Um país em crescimento depende, essencialmente, de dois pilares para viabilizar um efetivo salto econômico: conjunto de instalações físicas apropriadas para o desenvolvimento e capital humano. Sem uma infraestrutura com estradas, sistema ferroviário, portos, geração de energia para fluir a produção e pessoas devidamente preparadas para corresponder às necessidades do mercado não é possível que o potencial de crescimento de uma nação se transforme em realidade.
Com relação ao conjunto de instalações, há um forte movimento de estímulo a novos investimentos. Só com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o governo promete investir mais de R$ 500 bilhões até 2010 em infraestrutura social e urbana; e logística de transporte e energia. O problema maior está no chamado “apagão de mão-de-obra”. Com o ritmo de desenvolvimento aumentando, empresas dos mais diversos setores encontram dificuldades de contratar profissionais qualificados.
De um lado, as empresas têm tido grandes problemas para encontrar e manter profissionais habilitados. A revista inglesa The Economist realizou recente pesquisa que detectou que 80% dos executivos de países emergentes entrevistados consideram que o processo de recrutamento e retenção de talentos ficará mais complicado nos próximos três anos.
Assim, por conta da exigência do mercado de que os profissionais estejam sempre atualizados quanto ao velocíssimo avanço da tecnologia e dos processos, e também aptos a realizar quotidianamente qualquer tipo de atividade dentro de seu campo de trabalho, tornou-se indispensável à criação de um modelo de atualização e reciclagem permanente do conhecimento.
A pesquisa da revista The Economist também mostrou que 50% destes executivos consideram que há um crescente distanciamento entre as habilidades e competências dos universitários recém-formados e as necessidades das empresas. Ou seja, a instituição de ensino superior deveria fazer a ligação entre o que os estudantes anseiam e o que o mercado precisa. E isso não está acontecendo nos países emergentes.
O trabalhador médio brasileiro, de acordo com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), tem seis anos de escolaridade, contra 12 dos norte-americanos e europeus. Uma das alternativas para reduzir tal disparidade é a educação continuada, pois possibilita que o profissional capacite-se rapidamente e atenda às condições atuais impostas pelo mercado.
O Ministério da Educação criou, em julho de 2004, um organismo específico para cuidar da questão: a Secad (Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade). Os especialistas verificaram ser esta uma grande estratégia — e também uma saída — para que o profissional possa manter-se empregado e a empresa ganhe com o permanente aperfeiçoamento de mão-de-obra. A acelerada competitividade exige que se faça isso nos quadros de recursos humanos. Porém, a Secad, que já funciona há quatro anos, precisa agilizar o desenvolvimento das políticas públicas de incentivo à prática.
No meio corporativo, a educação continuada pode ser provida de diversas maneiras, como em reuniões, encontros, instruções e trocas de experiências entre colaboradores, dentre outros. Para o desenvolvimento de habilidades e competências, as empresas têm buscado, cada vez mais, escolas de negócios que oferecem programas como cursos intensivos e MBAs, sempre em sintonia com as necessidades do mercado.
Em um artigo intitulado “A Educação continuada e as políticas públicas no Brasil”, Sérgio Haddad, economista e doutor em educação, comenta que, anteriormente, sob a influência da UNESCO, este conceito remetia, principalmente, à idéia da formação e aprimoramento profissional, além de visar à adaptação do cidadão frente a um mundo em mudanças. Atualmente, abarca também a formação cidadã para a participação democrática e o desenvolvimento humano.
Nesse sentido, a educação continuada, na América Latina, para Haddad, utiliza como referências, idéias produzidas pelo movimento de educação popular, além das teorias ligadas aos direitos humanos. A educação continuada, no entanto, não abre mão de uma boa base de escolarização, principalmente aquela voltada à alfabetização e pós-alfabetização.
Hoje, um profissional que pretende alcançar seus objetivos, não pode abrir mão de obter conhecimento de modo constante, além dos anos de estudo que já possui. Participar de palestras, eventos e cursos e ler artigos relacionados à sua atividade podem sim ajudar a evoluir em um mercado que, cada vez mais, necessita de mais e mais pessoas sintonizadas com a realidade. Como disse certa vez o educador Cristovam Buarque, “o diploma, assim como a carteira de motorista, deveria ter prazo de validade”.
* Fernando Augusto Trevisan é administrador, jornalista e diretor geral da Trevisan Escola de Negócios.