Para muitos cidadãos brasileiros – e também para o Tribunal de Contas da União – os megaeventos esportivos que acontecerão nos próximos anos (notadamente a Copa e as Olimpíadas) serão fonte de prejuízo em vários setores. Mas um estudo recente da Grand Thornton aponta que a expectativa de empresários brasileiros é que a infraestrutura do país seja beneficiada após a realização dos eventos. Segundo o International Business Report (IBR), 45,3% dos executivos consultados acreditam que a infraestrutura é o benefício mais relevante que ficará após a realização dos eventos esportivos. A pesquisa foi feita com 300 empresas brasileiras. O IBR revelou também que 42,7% dos executivos creem que os estádios construídos terão boa utilização após a Copa. 'As reestruturações que estão sendo feitas em algumas regiões poderão trazer transformações efetivas no futuro, como aconteceu em Londres, onde a região East London foi reformulada e permaneceu bastante atrativa mesmo após o evento esportivo', diz Paulo Sérgio Dortas, Managing Partner da Grant Thornton Brasil. A mesma pesquisa realizada na África do Sul, um ano após a Copa em 2010, indicou que 84% dos visitantes revelaram estar muito satisfeitos com os aeroportos utilizados e 87% aprovaram as condições dos estádios. Por outro lado, a qualidade do transporte público (54%) e a condição das estradas (57%) foram os itens com menor aprovação dos turistas. A grande maioria dos entrevistados ficou satisfeita com os restaurantes, acomodações e atrações (todos com 78%). Torneiras abertas e prazos curtos Segundo Dortas, aqui talvez fique uma das maiores lições para nos Brasileiros. 'Não adianta apenas fazer belos estádios e vilas olímpicas, é preciso investir também no transporte público e estradas.' afirma Dortas. Aqui se encontra um problema. Uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) em 2011 apontou que irregularidades em contratos para obras de mobilidade urbana poderiam deixar um prejuízo financeiro imensurável para os cofres públicos. O setor contaria com o maior aporte por parte do setor público – R$ 7,9 bilhões apenas da Caixa Econômica Federal (CEF). Um dos projetos, orçado originalmente em R$ 489 milhões, foi submetido novamente por R$ 1,2 bilhão, quase três vezes o valor. O objeto do contrato era um Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) a ser instalado em Cuiabá, Mato Grosso. Mas também se aplica a outros estados e setores: estimativas apontam que apenas para a construção dos estádios, o governo irá desembolsar R$ 992 milhões, cerca de 97% do valor total. Apesar disso, a administração dos estádios será repassada para a iniciativa privada. Outro problema é a dívida. Em 2010, o então presidente Lula assinou um decreto permitindo que as cidades-sede da Copa extrapolassem os limites previstos na Lei de Responsabilidade Fiscal, para reduzir os entraves burocráticos e agilizar as obras. Um reflexo dessa medida foi sentido pelo Clube Atlético Paranaense: em janeiro, o clube admitiu que está enfrentando uma situação de crise junto aos fornecedores, por conta do andamento das obras. O clube ainda não teria recebido o total do financiamento, estimado em R$ 184,6 milhões. Boa parte desses recursos é oriunda do BNDES. Impacto positivo Para a grande maioria do empresariado brasileiro (70%) os Mega Eventos esportivos vão contribuir para o crescimento da economia. Na África do Sul, o impacto geral na economia também foi positivo: os gastos com cartões apresentaram elevação de 55% e as vendas no varejo registraram expansão de 7,4%, na comparação com o mesmo período do ano anterior. No Reino Unido, o governo anunciou que as Olimpíadas em Londres trouxeram £ 13 bilhões em benefícios econômicos, sendo £ 6 bilhões em forma de investimento direto estrangeiro. No lado do empresariado, 58,7% acreditam que a Copa não impactará no seu lucro. Outro dado aponta que 5,3% afirmaram que terão elevação de mais de 10% do faturamento em função da Copa e Olimpíadas. Como se tratam de eventos com data para início e término, há uma certa descrença quanto ao impacto permanente no lucro e no faturamento após o fim dos Mega Eventos, comenta Dortas. As empresas não pretendem aumentar as contratações também. Segundo o IBR, 64% dos empresários brasileiros disseram que não contratarão em função dos eventos. 'As contratações devem acontecer, porém muito mais em caráter temporário do que a geração de empregos fixos.', comenta Dortas. Para eles, o setor de turismo (49,3%) será o mais beneficiado, seguido pelo de construção civil (22,7%) e infraestrutura (16%). O setor privado deve continuar investindo pouco em função dos Mega Eventos, uma vez que 80% das companhias brasileiras pesquisadas disseram que não pretendem aumentar investimentos. 'Pequenas e Médias empresas que fornecem produtos e serviços relacionados às obras, por exemplo, devem aproveitar a oportunidade para impulsionar seus negócios', afirma Dortas.