL, Antônio Carlos, 1991, citado por Classificação de Pesquisa: treinamento desportivo e personalizado, Faculdade de Assis Gurgacz. Disponível em: < www.fag.edu.br/professores/anderson/Treinamento%20Desportivo/Classifica%E7%E3o%20de%20Pesquisas.ppt pesquisa básica antonio Gil>. Último acesso 11/05/2010 às 16h16min. GIL, Antônio Carlos, 1991, citado por Metodologia de pesquisa e elaboração de dissertação, Universidade Federal de Santa Catarina. Disponível em: < http://projetos.inf.ufsc.br/arquivos/Metodologia%20da%20Pesquisa%203a%20edicao.pdf>. Último acesso 11/05/2010 às 16h25min. DATAPREV. Disponível em <http://www.010.dataprev.gov.br/sislex/paginas/42/1991/8213.htm#T3_CP2_S1_ART20_I>. Último acesso 26/04/2010 às 22h52min. DATAPREV. Disponível em <http://www.81.dataprev.gov.br/sislex/imagens/paginas/38/inss-dc/2003/ anexos/IN-DC-98-ANEXO.htm>. Último acesso 27/04/2010 às 11h21min. ERGONOMIA.COM.BR. Disponível em <http://ergonomia.com.br/htm/ler.htm>. Último acesso 05/05/2010 MINISTÉRIO DA PRIVIDÊNCIA SOCIAL, AEPS . Disponível em < http://www.previdencia.gov.br/conteudoDinamico.php?id=423 >. Último acesso 11/05/2010 às 19:00h. PRETTO, Cézar Maurício. LERT/DOR- Como prevenir. Disponível em <http://www.nneventos.com.br/downloud/pdf/Curso_22_.pdf>. Último acesso 27/04/2010 às 14h74min. CARVALHO, Luís Carlos Rogério Freire de. A Influência do estilo de liderança na gênese dos DORT em uma fábrica de calçados, 2002, p. 21-30. Disponível em <http://www.saudeetrabalho.com.br/download_2/estilo-lideranca.pdf>. Último acesso 6/05/2010 às 08h13min. SINDICATO DOS BANCÁRIOS DE BRASÍLIA. Disponível em <http://www.bancariosdf.com.br/bancariosdf/index.php?option=com_content&task=view&id=1412&Itemid=81>. Último acesso 25/04/2010 às 23h09min. ERGONOMIA.COM.BR. Disponível em <http://ergonomia.com.br/htm/ler.htm>. Último acesso 05/05/2010 [1] Bacharel em Administração pela UPIS Professora Orientadora MSM Roberta Guedes