Aperto de crédito impõe desafio a fundos de dividendos

A escassez de crédito que assola o planeta, em decorrência da crise financeira originada nos Estados Unidos, impõe um novo desafio aos gestores de fundos de dividendos, que focam as aplicações em ações de empresas tradicionalmente consideradas boas pagadoras de proventos. Com as incertezas da economia e os bancos menos dispostos a emprestar, companhias reconhecidas pela forte distribuição de lucros – como algumas do setor elétrico – já deixaram claro que a política pode mudar para garantir dinheiro em caixa, enfrentar dívidas de curto prazo e bancar investimentos.

Tractebel Energia e Cemig, por exemplo, que possuem grandes projetos de investimentos em curso, estão estudando entregar menos dividendos. A Tractebel deve sair de uma média de 95% do lucro líquido para até 68%. A Cemig avalia adotar a política mínima de dividendos prevista no seu estatuto, distribuindo 50% do lucro no exercício de 2008. Em 2006, o porcentual atingiu 80% e em 2005, 103%.

Diante desse cenário, a Caixa Econômica Federal optou por reduzir a participação do setor de energia de mais de 20% para perto de 10% da carteira do fundo Caixa FI Ações Dividendos. “Tendemos a reduzir a exposição a empresas que possam diminuir a distribuição de dividendos, dando preferência para outras”, afirma o gerente nacional de renda variável da instituição, Marcelo de Jesus. “Aumentamos o peso de bancos e de consumo. Em energia, Transmissão Paulista paga melhor e, por isso, é priorizada.”

Da mesma forma, Tractebel e Cemig estão hoje entre as empresas de energia com menor participação na carteira do Itaú Ace Dividendos Ações FI. “Tínhamos a visão de que estas eram empresas com planos de investimento, que precisariam de dinheiro em caixa”, diz o gestor de renda variável do banco, Marco Antônio Carregari. Ao mesmo tempo, a exposição a ações de outras empresas do mesmo setor cresceu, num ajuste iniciado no fim do segundo trimestre. A perspectiva do Itaú é de que, à parte as companhias com planos de expansão, outras elétricas – assim como empresas do setor de telecomunicações – não sofram variações forte de caixa e, por isso, mantenham o atual patamar de dividendos.

A visão é corroborada pelo diretor de renda variável da Unibanco Asset Management, Ronaldo Patah. “Os setores elétrico e de telefonia fixa têm fluxo de caixa alto, que não oscila muito com a desaceleração econômica. Apesar da crise, as pessoas não param de consumir energia”, explica. Por isso, as elétricas, as telefônicas e os bancos representam atualmente 50% da aplicação do Uniclass e do Unibanco Private Dividendos FI Ações.

Patah ressalta que no dividend yield – divisão do montante de dividendos pelo preço da ação – uma eventual redução no pagamento de proventos é compensada pela queda das cotações dos papéis. Essa taxa mede o ganho proporcionado por uma ação só com dividendos e é um dos indicadores mais observados pelos gestores dessa categoria de fundos. “Procuramos incluir na carteira ações com dividend yield superior a 5%”, afirma o superintendente-executivo de renda variável da asset do Bradesco, Herculano Aníbal Alves. Significa dizer que o Bradesco compra papéis que possibilitem um retorno acima de 5% ao ano somente com proventos.

Lucro

A possibilidade de redução dos lucros das empresas é outro fator ao qual os gestores de fundos de dividendos estão atentos. “Sem lucro não há proventos”, afirma o gerente-executivo de fundos de ações da BB DTVM, do Banco do Brasil, Jorge Ricca. Por isso, a equipe de análise da instituição está revisando as aplicações do fundo BB Ações Dividendos FicFia, que hoje tem metade dos investimentos em ações de elétricas e telecomunicações. “Acredito que teremos um cenário mais claro até o fim do ano, para começar 2009 com a carteira reformulada.”

No Bradesco, as perspectivas incertas quanto ao lucro dos próximos meses fez a participação das ações das empresas de siderurgia cair de 15% para 4% da carteira do Bradesco Fia Dividendos – embora o setor seja considerado bom pagador de dividendos. “Está difícil estimar os resultados do ano que vem. Acreditamos que sejam decrescentes, por conta da redução do preço das matérias-primas”, afirma Alves. As cotações das commodities nos mercados internacionais têm despencado frente ao temor de que uma desaceleração da economia global reduza a demanda pelos produtos.

Também no Itaú a alternativa foi fugir de empresas vinculadas a commodities. “O grupo Gerdau paga dividendos acima da média, mas tende a sofrer com os preços das matérias-primas. Por isso, adotamos uma postura conservadora”, afirma Carregari.



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A economia mundial irá se recuperar em 2009?

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A economia não irá se recuperar em 2009.





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