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Os prejuízos do efeito Dunning-Kruger para a vida profissional

A extrema autoconfiança do profissional às vezes pode indicar uma superioridade ilusória

Fernanda Mendonça, www.administradores.com,
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No século XX, o filósofo inglês Bertrand Russell escreveu: "O problema com o mundo é que os estúpidos são excessivamente confiantes, e os inteligentes são cheios de dúvidas". Talvez ele tenha conseguido simplificar em uma frase essa característica complexa do comportamento psicossocial humano após conhecer alguém movido pelo efeito Dunning-Kruger (que, na época, nem tinha nome).

Foi apenas nos anos 1990 que os psicologistas Justin Kruger e David Dunning e Soullesz, da Universidade de Cornell, realizaram uma investigação científica para descobrir por que pessoas que sabem menos se sentem mais confiantes em assumir a frente de tarefas que requerem alto nível de conhecimento e prática. No artigo Unskilled and Unaware of It: How Difficulties in Recognizing One's Own Incompetence Lead to Inflated Self-Assessments (“Não qualificado e inconsciente disso: como as dificuldades em reconhecer a própria incompetência levam a autoavaliações exageradas”), eles propõem que essas pessoas sofram de superioridade ilusória. 

O fenômeno chamado de efeito Dunning-Kruger ocorre quando a autoconfiança intelectual é sustentada por pessoas que possuem conhecimento limitado, e até mesmo completo desconhecimento, sobre determinada técnica. O reflexo desse excesso de falso conhecimento pode trazer malefícios para o ambiente profissional, como também para a carreira individual. Devido a seu alto nível de autoconfiança e não reconhecimento de sua limitação técnica, o profissional movido pelo efeito Dunning-Kruger pode levar a equipe a cometer erros que poderiam ser evitados.

Para identificar esse efeito da psicologia social, os pesquisadores analisaram diversas habilidades de estudantes, como nível de concentração, tipos de raciocínio, e aplicaram exames de lógica, gramática e humor. Além disso, Dunning e Kruger pediram para que os participantes respondessem a uma autoavaliação antes e depois do teste. O resultado revelou que os participantes que dominavam a técnica avaliaram corretamente seu desempenho, enquanto os que pouco sabiam sobre o assunto superestimaram seu desempenho.

Complexo de inferioridade

Em contraposição à postura de supervalorizar capacidades, o método de pesquisa de Dunning e Kruger também indicou que os indivíduos que possuem real competência técnica têm uma autoconfiança intelectual fragilizada e subestimam seus conhecimentos. Além disso, eles tendem a confiar mais em outras pessoas, mesmo naquelas que não tenham potencialidade para assumir a tarefa.

Esse "complexo de inferioridade" foi investigado nos anos 1970 pela psicóloga Pauline Clance, da Universidade do Estado da Geórgia, que chamou o fenômeno de Síndrome do Impostor. Ela identificou que as pessoas que têm esse tipo de compartamento psicológico costumam destacar suas fraquezas e não valorizar suas capacidades.

A síndrome, além de impulssionar o efeito Dunning-Kruger em outras pessoas, também é uma barreira para o crescimento profissional. Isso ocorre porque, além da baixa autoconfiança, essas pessoas desviam a atenção de si, valorizando pontos fortes em outras pessoas e confiando a elas trabalhos que poderiam assumir - pois "os inteligentes são cheios de dúvidas", relembrando a psicologia social simplificada por Russell.