As últimas semanas têm sido marcadas por impactantes notícias vindas de fora e algumas também originadas no
front doméstico. A crise americana e seus desdobramentos ao redor do globo é, sem sombra de dúvida, o maior problema econômico da atualidade; em função do que esconde, pode ser considerada maior até mesmo do que os impactos do alto preço do petróleo e das commodities que têm gerado um surto inflacionário ao redor do globo. Para o cidadão americano é uma situação de vida ou morte, ou melhor, de sobrevivência econômica ou falência.
A crise nos mercados de crédito americanos, primordialmente nos mercados
subprime (aqueles de alto risco), já foi responsável por perdas de quase US$ 500 bilhões para as instituições financeiras americanas, européias e algumas japonesas. Alguns pequenos bancos americanos faliram nas últimas semanas e alguns maiores só não tiveram o mesmo destino em função da crise sistêmica que tal fato poderia ocasionar. Para alguns analistas, as perdas totais nos mercados
subprime podem estar próximas do fundo do poço; entretanto, seus efeitos já se alastraram sobre os outros mercados de crédito: cartões de crédito, automóveis, crédito pessoal para consumidores prime, etc. O principal instrumento de contágio da crise para estes mercados está na queda dos preços das residências, que já caíram mais de quinze por cento e, segundo alguns analistas, pode cair ainda outros quinze. Com queda tão forte nos imóveis, os tomadores de crédito se vêem insolventes em relação ao montante de suas dívidas, entregando suas casas. Os bancos credores, ao se verem com os imóveis devolvidos, buscam vendê-los rapidamente, baixando seus preços, gerando assim uma cadeia de destruição de riqueza financeira.
As projeções apocalípticas dos últimos dias chegam aos dois trilhões de perdas nos diversos mercados de crédito somente para as instituições financeiras. Em artigo de janeiro de 2008, o economista Nouriel Roubini do RGE Monitor (www.rgemonitor.com) afirmava que uma possível queda de 30% nos preços dos imóveis representaria perdas estimadas de US$ 6 trilhões em riqueza financeira para os donos de imóveis. Ou seja, a crise americana é de grandes proporções, e o mais sombrio de tudo isto é que, se tomarmos por base os números descritos acima, estamos no meio e não no fim da crise. Em função do socorro que tem sido necessário por parte do governo americano, via Tesouro, projeta-se um déficit recorde nas contas públicas do Tio Sam para 2009 de mais de US$ 500 bilhões. O dólar, por sua vez, como espelho de toda a deterioração financeira americana, continua a despencar ao redor do globo; no Brasil, chegou a bater, nos últimos dias, a casa dos R$ 1,55, cotação esta experimentada pela última vez em 19 de janeiro de 1999, uma semana após o ataque especulativo que deu fim ao regime de câmbio fixo até então vigente.
A situação do banco central americano é ainda mais incômoda do que aquela do Tesouro, ao se deparar com uma das situações mais difíceis de serem conduzidas pelas autoridades monetárias: a estaginflação, ou seja, o atual cenário de pressão inflacionária em função da elevação nos níveis de preços causada pelos preços do petróleo e commodities, juntamente com a recessão econômica. Nos últimos dias o Bureau Nacional de Pesquisas Econômicas (NBER), o similar americano do nosso IBGE, revisou o cálculo do PIB americano do último trimestre de 2007, de crescimento de 0,6% para recessão de 0,2%. Em função de todo o cenário descrito acima, não se poderia esperar outra decisão do Fed americano, senão a manutenção das taxas de juros em 2%a.a., como a ocorrida na reunião de 5 de agosto.
Os efeitos do forte esfriamento da economia americana começam a dar seus primeiros sinais ao redor do globo, mas ainda não afetaram as projeções do nível de atividade da economia brasileira para o próximo ano (os reajustes nas projeções parecem só tomarem por base o efeito da política monetária restritiva conduzida atualmente pelo nosso banco central).
Outra notícia bastante ruim do ponto de vista econômico global se refere ao fracasso das negociações multilaterais da Rodada Doha, encerrada no último dia 30, conduzida entre os 153 países membros da Organização Mundial do Comércio (OMC). Sem este acordo multilateral, perde-se, segundo o atual diretor-geral da organização, o francês Pascal Lamy, ganhos aproximados de US$ 160 bilhões anuais com acordos multilaterais para redução de subsídios e barreiras alfandegárias. Era tudo o que a atual situação econômica mundial não precisava. Segundo especialistas, uma reabertura de negociações só se daria a partir de 2010 ou 2011, mas as notícias recentes são de que Lamy estaria disposto a visitar, no próximo mês, os dois principais causadores do colapso das negociações: Estados Unidos e Índia. Esperar e torcer!
