18 de maio de 2009, às 10h46min
O Apito do trem mudou duas vidas
Passaram-se muitos anos, mas uma das minhas preferidas ainda está viva em mim, tanto que quando penso no “causo” ainda sinto o aroma do café preto passado no coador de pano e do bolo quentinho de fubá.
Não era uma daquelas tantas historias de fantasmas. Esta em particular, tinha nome e sobrenome e alguns personagens moraram até há pouco nas proximidades.
A moça bonita, de casamento marcado com um ferroviário que morava em outra cidade resolveu terminar o relacionamento, afinal não tinha certeza se gostava o suficiente dele para uma vida a dois e talvez até pudesse encontrar um partido melhor, pois além de feio era pobre.
Após muito refletir, resolveu escrever uma carta terminando o noivado e para mostrar sinceridade contou com pormenores todos os seus sentimentos: que ele era feio e sem futuro e, ela bonita e que merecia alguém que lhe desse uma condição melhor de vida, que talvez até a levasse passear na Capital e não apenas entre duas estações e ainda de carona na locomotiva que era terrivelmente quente e cheirava a diesel; sem contar que da ultima vez que saíram a passeio voltara com graxa até na fita branca que usava nos cabelos negros.
Como a cerimônia do casamento seria somente no civil, não haveria muito alarde em terminar com tudo, apenas saberiam do ocorrido os poucos parentes próximos.
Colocou a carta no correio utilizando um envelope florido e perfumado de sua coleção e aguardou uma resposta que nunca chegou. Pensou até que seu ex-noivo ficara tão magoado que resolvera não responder, afinal havia escrito todos os motivos que a levaram a romper o noivado.
Certa tarde estava sentada na varanda de sua casa, pensando que se não houvesse enviado aquela carta estaria casada no próximo final de semana, quando ouviu o apito do trem. Um apito diferente do usual que só era ouvido quando seu ex-noivo era o maquinista, uma espécie de código entre eles. Ficou lívida. Estaria ele vindo pessoalmente para resolver a situação? Será que ele faria uma cena de ciúmes e atiraria nela com a velha garrucha que costumava usar sob o uniforme? Enquanto pensava em tudo isto viu o ex-noivo acompanhado de toda a família virar a esquina de sua casa. Pensou consigo: O tempo vai fechar....
O ex-noivo se aproximou, beijou-a no rosto como sempre fazia e perguntou sobre os preparativos do casamento.
A carta se extraviou, ela deduziu rapidamente.
A presença de todas aquelas pessoas intimidou-a e não teve coragem de levar seu plano adiante. Seus pais certamente achariam uma maneira de contornar a situação e explicar que o casamento fora marcado novamente na mesma data e horário, afinal o numero de parentes não chegava a uma dezena.
Casaram-se. Viajaram para a cidade do noivo e passaram a primeira noite no velho Hotel da Estação, “o maior, o mais confortável” e único da cidade.
O marido havia alugado uma pequena casa no fim da rua de cima, uma casinha branca com flores nas janelas de onde se avistava boa parte da região. Numa manha de sábado, haviam passado mais de 3 meses do casamento, o casal estava regando as flores na varanda quando ela viu um funcionário da estrada de ferro vir em direção a eles, trazendo na mão um envelope florido que ela tão bem conhecia. Sentiu seu sangue todo ir para a cabeça, a seguir uma forte tontura e o mundo girando, até que caiu desacordada.
A carta extraviada que punha fim ao noivado chegara as mãos de seu quase ex-noivo e agora talvez seu ex-marido. Aquela mesma onde ela escrevera que ele era feio e pobre e que nunca poderia ser feliz ao lado dele e que por ser jovem e bonita certamente haveria dezenas de melhores pretendentes na região. Tudo isto alguns meses após o casamento .
Foi uma situação constrangedora onde até o velho Monsenhor teve que intervir e que só se resolveu depois que a gravidez se manifestou, porém só voltaram a se falar a caminho da maternidade, mais de 8 meses depois do ocorrido.
A ultima noticia que tenho deles é que viveram juntos por décadas e tiveram muitos filhos.
Ontem contei este caso para meu neto que ouviu com muita atenção e após pensar um pouco perguntou: Vovô, não seria mais fácil ela ter enviado um e-mail? Um torpedo?
Será que membros de nossas equipes não tem o comportamento de meu neto e entendem o que pasamos segundo o seu conhecimento (e entendimento) e não o nosso?
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Autor
Cleyson Dellcorso tem formação em engenharia e filosofia e suas atividades estão relacionadas com gestão de pessoas, aprimoramento de comportamentos, palestras e treinamentos, além de atuar em Coaching. É especialista em liderança pelo Haggai Advanced Leadership Institute (Cingapura) e instrutor do mesmo Instituto. É professor de liderança e motivação no curso de pós-graduação em gestão de projetos (PMI) do Instituto Brasileiro de Tecnologia Avançada do grupo IBMEC
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