Criação da graduação em Administração no Brasil foi um erro, afirma professor

Paulo Roberto Feldmann, da FEA/USP, acaba de lançar livro sobre o mercado latino-americano e conversou com o Administradores.com sobre diversos assuntos pertinentes ao universo empresarial brasileiro

Simão Mairins www.administradores.com,
Divulgação
Professor da FEA/USP, Paulo Feldmann, tem carreira de 35 anos como executivo de grandes empresas

Ao longo de 35 anos, o professor Paulo Roberto Feldmann, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/USP), foi executivo de grandes companhias transnacionais, como Microsoft, Citibank, Iron Mountain e Ernst & Young. Em 2011, ele resolveu escrever um livro chamado "Empresas Latino-Americanas", sobre suas percepções acerca de temas pertinentes à administração, com base em sua experiência nas empresas pelas quais passou. No ano seguinte, uma editora americana, a Springer, o procurou para fazer uma adaptação da obra para o mercado americano, focada nos executivos e empreendedores de lá que vem atuar no Brasil e seus vizinhos.

O resultado foi o livro "Management in Latin America: Threats and Opportunities in the Globalized World", lançado há algumas semanas no mercado americano e disponibilizado também na Amazon.com. "O objetivo do livro é analisar a qualidade da gestão empresarial e o desenvolvimento econômico na América Latina, e explicar o jeito latino-americano de gerir os negócios", diz comunicado divulgado à imprensa por ocasião do lançamento.

Feldmann conversou com o Administradores.com, destacou alguns pontos abordados na obra e compartilhou sua visão sobre temas comuns ao universo empresarial brasileiro. Alguns pontos de vista do professor são polêmicos e prometem gerar um bom debate por aqui, como sua posição de que a criação da graduação específica em Administração no Brasil foi um erro e de que franqueados não são, necessariamente, empreendedores. Ele destaca ainda a resistência do brasileiro a correr riscos e a preferência por amigos e familiares na gestão dos negócios como pontos que dificultam o crescimento e a competitividade dos negócios tupiniquins.

Como surgiu a ideia do livro?

Eu lancei um livro há quase quatro anos, em 2011, aqui no Brasil. É um livro que se chama “Empresas Latino-Americanas”. Em 2012, uma editora dos EUA me pediu para adaptá-lo ao mercado americano e atualizá-lo e o resultado final ficou pronto agora. Esse livro que está saindo nos Estados Unidos, em inglês, só será vendido lá, mas é uma adptação do meu livro de quatro anos atrás, feito no Brasil. É um livro que mostra que a gestão de empresas no Brasil e na América Latina, como um todo, é muito diferente da feita em outros países do mundo. A razão de ter feito esse livro - de ter aceitado o convite da editora - é que eu sempre achei muito importante explicar para as pessoas de fora da América Latina, principalmente europeus e norte-americanos, algumas características nossas, dos latino-americanos, que tornam a nossa gestão diferente.

Você fala que uma das grandes dificuldades dos executivos brasileiros em multinacionais é explicar aos estrangeiros como as características culturais impactam na qualidade da gestão e de que maneira "são obstáculos que impedem o bom desempenho das empresas”. Você poderia citar algumas dessas características?

Hoje é um fato aceito por todos os especialistas em Administração que a cultura dos povos tem um papel muito importante na forma como as empresas são geridas. Então, cultura afeta gestão. Isso é ponto pacífico. Cada povo tem uma forma diferente de gerir suas empresas. Por exemplo, nós brasileiros não gostamos de correr riscos. Somos muitos conservadores com nossas empresas, não corremos riscos, enquanto os norte-americanos, por exemplo, correm riscos, estão dispostos a se arriscar, porque é arriscando que eventualmente você conquista grandes coisas. Se você não corre riscos, você não inova. Isso é um fator importantíssimo para explicar por que as empresas brasileiras não são inovadoras, um dado estaticamente comprovado.

E por que nossas empresas não inovam?

Porque, para inovar, você tem que pesquisar. É preciso investir em pesquisas. Quando você investe em pesquisa, muitas vezes as coisas não dão certo, mas tem que arriscar. Nós brasileiros não gostamos de arriscar. Por isso também é que a gente acaba não sendo inovador. Isso é um fato muito importante. É uma característica nossa não sermos inovadores e não nos arriscarmos.

Voltando ao assunto das características, quais outras você pode citar?

Nós brasileiros, e os latino-americanos, em geral, também somos muito apegados à família e aos amigos. A dedicação do brasileiro à família e aos amigos é exagerada, quando comparada com outros povos. E isso é levado para o campo da empresa. Na empresa brasileira, é muito comum que cargos importantes sejam, às vezes, ocupados por pessoas que são da família ou só amigos. Não há o rigor de se fazer questão de preencher os cargos com o melhor profissional, porque o brasileiro valoriza muito a confiança pessoal. Nos Estados Unidos, não existe isso. Nos Estados Unidos, indicações de amigos ou de familiares são muito mal vistas e os cargos são preenchidos sempre por profissionais.

Uma outra coisa (voltando a comparar com os americanos): os norte-americanos são muito pragmáticos. Quando eles abrem uma empresa, o objetivo é ganhar dinheiro. Já o brasileiro não é tão pragmático. Claro que ele quer dinheiro, mas quer, acima de tudo, não perder o controle do negócio. Quando um cidadão americano abre uma empresa - mesmo que pequenininha, em sua garagem - depois de um tempo, ele abre o capital. Com isso, ele chama os acionistas e a empresa cresce. Só que ele não vai mais ter o controle, vai passar a ter 1% da empresa, talvez, porque a empresa crescerá e os acionistas assumirão o controle. Isso não existe no Brasil, porque o empresário nunca admite a hipótese de perder o controle. Ele prefere não crescer, mas não vai perder o controle. Isso acaba acontecendo até nas grandes empresas. Você pega os grandes grupos empresariais brasileiros, mesmo aqueles que abriram o capital, abriram de uma forma muito pequena.