Política monetária: remédio amargo, mas necessário
No front doméstico, o nosso banco central demonstrou mais uma vez rigor na busca em se trazer a inflação futura convergindo para o centro da meta de 4,5% em 2009, uma vez que a inflação de 2008 já está dada e se situa ao redor do teto de 6,5%. Desde que os indicadores macroeconômicos começaram a demonstrar possível descompasso entre a demanda e oferta interna e, conseqüentemente, possível pressão inflacionária, o
Banco Central ativou seu instrumento de alta de juros, que deveria funcionar, entre outros efeitos já abordados em nossos relatórios anteriores, como um direcionador das expectativas dos formadores de preços, procurando agir na contenção de suas previsões. Após dois ajustes de 0,50 ponto percentual na taxa básica de juros, período em que a aceleração dos índices de inflação corroborou a avaliação do Banco Central quanto a tendência de alta deste indicador, o Copom decidiu intensificar seu instrumento de ataque, aumentando a dose da alta da Selic para 0,75 p.p nas últimas reuniões dos dias 22 e 23 de julho. Mais uma vez, esta ação está direcionada a combater o nível das expectativas de forma preventiva, pois os indicadores do presente não demonstravam piora do cenário, ou seja, uma aceleração da inflação presente de forma preocupante. Porém, a expectativa da inflação futura, especialmente a de 2009, estava apresentando contínua elevação. A cada novo relatório Focus semanal, que divulga a média e mediana das previsões das instituições financeiras mais importantes do País, aumentava a previsão da inflação de 2009, ultrapassando o centro da meta de 4,5%. Com isso, o Banco Central sentiu necessidade de aumentar sua força de ataque, mais uma vez buscando influenciar, ainda com tempo, as expectativas dos formadores de preços, e conseqüentemente, o próprio comportamento da inflação. Não importa se sabemos que a inflação atual é principalmente um reflexo do choque de oferta no mercado de produtos alimentícios em função do descompasso da demanda internacional. A atuação do Copom visa conter a demanda interna e, portanto, a parcela da inflação gerada por esta variável, que se não for controlada atuará como canal livre de repasse dos reajustes dos preços de alimentos para todos os outros preços da economia.
Não queremos aqui justificar a ação do Banco Central, mas explicá-la, explicitando as regras que o move, e os efeitos desejados. Porém, é importante analisarmos qual o papel da política monetária na perspectiva do crescimento e desenvolvimento do País. Com certeza, existe o consenso de que a previsibilidade e estabilidade da inflação presente e futura são fundamentais para o funcionamento de todas as outras variáveis da economia. Em síntese, a política monetária tem por objetivo manter o nível de preços ou determinada taxa de elevação de preços o mais constante possível, bem como auxiliar na minimização dos ciclos econômicos. Porém, é mais uma vez importante ressaltar que a política monetária é, por definição, uma ação de curto-prazo, ou seja, não é capaz de responder por problemas como elevação das taxas de crescimento econômico de longo-prazo, competitividade, inserção internacional, etc. Não devemos, portanto, nos desviar dos principais problemas a serem enfrentados pelo País e os instrumentos para atacá-los.
Um primeiro problema que deveria ser atacado em busca de um aumento do crescimento sustentado no longo prazo está relacionado à redução dos gastos do setor público, redução da carga tributária e aumento do investimento do setor público na área de infra-estrutura e educação básica. A redução das despesas do governo atua diretamente na pressão do câmbio valorizado (vide introdução do relatório mensal de junho), e por conseqüência, no resultado da balança comercial e das transações correntes. Além disso, ela determina a possibilidade de uma reforma no sistema tributário que objetive a redução da carga fiscal para todos os setores, gerando assim maior competitividade dos mesmos. Mais ainda, a redução do gasto público gera aumento da poupança interna, o que por sua vez sustenta a evolução do investimento interno, fundamental para o crescimento. E, por fim, somente com uma redefinição dos gastos públicos, reduzindo ao máximo aqueles ineficientes, poderão ser disponibilizados recursos para o investimento público na área de infra-estrutura e educação básica, dois fatores primordiais para o aumento da produtividade e competitividade futura do País.
Concluindo, nossa política monetária atual, goste-se ou não, tem sido bastante competente, sendo reconhecida internacionalmente pela capacidade de prevenção à deterioração das pressões inflacionárias atuais. Muitos países emergentes perderam as rédeas de seus níveis de preços nos últimos meses. Todavia, a política monetária funciona como um paliativo de curto prazo, ou seja, alivia os sintomas imediatos de uma piora no comportamento dos preços, mas não garante o crescimento sustentado de longo prazo, para o qual é fundamental não só as incompletas reformas estruturais, mas também uma política fiscal da mesma forma firme e persistente como o Banco Central tem se demonstrado em relação ao seu Programa de Metas da Inflação.
*Ricardo Faria, coordenador de Conjuntura Econômica do Instituto de Pesquisa Uniban, é doutor em economia;
** Pauline Sebok, economista assistente de Conjuntura Econômica do Instituto de Pesquisa Uniban.