Você tem sido mesmo você?

Às vezes optamos por não nos posicionarmos, não colocar limites, não dizer não e seguir o rebanho, apenas para agradar, não causar problemas ou para nos sentirmos aceitos e pertencendo a um grupo, por exemplo. Mas há um grande equívoco nesta estratégia, pois somente sendo autênticos seremos capazes de construir conexões e vínculos igualmente autênticos e plenificadores.

César Augusto Tulio Tucci
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Se você é daquelas pessoas que vive tentando ser tudo para todo mundo, saiba que faz parte de um grupo de risco: o dos frustrados crônicos. 

E com certeza, você não está só. 

Por um lado, vivemos numa sociedade em que os meios de produção, a mídia, a educação e as organizações em geral exigem padrões de comportamento e de consumo, valorizando os lugares comuns, lucrando com os modismos, definindo os atributos físicos considerados perfeitos, ditando os modelos de sucesso, estabelecendo níveis de performance ideal e beneficiando-se do “espírito de manada”, que favorece a febre consumista, zomba do que é diferente e desestimula os questionamentos. 

Por outro lado, como diria Erich Fromm, enquanto indivíduos, tentamos nos salvar da terrível experiência da solidão cultivando os mesmos pensamentos e sentimentos dos que nos rodeiam, assimilando-lhes as ideias, as vestes, os costumes, os gostos, as ideologias. 

Mas há um grande equívoco nesta estratégia, pois somente sendo autênticos seremos capazes de construir conexões e vínculos igualmente autênticos e plenificadores. 

Segundo a pesquisadora, escritora e professora americana Brené Brown, “autenticidade é a prática diária de abandonar quem nós pensamos que devemos ser e assumir quem somos”.

Ser autêntico implica em cultivar a coragem de ser imperfeito, a necessidade de estabelecer limites e a admissão da nossa própria vulnerabilidade, o que pode parecer assustador, uma vez que o que pensamos sobre nós é que devemos ser fortes, perfeitos e invulneráveis, ou nunca seremos bons o bastante - paradigma que costuma nos conduzir à sensação de inadequação. 

Mas, se existe um grande desafio em vencer a vergonha e o medo, e se amar, viver e relacionar-se autenticamente envolve riscos, existe um perigo ainda maior: o de não ser você mesmo, o de privar o mundo da sua contribuição, o de perder-se em meio aos personagens que você interpreta no cenário social para ser aceito. 

Como o protagonista do livro escrito por Robert Fisher, O Cavaleiro Preso na Armadura, que por tantos anos se escondeu dentro de sua vestimenta de metal, evitando mostrar-se como realmente era.  Um dia percebeu que ao não se permitir ser ele mesmo, acabou afastando-se das pessoas que mais amava e por isso, finalmente, desejou libertar-se da armadura. Mas descobriu que depois de tanto tempo ela havia grudado em seu corpo e, para libertar-se dela de fato, teria que realizar uma viagem interior em busca de si mesmo, de seus sentimentos e pensamentos mais originais e verdadeiros.

O exercício da autenticidade nos torna mais humanizados, pois amadurece em nós a compaixão, na medida em que tomamos consciência de que todos temos as nossas fraquezas. Desta forma, aprendemos a compreender, apreciar e valorizar a singularidade. 

E assim nos conectamos verdadeiramente aos outros, ampliando aquela sensação tão gostosa quanto necessária de pertencimento significativo, o que nos impulsiona a participar, contribuir, colaborar, somar e nos dedicarmos a algo maior do que nós mesmos. 

A autenticidade exige esforço diário, pois os condicionamentos e os modelos que nos empurram na direção contrária são muito fortes. 

Não se trata de ser o típico casca grossa ou o supersincero-sem-noção que não se importa de forma absoluta com o que os outros pensam. É sabido que quem despreza o que o outro pensa e sente também não consegue cultivar conexões. 

Trata-se de assumir a própria história, vencer a vergonha de ser você mesmo, correr o risco de sofrer as "dores de autenticidade" de que fala Brené Brown, mas, ao mesmo tempo, poder dar a si e ao mundo o maior dos presentes: a sua verdade. 

Se você tem muita dificuldade para ser autêntico, para estabelecer limites, para dizer não, para se posicionar quanto ao que realmente deseja, é importante se perguntar a quem almeja tanto agradar. Que julgamentos internos estão em curso? Que heranças ainda subsistem de um tempo em que alguém fez você acreditar que não era bom o suficiente? Que crenças alimentam esta necessidade de agradar sempre? 

Não há quem consiga viver a Vida Plena passando pela vida sem ser quem realmente é. 

E por fim, lembre-se: se você não for quem realmente é, não fará o que realmente tem de fazer e não conseguirá ter o que realmente deseja, precisa e merece ter.

(Publicado originalmente no blog de www.cesartucci.com.br)

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