O fato de o empresário não querer perder o controle tem aspectos positivos e negativos ou isso é necessariamente algo negativo?

Eu considero isso principalmente negativo, por que dificulta muito o crescimento da empresa. Você tem nos Estados Unidos empresas que são totalmente abertas e são empresas em que não há um dono específico com controle sobre ela. Vou te dar alguns exemplos: você pega as maiores empresas americas como City Banks, por exemplo, a GM (General Motors), são empresas que não têm donos, são milhões de acionistas, ninguém sabe quem é o dono, porque todo mundo é acionista. Graças a isso, essas empresas cresceram muito e cresceram de uma forma profissional.

Você acha que isso pode estar um pouco ligado à qualidade do empreendedor e do empresário brasileiro, à formação do empreendedor por aqui, que ainda tem uma qualidade inferior à americana?

Esse é um ponto muito polêmico que você está levantando. O que ocorre é o seguinte: nós somos um dos únicos países do mundo que tem curso de Administração a nível de graduação. Inclusive, eu dou aula em um deles. Mas, se você pega países como Alemanha e Japão, não existe curso de Administração a nível de graduação. Fulano tem que fazer Economia. Se ele quer trabalhar com empresa, ele faz Economia e depois uma pós-graduação ou um MBA. Na maior parte dos países desenvolvidos é assim. E nós do Brasil criamos o curso de Administração. E fizemos, na minha opinião, uma coisa errada, porque, quando criamos o curso de Administração, separamos o curso de Economia. Eu não sou economista, sou engenheiro, e fiz mestrado e doutorado em Administração - mas eu acho que a parte mais importante na formação de um administrador é a parte de Economia, é a teoria econômica. A principal fundamentação teórica que um administrador deve ter está na Economia. Então, o que acaba acontecendo no Brasil é que não estamos formando bons administradores, pois estamos formando administradores sem uma base de economia, e isso é uma falha grave, na minha opinião. Isso não ocorre em países importantes como a Alemanha e o Japão, por exemplo.

No livro, você fala sobre o envolvimento político e o foco de muitos empresários em buscar saída nos meios políticos nos países latino-americanos. Será que isso é exclusividade dos latino-americanos? Nos EUA, por exemplo, o lobby é algo, inclusive, legalizado.

Uma coisa que nós brasileiros e latino-americanos fazemos muito é colocar a culpa dos nossos problemas no governo. Essa é uma característica muito forte nossa, e essa é tipicamente nossa, ela não acontece em outras regiões. É comum dizer que o problema da empresa está no governo corrupto, no governo que não criou infraestrutura, o governo que cobra muito imposto etc. O empresário brasileiro nunca reconhece seus próprios erros e coloca a culpa no governo, principalmente. Às vezes, o empresário coloca a culpa no fornecedor, no cliente, no clima, na chuva, em São Pedro etc., mas nunca a culpa é dele. Então, falta humildade para o empresário brasileiro reconhecer que muitas vezes as coisas deram errado porque ele, o empresário, falhou. Isso ele nunca faz. Inclusive, no Brasil e na América como um todo - na Europa acontece, mas menos - é a gente querer usar o governo ao nosso favor e tirar vantagem em cima do governo. Eu acredito que isso seja um pouco fruto do sistema presidencialista. O presidente é uma figura que tem muito poder e os empresários em geral querem tentar influir nesse poder, coisa que no parlamentarismo, que é o que prevalece na Europa, já não é tão fácil.

Você afirma que "o brasileiro pensa que é empreendedor, mas não é. Quando a gente abre uma empresa aqui, não existe nada de inovador, ou é uma franquia ou os produtos já existem”. O mercado de franquias é uma febre no Brasil. Olhando pelo aspecto da inovação, isso é negativo para nosso mercado, do ponto de vista macro e no longo prazo?

Ela (a franquia) não contribui para a inovação. Não é esse tipo de empreendedor que é importante para a economia. O que a economia precisa é daquele empreendedor que inova e leva para o mercado alguma coisa nova, um produto novo, um processo novo de fabricação, uma nova forma de fazer negócios, é isso que dá dinâmica à economia. O que move a economia é a inovação. A franquia não tem inovação nenhuma. Achar que o franqueado é um empreendedor está errado. A definição de empreendedor nos outros países é o cara que leva uma inovação para o mercado. Inclusive, tecnicamente, em teoria econômica, existe a figura do empreendedor, é uma figura famosa, conceituada por um cara chamado Schumpeter e a definição dele para empreendedor é essa que estou falando. Então, o franqueado não é inovador.

Como os empresários brasileiros podem empreender melhor, ser mais inovadores e ajudar nossa economia a progredir?

Primeiro, eles têm que se concientizar da importância da inovação, eles precisam saber que de vez em quando têm que correr riscos, têm que pesquisar e buscar novas alternativas para seus negócios, produtos e para seus processos. A empresa brasileira tem que ser mais inovadora. Isso é um dado muito preocupante. A taxa de inovação da empresa brasileira é uma das mais baixas do mundo e isso é muito ruim para o Brasil como um todo.

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