A profissão pode esperar

Os alunos que estão ingressando na recém-criada Universidade Federal do ABC fazem parte de uma turma nova no ensino superior brasileiro. A começar pelo fato de que eles não sofrem a pressão de ter de decidir aos 16 ou 17 anos que carreira profissional deverão trilhar. Diferentemente dos brasileiros de sua geração, esses jovens passarão três anos adquirindo uma formação genérica. Concluído esse período tecnicamente chamado de “Ciclo Básico”, só então os estudantes da universidade sediada em Santo André definirão seu rumo profissional. Aos amigos que perguntarem a eles que faculdade estão fazendo, a resposta soará estranha. Nem Engenharia, nem Química – nada dessas habilitações tão familiares aos brasileiros. O que eles estão cursando na Federal do ABC é um bacharelado multidisciplinar em Ciência e Tecnologia. Para quem entender que a galera da Ufabc pode estar perdendo seu tempo servindo de cobaia para uma esquisita experiência que não a levará a lugar algum no mercado de trabalho, um aviso: o que está acontecendo no ABC paulista é parte de uma mudança que tenta resolver velhos problemas do ensino superior brasileiro e colocá-lo em sintonia com um modelo de formação já adotado nos Estados Unidos e na Europa (ver quadro).

“Desde que eu fiz o vestibular, achei legal, pois é possível conhecer várias áreas para realmente depois escolher que profissão se quer seguir”, afirma Luiz Henrique Rodrigues Ferreira, que aos 18 anos está cursando o terceiro semestre do bacharelado em Ciência e Tecnologia da Ufabc. Luiz Henrique apresenta um depoimento com o qual muitos jovens se identificarão. Ele prestou vestibular pensando em fazer mais tarde bioengenharia – um dos cursos que a Ufabc oferece a quem conclui o bacharelado obrigatório para todos. “Mas agora optei por Química, e foi uma mudança válida. Se eu tivesse entrado direto em uma faculdade de Bioengenharia talvez não estivesse contente hoje”, anima-se.

Alguém crê que os quase 80% de bacharéis em Direito que não passam no exame da OAB e os milhares de pedagogos e administradores são especialistas?”

Naomar de Almeida Filho, reitor da Univesidade Federal da Bahia (UFBA)
O princípio que sustenta esse sistema é simples – o jovem que conclui o segundo grau (ensino médio) precisa de tempo e de conhecimentos mais sólidos antes de iniciar sua especialização profissional. Esse tempo e esses conteúdos vêm com os três anos de bacharelado interdisciplinar. “Nossa proposta de interdisciplinaridade é que o estudante que ingressa no ensino superior não precise passar pela pressão de escolha do curso”, diz Adelaide Faljoni-Alário, vice-reitora da Universidade Federal do ABC. Ela toca num dos grandes problemas da formação superior brasileira, já abordado por AMANHÃ: o alto índice de estudantes que tomam uma decisão prematura sobre sua opção profissional e logo se dão conta de que fizeram uma escolha inadequada. O passo seguinte é, invariavelmente, a decisão de abandonar o curso e, em muitos casos, até mesmo a universidade. Em média, segundo o MEC, 35% dos universitários desistem até o segundo ou terceiro ano da graduação.

Como toda proposta que coloca em xeque as estruturas do ensino superior no Brasil, a introdução desse ciclo básico de três anos é alvo de cerrada polêmica. “De que adianta formar um bacharel generalista? E se não não tivermos o que fazer com esse profissional?”, dispara o reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, Lúcio Botelho, mirando a questão da empregabilidade. “Depois do bacharelado interdisciplinar, os alunos que se encontrarem de fato bem vocacionados poderão, mais maduros e preparados, prosseguir para carreiras profissionais”, contrapõe o reitor da Universidade Federal da Bahia, Naomar de Almeida Filho. Naomar é um dos mais convictos defensores dos bacharelados interdisciplinares (BIs) e propõe a introdução desta e de outras novidades num projeto conhecido como Universidade Nova (ver box), apresentado a 56 instituições de ensino superior em dezembro do ano passado. Ele não dá muita importância ao argumento favorito dos críticos desse modelo – o de que os bacharelados interdisciplinares formarão generalistas que não conseguirão emprego. Para Naomar, isso é precisamente o que o modelo atual tem produzido. “Ou alguém crê que os quase 80% de bacharéis em Direito que não passam no exame da OAB e os milhares de pedagogos e administradores são especialistas?”, provoca o reitor da UFBA.

Na Federal do ABC, todos os alunos têm de passar pelos três anos do ciclo básico previstos no bacharelado em Ciência e Tecnologia. O conteúdo é dividido em um terço de disciplinas obrigatórias (baseadas em seis “eixos do saber”), um terço de disciplinas optativas e um terço de matérias de livre escolha. Entre os eixos do saber incluem-se Energia, Estrutura da Matéria e Humanidades, por exemplo. Depois de receber essa formação básica, o estudante poderá começar sua graduação profissional, escolhendo entre cinco bacharelados, quatro licenciaturas e oito engenharias oferecidas pela universidade. É nesse momento que o jovem estaria mais maduro e preparado para saber que especialização profissional deverá buscar. ”Queremos formar um aluno crítico e empreendedor, que possa fazer e assumir escolhas quando chegar ao mercado de trabalho”, sustenta Adelaide Faljoni-Alário, a vice-reitora da Ufabc. Na visão dela, o DNA da universidade será impresso nas disciplinas obrigatórias, consideradas a chave para que o estudante venha a se tornar um bom profissional e cidadão. “Nosso lema é mais humanas nas exatas e mais exatidão nas humanas”, enuncia. A experiência inaugurada em Santo André vai dar certo? Crítico do atual modelo acadêmico, o especialista em Educação e presidente do Conselho Consultivo do Sistema Universitário Pitágoras, de Minas Gerais, Cláudio de Moura Castro, saúda a mudança. “Introduzir um ciclo de estudos gerais é dar um salto de 50 anos para a frente”, elogia Castro, com uma ressalva. “É muito difícil medir o impacto dessas modificações no desempenho do aluno.”






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A economia mundial irá se recuperar em 2009?

Completamente.
Moderadamente.
A economia não irá se recuperar em 2009.





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