É impressionante como nos últimos anos cresceu o número de pessoas interessadas em trabalhar no serviço público. Quase sempre o fator impulsionador para dedicação nos estudos é a conquista de estabilidade e os altos salários. A quantidade de benefícios oferecidos também é estimulante para o aumento no número de candidatos. Mas que lição os gestores das organizações privadas podem tirar desse movimento migratório? Observem bem: todos os fatores relacionados acima atribuídos à atração para o setor público são gerenciados pela área de RH. Isso demonstra que os colaboradores acreditam que não estão sendo valorizados pelas organizações. Por exemplo, na maioria das vezes, os salários não estão compatíveis com a carga de trabalho das organizações privadas, assim como precisam contemplar as competências e a produção de cada um. E a questão dos benefícios expressa um descontentamento, em certo ponto, com a qualidade de vida, pois nas organizações privadas as condições de trabalho, como ergonomia e programas voltados para a saúde, nem sempre são bem executadas, e os funcionários, na maioria das vezes, não dispõem de benefícios suficientes para compensar tais falhas, ou que, pelo menos, os motivem. É certo que os fatores anteriores podem ser desencadeadores da mudança de trajetória profissional, mas sem dúvida, o fator crucial que está por trás desse mecanismo é o reconhecimento. Sim, mesmo vivendo em uma sociedade capitalista, os valores monetários dividem espaço com as necessidades de estima. Essa falta de interação causa medo sobre o futuro de um funcionário. No caso de uma reestruturação, por exemplo, o indivíduo fica sem saber se ele será aproveitado ou não, pois não tem ideia se a empresa reconhece sua contribuição. Falta de reconhecimento por falta de reconhecimento, é óbvio que a preferência será pelos salários exorbitantes do serviço público. Como Maslow propõe, em sua pirâmide que expressa as necessidades humanas, as necessidades de segurança se manifestam antes das necessidades de estima, se ambas não são saciadas, é claro que as pessoas irão buscar primeiro sua estabilidade; nesse caso, uma proteção contra a perda de emprego. Essa insegurança relativa à perda de emprego é decorrente da falta de feedback dos gestores e das organizações. A falta de práticas de valorização dificulta a visualização por parte das pessoas sobre o seu desempenho, e o consequente reconhecimento de seu trabalho. O processo seletivo também pode ser considerado um fator de dispersão de pessoas do segmento privado para o público. As provas e avaliações de títulos conferem maior igualdade na análise de competências dos candidatos. Hoje a seleção precisa contemplar as competências dos profissionais, olhar nas entrelinhas do currículo. Tanto que essa percepção faz sentido, que muitos jovens buscam os programas de trainees (que se assemelham bastante aos concursos) para ingressar nas grandes corporações, pois sabem que da maneira tradicional podem não ter suas competências reconhecidas devido a pouca experiência. Agora com essa redução no ritmo dos concursos, é o momento dos gestores revisarem suas práticas de remuneração, reconhecimento, condições de trabalho e seleção, para aumentar a retenção dos colaboradores. Em um mercado tão competitivo como o atual, é inaceitável perder profissionais capacitados.