Foi um daqueles casos em que a expectativa foi melhor que o evento em si. À medida que se configurava a aprovação definitiva do pacote de US$ 700 bilhões de ajuda a bancos nos EUA, as bolsas de todo o mundo mostravam forte alta – o mercado europeu, que fechou pouco antes da aprovação, subiu 3%. Mas bastou a certeza de que o dinheiro viria para que os mercados de Nova York e de São Paulo mergulhassem em perdas.
De acordo com o economista Miguel Daoud, diretor da consultoria Global Financial Advisor, a reação negativa dos mercados após a confirmação da ajuda financeira serviu para mostrar que o dinheiro ajuda, mas não resolve os problemas pelos quais as economias americana e mundial passam. “A expectativa do plano foi equivocada. Ele não é a cura da doença, visa apenas combater os sintomas”, diz.
Sinais de alerta
Analistas notaram que, apesar de a ajuda de US$ 700 bilhões ter papel fundamental em evitar novas perdas de grandes instituições financeiras, existem muitos sinais de que a economia mundial, especialmente a de países desenvolvidos, está em desaceleração. Na sexta-feira (30), os EUA anunciaram que 159 mil empregos foram fechados no país. No dia anterior, a Europa anunciou um encontro para discutir os desafios da economia do continente.
Segundo Miguel Daoud, especialmente em tempos de crise, o mercado financeiro se comporta como um paciente maníaco-depressivo. Pelo comportamento da Bovespa nesta semana, isso ficou especialmente claro: a Bovespa caiu 9,36% na segunda; subiu 7,63% no dia seguinte; perdeu 0,52% na quarta; voltou a cair 7,34% na quinta; e – ao contrário das expectativas – perdeu 3,53% na sexta depois da aprovação do “socorro” aos bancos.
Portanto, diz o economista, o mercado afetado pela crise muitas vezes não age do jeito que se espera. “O mercado financeiro tem aquela doença do depressivo. Ou ele fica otimista demais, ou pessimista demais. E ele tem uma bola de cristal. Toda vez que essa bola escurece ele tem o comportamento de uma criança em um quarto escuro”, ressalta.
Novo perfil
O perfil dos investidores no mercado também costuma mudar em tempos de alta volatilidade e de perdas acentuadas – a Bovespa já recuou 30% neste ano. "Quando o mercado fica assim, os investidores de longo prazo acabam por sair do mercado, que fica em sua maioria ocupado por especuladores. Eles criam essas oportunidades (de comprar ou vender) em torno de notícias para ganhar dinheiro”, diz Daoud.
Com isso, o mercado acaba tentando interpretar o que vai acontecer a cada nova notícia que surge. Na sexta-feira, por exemplo, o mercado reagiu bem à notícia de que o Wells Fargo “roubou” o problemático Wachovia do Citigroup com uma oferta melhor. Além disso, a gigante de seguros AIG anunciou a venda de filiais para aumentar seu capital.
Segundo Ricardo José de Almeida, professor de finanças do Ibmec São Paulo, nesses dois casos o mercado apostou em um custo menor do pacote, pois instituições privadas estavam se organizando para amenizar os prejuízos sem ajuda oficial. Entretanto, com os US$ 700 bilhões garantidos, Almeida diz que pode ter havido também a impressão de que esse esforço extra para sair de dificuldades deixaria de acontecer.
Para Almeida, a expectativa dos próximos dias deve ser a de observar como o pacote será implementado – e o professor espera que o governo deva estimular uma atitude mais pró-ativa do setor privado. “Confio que o governo dos EUA escolherá os bancos certos para ajudar – aqueles que tenham condição de comprar outros menores e consolidar o setor para que se arranjem sozinhos daí para frente.”
Efeitos no Brasil
De qualquer forma, o momento é delicado, tanto no Brasil quanto no exterior. A economista Eliana Cardoso, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), diz que qualquer previsão neste momento é sujeita a erros. Mesmo quando as soluções parecem estar à mão – como no caso do pacote bilionário do governo Bush –, existe um período de implantação. Enquanto espera, o mercado está sujeito a turbulências.
Mas Eliana diz que, de qualquer forma, os efeitos serão sentidos no Brasil: “A crise do crédito nos EUA começou há 14 meses. Então tudo demora muito. Só um ano mais tarde é que estamos entrando nesse período de pânico. Como a restrição do crédito deve persistir, o reflexo sobre o nível de atividade será inevitável e isso deve chegar no Brasil.”
Segundo a professora de macroeconomia da escola de negócios ESPM, Cristina Helena Pinto de Mello, o brasileiro ávido por crédito deve ser o primeiro a repensar suas escolhas. “Não é um bom momento para isso (empréstimos) porque as taxas tendem a aumentar, e a renda tende a não crescer na mesma proporção que cresceu este ano”, diz. Por isso, a recomendação da economista é uma só: cautela.
Na dúvida, a velha poupança parece ser uma boa opção, de acordo com Cristina. “A poupança este ano vai render bastante. A inflação saiu da meta. A poupança paga inflação mais 6%”, afirma a professora, lembrando que as oportunidades de compra oferecidas por um mercado financeira em tempos de maré baixa não são para o “comprador leigo”. Em tempos de crise, diz ela, os títulos do governo são uma opção mais atrativa.