25 de setembro de 2005, às 22h25min
Trator movido a nitroglicerina
Nos dois primeiros anos do Governo Lula, usava-se uma metáfora agro-mecânica para definir José Dirceu: ele seria o “trator” da Casa Civil.
Não é novidade em Brasília que Dirceu não é (nem nunca foi) uma pessoa amplamente querida, nem entre os aliados (grande parte do PT, inclusive), nem entre a oposição. Sejamos francos: à exceção do presidente Lula e mais uma meia-dúzia, ninguém gostava (ou gosta) de Dirceu, principalmente no Congresso. Esse não-gostar generalizado foi o que fez, a se confirmarem as denúncias, que o ex-Chefe da casa Civil exercesse seu poder pela força – no caso, econômica. Ninguém precisa colaborar com alguém que lhe paga diretamente: o jornaleiro não precisa gostar de você para lhe vender o jornal do dia, basta que você o pague. O problema é que, por mais corrupta e venal que seja grande parte da classe política no nosso país, as relações políticas são bem mais complexas que as puramente comerciais.
Segundo os teóricos da evolução do comportamento, o mecanismo que possibilitou a cooperação entre indivíduos não-aparentados é o altruísmo recíproco. De acordo com o biólogo de Harvard que concebeu essa teoria (Robert Trivers), se em uma determinada espécie, o indivíduo X coopera com o indivíduo Y hoje, e, amanhã, Y retribui a cooperação a X, então X e Y acabarão tendo maior sucesso evolutivo do que se eles agissem egoisticamente. Desta forma, sob determinadas condições (como, por exemplo, um longo ciclo de vida, que possibilite a retribuição de um ato altruísta), o comportamento mutuamente cooperativo acabou sendo selecionado em diversas espécies de animais sociais. Esse comportamento, o altruísmo recíproco, pode ser verificado, por exemplo, na simbiose de limpeza entre peixes, onde um peixe hospedeiro e um peixe limpador agem de forma mutuamente cooperativa. Da mesma forma que o peixe limpador não morde a carne do peixe hospedeiro, o peixe hospedeiro não come o peixe limpador mesmo que este passeie dentro da sua boca. Em espécies com cérebros mais desenvolvidos, como os primatas (onde o Homo sapiens se enquadra), a evolução acabou criando um complexo sistema de emoções para regular o altruísmo recíproco. Chimpanzés, gorilas e seres humanos agem de forma cooperativa (ou não) porque são movidos por sentimentos – ou seja: porque gostam ou desgostam de outros indivíduos –, não porque racionalizem que a cooperação mútua é mais ou menos eficiente. Ocorre que esses sentimentos surgem em decorrência de relações altruisticamente recíprocas: nós somos amigos de quem gostamos, e gostamos de quem não nos trai.
Mas além da cooperação movida por sentimentos, existe uma outra alternativa, que é a cooperação forçada. Um gorila silverback (o macho dominante de um bando de gorilas, que tem esse nome por ter as costas prateadas) sempre é o maior indivíduo do bando, e usa da força bruta para manter seu poder. O problema é que, quando o silverback envelhece e perde sua força, um membro mais forte toma o poder e expulsa o antigo líder do bando. Sozinho, o ex-chefe acaba perecendo. Entre humanos, além da força física, desenvolveu-se também a coerção moral e, muito mais recentemente (em termos evolutivos), a coerção econômica. Mas, de forma análoga à verificada entre os gorilas, esta forma de poder também é muito instável, se comparada à exercida por meio dos sentimentos provenientes do mecanismo do altruísmo recíproco. Laços de amizade baseados em sentimentos, forjados por anos de comportamento mutuamente cooperativo, são muito mais estáveis que a cooperação obtida pela força bruta, seja ela econômica ou física.
A atual crise decorre justamente da inabilidade do ex-Chefe da Casa Civil na gestão dos relacionamentos altruisticamente recíprocos. O “trator” José Dirceu conseguia a cooperação por meio da força bruta, não da amizade e dos sentimentos construídos pelo comportamento mutuamente cooperativo. Muito pelo contrário: os deputados beneficiados pelo “mensalão” podiam até votar com o Governo porque haviam sido pagos para isso, mas o dinheiro não os fazia gostar de quem os pagava (temo, inclusive, que tinha um efeito oposto nesse sentido). Deu no que deu.
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Autor
Raul Marinho é administrador de empresas, ex-executivo e ex-empresário do mercado financeiro, consultor de corporate finance e estratégia, colunista da revista Você S/A, escritor e palestrante. Sua área de interesse são as aplicações da teoria dos jogos e da evolução aos negócios.
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