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Onde estão os bons profissionais?

Uma reflexão sobre comprometimento, eficiência e sobre a dificuldade de encontrarmos profissionais capazes de atuar com excelência no mercado de consultoria em um momento de transformação dos ambientes de trabalho

Carlos Miyahira, Administradores.com,
iStock

Os serviços oferecidos por consultorias do universo contábil, financeiro e fiscal são bastante diversos e, em muitos casos, precisamos de uma atuação multidisciplinar para garantir o sucesso de um projeto.

Para que estes objetivos possam ser conquistados e uma empresa atuante neste mercado possa se manter ativa, apresentando diferenciais perante sua concorrência, uma equipe formada por profissionais comprometidos se torna indispensável. 

Mas de que profissionais estamos falando, afinal? Do ponto de vista da especialidade técnica, a resposta, certamente, está relacionada com os serviços que sua empresa almeja oferecer para o mercado, mas, penso que a reflexão principal que devemos conduzir é: quais são as características que uma consultoria que almeja ter sucesso, deve buscar nos profissionais? 

Muitas vezes, um determinado profissional possui uma formação acadêmica de peso que agrega muito peso ao seu currículo, mas, infelizmente, alguns param por aí; não apresentam a mesma excelência em suas rotinas de trabalho, são pouco produtivos e, dentre outros pontos, encontram dificuldades para se adaptar aos novos modelos de trabalho do mercado. 

Neste sentido, a reflexão que gostaria de lançar no presente artigo diz respeito a dificuldade atual de encontrarmos bons profissionais para o trabalho em consultorias, bem como, abordar quais os skills - em minha perspectiva de gestor deste mercado - são essenciais para o sucesso em uma carreira na área. 

Comprometimento: uma lacuna do mercado

No fim das contas, o que sempre buscamos nas empresas são profissionais focados, comprometidos, que vistam a camisa do negócio e sejam capazes de trazer resultados mantendo bons níveis de produtividade. 

Em um momento de transformação do mercado, que abre possibilidades para modelos de trabalho mais flexíveis (home office, maior tolerância com horários, regimes horizontais de gestão) e, consequentemente, permite uma redução do microgerenciamento, dando maior independência para os colaboradores, em tese, seria natural vermos profissionais mais próximos destes valores de comprometimento. 

E isso porquê, possuindo menos entraves gerenciais para o desenvolvimento de uma carreira com maior autonomia, o que as empresas buscariam seria, em suma, a realização de um bom trabalho – independentemente do local de trabalho (se home office ou locado); da posição hierárquica e, em alguns casos, até mesmo dos horários de trabalho do profissional. 

Essa realidade é especialmente comum no universo das consultorias. Muitas empresas deste setor atuam em regimes totais ou parciais de home office e avaliam muito mais a questão da produtividade e das entregas do que, propriamente, os horários de entrada e saída de um funcionário. 

Dito isso, curiosamente ou não, a dificuldade para encontrar profissionais comprometidos, capazes de unir flexibilidade gerencial com produtividade e eficiência, é muito grande no mercado de consultorias, ao menos, a partir do que percebo a partir de minha própria experiência. 

E isso em um momento que, reforço, é de mudança do mercado. No ano passado, por exemplo, a Spaces, empresa fornecedora de espaços compartilhados para trabalho que surgiu em Amsterdã, realizou uma pesquisa sobre a situação do trabalho remoto no Brasil. Seus resultados mostraram que, para 55% dos profissionais, o home office já é uma realidade. 

A divisão de expedientes entre funcionários e até mesmo, o trabalho 100% a distância podem ser muito úteis para facilitar rotinas de trabalho. Porém, neste momento de transformação, o que percebo são baixos níveis de produtividade, dificuldade de concentração e foco, além de uma atuação aquém do que os currículos de muitos profissionais indicam. 

O que pode ser feito, por parte dos profissionais, para mudar esta realidade? 

Os pontos que exigem melhoria são todos muito simples e diretos, porém, de suma importância para que o rendimento de um funcionário seja efetivamente otimizado. O que ocorre, ao meu ver, é a falta de dedicação a certas questões que, ainda que não se relacionem diretamente com a questão técnica, são capazes de determinar o sucesso de um profissional em uma consultoria: 

· Flexibilidade: como dito acima, a maleabilidade dos modelos de trabalho também exigem uma grande responsabilidade do funcionário. Mais do que estar disposto a se adequar, ele precisa compreender que, em contextos de trabalho que lhe dão mais autonomia, como no home office, por exemplo, seu compromisso com entregas e controle de produtividade é ainda maior;

· Foco e capacidade analítica: só com foco o profissional poderá cumprir com seus deadlines, entregar seus projetos e estar apto a desenvolver análises inteligentes;

· Qualidade e eficiência: mais do que a capacidade de assumir a frente de um projeto, o profissional precisar ter uma boa compreensão do todo, sendo capaz de produzir de forma efetiva e com qualidade, evitando retrabalho, atrasos para sua equipe e horas de ineficiência;

· Capacidade de autogerenciamento, maturidade e proatividade: o profissional precisa manter seus níveis de produtividade, ter foco, concentração e atender os objetivos do negócio sem que haja a necessidade de cobranças a todo momento; 

· Paciência na trajetória profissional: frequentemente, colaboradores já esperam avanços consideráveis em suas carreiras, sem que tenham entregue resultados para tanto. É preciso ser capaz de construir uma bagagem e uma relação de confiança com a empresa. 

Quando deixo estes pontos e observações, meu objetivo é compreender o momento atual do mercado, apresentar as dificuldades que tenho encontrado e buscar soluções para o dilema de promover modelos de trabalho mais flexíveis sem perder de vista os bons profissionais que, afinal de contas, constroem o sucesso de qualquer negócio.

Espero poder também entender se os colegas que atuam na área também passam por desafios semelhantes para que, juntos, possamos superar estes obstáculos e fortalecer nosso mercado como um todo.

Carlos MiyahiraSócio da Grounds e especialista na área contábil, com experiências em processos de aquisição e venda de empresas e operações, do ponto de vista do Comprador (Due Diligence) e do Vendedor (Vendor Due Diligence), e em consultoria no processo de pós-aquisição.