Por que quase não surgem inovações no Brasil?

No fim, a resposta para a pergunta que dá origem a este artigo é muito simples

Mateus Azevedo , Administradores.com,
iStock

O Brasil, tendo uma população notoriamente conhecida por ser criativa, não deveria ser uma nação muito mais inovadora? Será que só "prestamos" para criar coisas engraçadas ou os outros povos é que são superiores e, por isso, estão sempre à nossa frente quando se trata de inovação "séria"? Pra mim, apesar de opiniões populares, ambas estão incorretas. Então qual seria o motivo?

Na época da peste negra, o governante de uma cidade europeia, após descobrir que o rato transmitia tal doença, teve uma ideia genial: ofereceu pagar uma recompensa por cada rato que um morador matasse e levasse na prefeitura. No primeiro mês, observou-se uma grande redução dos ratos, mas logo em seguida, o número de roadores aumentou consideravelmente. Imagine o que aconteceu? Frente a um estímulo econômico, pessoas empreendedoras resolveram dar início à criação de ratos, pois isso se mostrava um negócio muito rentável e com demanda "infinita".

Esse é o perfil do empreendedor em qualquer lugar do mundo: alguém que sempre vai buscar um gap no mercado e criar uma solução mais eficiente que as existentes. Não importa se o estímulo vem do mercado ou do Estado. Se existir uma demanda, as pessoas vão propor soluções, nem sempre boas, mas vão criar. Quem deveria decidir se a solução é boa ou não são os clientes, ao consumirem essa solução e fomentar economicamente a empresa ou não e tirá-la do mercado.

Por quê? Porque isso faz parte da essência do ser humano. O indivíduo é um ser pensante e que age, suas ações propositais buscam sempre tirá-lo de um estado de menor satisfação para uma maior satisfação. Ele faz isso porque é um ser INDIVIDUALISTA e que responde a estímulos. O que no fim das contas é ótimo, pois se não fosse assim, com sorte estaríamos na idade da pedra ou, mais provavelmente, extintos.

Agora usando essa lógica para nossa realidade, começamos a entender algumas coisas. Quando se tem um Estado grande, ele se torna o maior demandante, fomentador e provedor de produtos e serviços, o que estimula que a maior parte das pessoas dependa dele, estudando ou trabalhando no setor público, buscando financiamento, criando empresas para fornecer para o Estado (como as milhares de construtoras por aí e deu no que deu). Claro que algumas pessoas tem vocação ou desejam trabalhar em atividades que só o Estado pode prover, como ser juiz, promotor, policial... A questão é a quantidade de pessoas que poderiam estar direcionando seus esforços no desenvolvimento de inovações, mas ao invés disso, investem seu tempo estudando para concursos públicos em busca de salários eternos e estabilidade ao invés, é claro, de "arriscar" tempo e recursos próprios para tentar empreender, seja por conta própria ou em uma organização privada.

Infelizmente, tais trabalhos públicos ainda são, em sua maioria, improdutivos, burocráticos, que não geram riquezas ou criam soluções de verdade para o que a população precisa. Pior, por ser um serviço "gratuito" inibe o surgimento de concorrência. Se não fosse assim, vários indivíduos empreendedores se empenhariam para criar soluções diversas e concorrer entre si para melhorar seus produtos e serviços e ainda ofertá-los a preços mais competitivos. Tudo isso de forma egoísta, querendo receber o dinheiro alheio para si.

Para compreender ainda mais o peso do Estado, vamos dividir a sociedade em três camadas: Estado, Empresas e Indivíduos. A legislação criada pelo Estado impacta diretamente a terceira camada, os indivíduos. Por exemplo: o Estado cria uma regra que obriga todas as montadoras a colocarem airbag e freios abs nos veículos ou que agora o IPI dos veículos sobe de 5% para 15%. No planeta ideal, pensaríamos: "teremos carros mais caros, porém mais seguros e o governo, por sua vez, mais dinheiro para investir em saúde e educação". Mas já faz tempo que isso sequer passa pela nossa mente, certo?

Uma empresa existe para dar lucro. Salvo exceções como startups com enorme potencial (em que se espera por um período maior para obter o retorno), se uma empresa der prejuízo por muito tempo, ela fecha. Assim, para uma empresa dar lucro, obrigatoriamente ela repassa todos os custos mais uma margem no preço do produto e quem paga por esse produto? Você. Você pode pensar "ah, mas esse exemplo não se aplica a mim, não tenho carro". Mas o ônibus que você usa certamente foi comprado por uma empresa que visava o lucro e que vai repassar seus custos e mais uma margem no preço da passagem. O transporte do seu alimento é feito por caminhão e a transportadora também vai repassar seus custos para ter lucro e pagar seus investimentos. Os exemplos são infinitos.

No fim, a resposta para a pergunta que dá origem a este artigo é muito simples: não inovamos tanto porque precisamos de liberdade econômica e social. A grande questão é como vamos chegar lá, pois quem chega ao poder dificilmente quer abrir mão dele. Mas existe uma luz no fim do túnel, que vai contra qualquer regra e não pode ser punida, regulamentada ou domada: são as novas tecnologias descentralizadas. Grandes mudanças virão por aí. Mas isso é tema para outro artigo, bem como o papel do empreendedor nos novos cenários tecnológicos.

Mateus AzevedoSócio da BlueLab