Muitos deles estavam para se formar em artes e ciências. Mas já não é o caso. Uma proporção crescente de estudantes de escolas de negócios já tem algum diploma na área ou ingressam na escola de negócios já com cinco ou seis anos de experiência em investimento bancário ou consultoria administrativa. Os estudantes de negócios de hoje em dia já não são, em sua maioria, poetas. Eles são pessoas acostumadas com negócios.
Obviamente, essa experiência de muitas maneiras dá aos estudantes a largada para o seu trabalho de MBA. Eles entram já sabendo contabilidade básica; eles entendem fluxo de caixa descontado e análise de regressão. Mas, se você parar para pensar, o próprio fato de eles já estarem tão familiares com o conteúdo do programa tradicional de MBA sugere que talvez eles precisem menos de ferramentas quantitativas e mais de bom julgamento e autoconhecimento, assim como um entendimento mais profundo da natureza humana.
Não surpreende que um número de letrados e empresários tenha começado a questionar as direções da educação comercial. Nestas páginas no ano passado, por exemplo, os gurus da liderança Warren G. Bennis e James O'Toole argumentaram que escolas de negócios perderam sua direção por causa do modelo científico que domina a pesquisa e o ensino de negócios. Acadêmicos da área são promovidos com base no rigor matemático de suas pesquisas em vez da sua relevância.
O que os alunos têm em classe, conseqüentemente, são acadêmicos altamente treinados afundados em matemática que ensinam ferramentas de administração formalizadas. Essas ferramentas são boas o suficiente se você está estudando técnicas de avaliação financeira, mas não são tão úteis se você está estudando liderança e comportamento organizacional. Estudantes poderiam aprender muito mais desses assuntos, discutiram Bennis e O’Toole, se eles cursassem literatura. A ficção pode ser tão instrutiva sobre liderança e comportamento organizacional quanto qualquer livro de negócios.
Na última década, Joseph L. Badaracco, Jr., o John Shad Professor de Ética Empresarial da Harvard Business School, tem oferecido esse exato tipo de curso para os estudantes de MBA da escola.
Em anos recentes, ele também conduziu discussões sobre literatura de ficção séria com executivos da HBS. Badaracco utiliza a literatura para proporcionar aos seus estudantes imagens complexas e bem-definidas de líderes de diferentes ocupações, líderes cujos desafios, particularmente os psicológicos e emocionais, equiparam-se aos de executivos graduados.
Em suas aulas, Badaracco usa textos como o “Death of a Salesman” (“A Morte de um Caixeiro Viajante”) de Arthur Miller, “Antígona” de Sófocles e “The Secret Sharer” de Joseph Conrad para ajudar os estudantes a entender questões de liderança, tomada de decisões e julgamento moral. Badaracco também examina essas questões em seu próximo livro “Questions of Character: Illuminating the Heart of Leadership Through Literature” (Questões de Caráter: Iluminando o Coração da Liderança por Meio da Literatura” (Harvard Business School Press, Abril 2006).
Recentemente, a editora graduada da Harvard Business Review, Diane Coutu, se encontrou com Badaracco para uma discussão variada sobre o que líderes podem aprender com a literatura. A conversa de três horas rendeu algumas surpreendentes descobertas sobre os diversos desafios da liderança.
O que fez com que o senhor decidisse ensinar literatura a executivos?
Foi uma aposta arriscada. Eu estava dando uma aula sobre liderança e pedi que um grupo de executivos graduados lesse um conto de Joseph Conrad chamado "The Secret Sharer". Eu não fazia idéia se o experimento funcionaria ou não. Em minha experiência, eu descobri que muitos empresários associam discussão literária com linguagem acadêmica abstrata e imagens freudianas. Mas esta não era uma aula de criticismo literário e eu não estava procurando por uma interpretação “certa”. Eu queria usar a história como um estudo de situação. Obviamente, a literatura é mais subjetiva e mais aberta a interpretações do que os típicos estudos de situação que usamos em Harvard, que são baseados em fatos, altamente pesquisados e focados em questões particulares.
Mas eles fornecem alguns dos mais poderosos e envolventes estudos de situação já escritos. Ficções sérias que sobreviveram ao teste do tempo levantam mais questões do que respostas. Pense no Júlio César de Shakespeare. Você poderia aprender sobre liderança com essa peça tanto quanto com um livro sobre negócios ou um periódico acadêmico. Suas lições certamente não são menos valiosas e são provavelmente tão pragmáticas quanto.
“The Secret Sharer” é um bom exemplo de uma obra literária que realmente repercute entre executivos. A história é centrada em um novo capitão que, por pouco tempo, esconde um assassino em seu navio. Essa decisão viola a lei do mar, mas o capitão acredita que o homem é falsamente acusado. Após uma acalorada discussão em nossa classe, a maior parte dos executivos graduados percebeu ao examinar suas carreiras, que eles enfrentaram decisões bastante similares às do capitão. É exatamente aquela parte de se tornar um líder que envolve enfrentar trocas dificílimas e testes imprudentes de seus limites, e “The Secret Sharer” deu a esses executivos uma maneira de falar sobre esses limites.
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