Quando o executivo Dan Price, fundador e CEO da Gravity Payments, anunciou em abril que iria aumentar o salário mínimo de seus funcionários para R$ 20 mil, todo o mundo voltou os olhos para a empresa que parecia ter saído de um sonho. Para tomar a decisão, Price abriu mão do bônus de US$ 1 milhão e cortou seu próprio salário, afirmando ao The New York Times que “o bem-estar de seus empregados é mais importante que seu pagamento”. Apesar do crescimento da popularidade da empresa e da figura pública do próprio CEO (que chegaram a ser utilizados como case em Harvard), o mesmo não aconteceu internamente. Em reportagem, o The New York Times revelou os “efeitos colaterais” que a medida trouxe para os negócios. Com apenas 120 funcionários, receber inúmeros e-mails, ligações, currículos, posts no Facebook e ainda dar atenção à imprensa parecia animador. No entanto, chegou o momento em que tudo isso começou a exigir demais, causando exaustão. “Com tantos olhos na firma, alguns esperando testemunhar algum fracasso, a pressão era intensa”, afirmou a reportagem do jornal. Outra complicação gerada após o anúncio de Price tem um vínculo mais político. A decisão foi tomada em um momento em que os Estados Unidos passavam por discussões relacionadas à dificuldade de reduzir desigualdades sociais no país. Isso levou clientes a romper contratos por julgarem a medida como uma “declaração política”, ou a acreditarem que o novo salário geraria aumento de custos dos serviços. No entanto, todo o tumulto trouxe uma série de problemas. Para melhor controlar o fluxo de clientes e especulações acerca da empresa, uma dezena de novos funcionários precisaram ser contratados – e isso significou um grande aumento de custos, se o mínimo é de RS 20 mil. Mas, talvez a consequência mais grave tenha sido a saída de dois importantes funcionários da empresa. Segundo o NYT, os profissionais mais valorizados por Price se demitiram por considerarem o aumento injusto, já que o novo salário seria válido também para as novas contratações e igualariam os membros mais antigos. Outros pedidos de demissão foram motivados pelo incômodo gerado com a publicidade da nova remuneração ou por se sentirem ainda mais pressionados com o aumento, principalmente os mais jovens. Apesar da instabilidade, Price se mantém firme e afirmou em entrevista que vai continuar lutando por suas ideias de uma nova política salarial. “A desigualdade de salários tem sido direcionada para o caminho errado. Eu quero continuar lutando pela ideia de que, se alguém é inteligente, trabalhador e faz um bom trabalho, ele tem todo o direito de viver uma vida de classe média”, afirmou.