Para tirar o Brasil do “esgoto”

O Sistema CFA de Governança, Planejamento e Gestão Estratégica de Serviços Municipais de Água e Esgotos, o CFA-Gesae, já está disponível para os gestores. A ferramenta, idealizada pelo Adm. José Antônio Campos Chaves e criada por meio de convênio com o Conselho Federal de Administração (CFA), visa oferecer aos municípios um sistema de governança e planejamento estratégico de serviços públicos de água e esgoto

CFA,
Divulgação

Em pleno século XXI, problemas estruturais no Brasil fazem o país ostentar um triste número: é apenas a 112°, entre 200 nações do mundo, quando o assunto é saneamento básico. A média brasileira, segundo indicadores do Ministério das Cidades, é de pouco mais de 80% das casas atendidas com água tratada. Quando se fala em esgoto, os dados são assustadores: apenas 43% é coletado e tratado.

Foi pensando neste problema que o Conselho Federal de Administração (CFA) lançou em outubro passado o Sistema CFA de Governança, Planejamento e Gestão Estratégica de Serviços Municipais de Água e Esgotos (CFA-Gesae). Trata-se de uma plataforma digital que reúne dados do Ministério das Cidades e pretende, acima de tudo, preparar profissionais de Administração para atuarem em conjunto com os gestores do saneamento básico no país – uma contribuição importante do CFA para melhorar a qualidade de vida dos brasileiros.

Em 2017, quando assumiu a presidência do CFA, Wagner Siqueira adotou um modelo desenvolvimentista de gestão, com foco na valorização e empregabilidade do profissional. Para alcançar tal objetivo, o presidente do CFA identificou áreas deficitárias da sociedade em que o profissional de Administração poderia contribuir. É aí que entra a plataforma CFA-Gesae. “Esse projeto vai apresentar as contribuições que o profissional de administração pode dar ao processo de melhoria e desenvolvimento da gestão de água e esgotos”, define o líder da autarquia.

A ideia do projeto surgiu durante uma palestra do administrador José Antônio Chaves no Congresso Mundial de Administração, em Porto Alegre, ainda em 2015. Lá, o atual presidente do CFA, Wagner Siqueira, após a palestra, provocou Chaves sobre como o Sistema CFA/CRAs poderia ajudar a melhorar a gestão pública no Brasil.

O administrador tem vasta experiência no assunto de saneamento básico. Foi Executivo da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa), é professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e consultor do Banco Mundial no Brasil e no exterior, sempre voltado para assuntos relacionados ao tratamento de água e esgoto.

Foi então que o conhecimento de Chaves e a vontade de contribuir com a gestão pública do país de Siqueira confluíram. Dessa forma, foi criado o CFA-Gesae.

“Naquele momento, mostrei ao Wagner que a questão da água e do esgoto no Brasil são muito mal administrados. Uma análise minha de cadeia de valor mostra que a engenharia pesa 100% no valor do saneamento básico no Brasil, enquanto em países que interpretam isso como serviço o valor é de 10%”, lembrou.

José Antônio explica que a plataforma do Gesae foi desenvolvida por meio de software público, ou seja, gratuito. Por conta desse desenvolvimento, qualquer prefeitura que queira analisar os dados relacionados à sua cidade não precisa fazer uma licitação para a contratação da plataforma ou pagar qualquer quantia ao CFA.

A plataforma do Gesae será de grande valia para que os gestores absorvam a experiência dos administradores no desenvolvimento, por exemplo, de planejamentos estratégicos e ações que possam ajudar na solução de problemas que se arrastam por décadas. Segundo Chaves, esses problemas fazem parte de um conglomerado de perspectivas burocráticas que prejudicam o perfeito funcionamento do saneamento básico no Brasil.

“O modelo federativo do Brasil compromete muito esse trabalho. Pela Constituição, o município é que possui a concessão sobre os serviços de água e esgoto. E as decisões, por sua vez, estão a quilômetros dos municípios, em Brasília, nos gabinetes federais. Quando estes recursos chegam, geralmente são diferentes do que foi pedido”, avalia.

A plataforma será fundamental para tentar superar o “problema federativo”, uma vez que, com ações coordenadas, baseadas em dados e com planejamento estratégico bem construído, será mais fácil atacar o problema de frente – e de forma preparada.
O próximo passo, explica o superintendente do CFA Douglas Evangelista Neto, será apresentar a plataforma e, acima de tudo, qualificar os profissionais de Administração para que possam usufruir de todas as informações disponíveis no CFA-Gesae, da forma mais técnica possível.

“Dados reunidos, partimos agora para os outros dois pilares do projeto: a educação a distância – por meio da Universidade Corporativa do Administrador – e o estudo profundo da legislação vigente. Não basta planejar, tem que executar”, decretou Evangelista.

Wagner Siqueira conclui que a iniciativa do CFA é mais um legado deixado tanto para a profissão quanto para a sociedade em geral. “O saneamento brasileiro é fundamentalmente um problema de gestão e é nesse sentido que o CFA vem contribuir. No CFA-Gesae, além de um processo de diagnóstico, temos outro que é a formação de quadro de gestão, visando valorizar e, acima de tudo, realçar o papel fundamental da administração no quesito ambiental”, explica.

Saneamento Básico no Brasil

Menos da metade do esgoto do Brasil é coletado e tratado. Precisamente, 42,6%. Um número alarmante para ser divulgado em pleno 2018 e proveniente da Agência Nacional de Águas (ANA) que, em conjunto com a Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental do Ministério das Cidades, elaborou o Atlas Esgotos. O estudo apontou que apenas 39% da carga orgânica gerada diariamente no país (9,1 mil toneladas) é removida pelas 2.768 Estações de Tratamento de Esgoto (ETE) existentes no Brasil antes dos efluentes serem lançados nos corpos d´água.

Outro recorte, desta vez do Instituto Trata Brasil, fez um comparativo entre as condições de saneamento no país entre 2005 e 2015. O instituto, uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip), utiliza dados do Sistema Nacional de Informações Sobre Saneamento (SNIS) do Ministério das Cidades. O que se viu foi que a parcela da população brasileira com acesso aos serviços de distribuição de água tratada passou de 81,7% em 2005 para 83,3% em 2015.

Em dez anos, 26,4 milhões de brasileiros conquistaram o acesso à água tratada. Quando falamos de coleta de esgoto, o avanço foi um pouco maior: passou de 39,5% para 50,3% entre 2005 e 2015. Mais de 35 milhões de pessoas foram incorporadas ao sistema de coleta, um aumento de 48,6% no número de brasileiros atendidos. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), para cada R$ 1 investido em saneamento há uma economia de R$ 4 em saúde. Ou seja: investir em saneamento otimiza os gastos em outros setores essenciais da sociedade.

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