Na última semana, o senador Renan Calheiros (PMDB/AL) foi absolvido de um processo por falta de decoro. O caso, do conhecimento de todos, é desnecessário reproduzi-lo aqui. Não apenas ele foi absolvido, como saiu vencedor da votação. Aliás, este tal decoro parlamentar é uma grande piada de gosto duvidoso.
Nessa mesma semana, a McLaren, uma das mais históricas e importantes equipes de automobilismo do mundo recebeu multa irrisória, punida sob a acusação de espionagem da sua grande concorrente, a não menos histórica, Ferrari. Seus pilotos, diretamente beneficiados pelo esquema, como colaboraram com o processo, nem foram punidos.
Enquanto isso, vejo na novela um empresário ser preso por tentativa de suborno a um policial, por míseros 800 reais, uma quimera se compararmos com os casos Renan e McLaren. Isso porque, há muito tempo a TV Globo trata de assuntos importantes em seus folhetins e relata assuntos desimportantes em seus telejornais.
Acabo de ler toneladas de e-mails que denotam indignação diantes dos fatos, especialmente os que envolvem o senador. Jornais publicaram manchetes nervosas taxando o Senado Federal de ser contra o povo e, em letras garrafais, a palavra vergonha foi comezinha em nossos impressos.
Tudo bobagem. Uma falácia. Uma hipocrisia elevada à enésima potência. A sociedade está podre, fétida, numa mistura intragável de mofo e mictório público. Há, obviamente, as exceções de praxe a justificar a regra. Mas, na verdade, não acredito neste sentimento de revolta da sociedade.
É sempre importante lembrar que o voto é exercido pelos cidadãos. Ou seja, Renan está lá pela tal vontade popular. E os 40 que o absolveram, mais seis que se eximiram da responsabilidade, também estão lá por conta da democracia. É bem verdade, que o Senado Federal transformou-se numa aberração, onde um terço de suas cadeiras é ocupada por suplentes que não tiveram nenhum voto. Mas, faz parte da regra do jogo, que não se quis alterar. Como também faz parte do jogo, um deputado como o finado Enéas Carneiro ter sido eleito com milhares de votos - protesto? deboche? - e ter levado consigo deputados cuja votação não os elegeria nem para síndico de prédio.
De escândalo em escândalo vamos tentando sobreviver. Já relatei em alguns textos que, dentro do campo político, a baixaria está institucionalizada. As discussões que leio em diversos e-mails faz com que tudo seja nivelado por baixo e é aí que Renan sai vencedor. Afinal, ele serviu a todos os presidentes eleitos pelo voto popular desde que pudemos exercer este direito a partir de 1989. Se tudo está igual, por certo não há diferenças.
Será que esta aversão que a sociedade mostra é realmente verdadeira? Fatos da vida cotidiana provam que não. As pessoas exercem a máxima popular que diz "farinha pouca, meu pirão primeiro". Uma amiga relatou-me, outro dia, sua indignação ao andar de ônibus e ter que ceder seu lugar para uma senhora, porque três jovens não o fizeram. Este é o retrato do país que entronizou a "Lei de Gerson", todos os dias. Dar o lugar no ônibus para idosos e gestantes, permanecer na fila aguardando a vez, cumprir obrigações, enfim, faz parte de uma civilidade que não mais existe.
O caso do empresário da novela que tenta subornar um policial é mais comum do que se imagina. Quantas histórias ouvimos todos os dias de pessoas que sempre dão um "jeitinho", um "cafezinho"? Quem nunca ouviu relatos de pessoas que usam seus conhecimentos pessoais, chamados hoje de networking, para dar guarida a um parente ou conseguir qualquer benesse que seja? O pior é que elas se gabam de seus atos. Hoje, ser honesto virou peça de ficção e motivo de piada. Se você aje de forma correta, as pessoas criticam ou se assustam.
Acho que no fundo, este clamor popular é mais pelo fato de não estarem no lugar do Renan, ou de qualquer outro que, faça ou que fizer, nada ocorrerá. A grande maioria que se diz revoltada com os políticos, além de elegê-los, também adorariam as delícias do poder, as mulheres que o cercam e os rios de dinheiro público a jorrar nas emendas parlamentares, nos viadutos e pontes superfaturados, muitos até nem construídos. Até imagino que alguns devem imaginar "ah, se eu tivesse lá... com grana e com aquela jornalista gostosa"...
O caso McLaren comprova que a sociedade apodrecida está em qualquer lugar. O famoso primeiro mundo deveria dar o exemplo. Mas, ledo engano, o mundo está corrompido por completo. Nunca nos esqueçamos do ensinamento do presidente norte-americano Abraham Lincoln (1861/1865) "o princípio moral é um título menos lucrativo do que os juros financeiros". Enquanto isso, o executivo da novela deverá ser solto. E outras novelas - reais ou fictícias - virão para manter o pão e circo das ratazanas de plantão.