Um novo capitalismo: como superar a pobreza na economia global

Documentário com a participação de Muhammad Yunus e Antônio Ermírio Neto conta a história de negócios que constroem lucro gerando impacto social e garante: é possível erradicar a pobreza

Eber Freitas, Administradores.com,
iStockphoto

Todos os anos, a Oxfam International divulga relatórios apontando a extrema concentração de renda no planeta, vaticinando um cenário catastrófico de desigualdade e pobreza. Embora indicadores importantes — como mortalidade infantil e pobreza extrema — tenham recuado nas últimas décadas, a percepção de que o capitalismo é um sistema que promove da exclusão ainda é forte.

A possibilidade de aliar lucro e impacto social já foi demonstrada na teoria e na prática. C. K. Prahalad, no clássico A riqueza na base da pirâmide, mostrou que mercados de baixa renda concentram demandas reprimidas e potenciais empreendedores. Muhammad Yunus, conhecido pela concessão de micricréditos para pessoas que dificilmente passariam pela porta de um banco, foi laureado com o Nobel da Paz em 2006.

Esses exemplos fundamentam o documentário Um novo capitalismo, lançado no final de 2017. Com a participação de Yunus e do empresário Antônio Ermírio de Moraes Neto, que também produziu e idealizou, o filme mostra a história de negócios na Índia, Brasil e México que se destacam por gerar lucro e impacto social ao mesmo tempo. Confira abaixo o trailer.

"A iniciativa surgiu do encontro de um grupo de amigos que tinham interesse no tema, todos com envolvimento com administração ou cinema", conta Nina Valentini, administradora e integrante da equipe responsável pelo documentário.

Valentini acumula experiência pessoal e profissional na área de empreendedorismo social. Por seu trabalho à frente da OSCIP Instituto Arredondar, ela recebeu o Prêmio Folha Empreendedor Social em 2016, aos 29 anos de idade.

Ela explica que a iniciativa de Um novo capitalismo surgiu há quase uma década, em 2008. "Iniciamos uma jornada de muito trabalho com a produtora executiva, Priscila Martoni, da Talk Filmes, para construir um documentário capaz de retratar a emergência nos negócios sociais sem perder as histórias e os desafios inerentes à inovação das iniciativas que escolhemos", relata.

O propósito do filme, segundo Valentini, é "aprofundar a discussão em torno dos negócios sociais, e inspirar empreendedores e jovens a buscarem a possibilidade de novos modelos de negócio, focados em impacto social".

O trabalho de mapeamento dos negócios sociais que teriam suas histórias relatadas no documentário contou com a participação de vários parceiros, e, em alguns casos de tradutores, "como o caso de uma personagem na Índia que fala tamil", lembra. Ao todo, sete empresas e 31 pessoas — via crowdfunding — patrocinaram o filme. Ao longo do processo de produção, outras 40 auxiliaram a equipe.

O filme está disponível em plataformas on demand — iTunes, Google Play, Net Now, Vivo Play e YouTube Rental — e na plataforma Videocamp para exibições públicas e gratuitas.

"É fácil perceber que um novo modelo é possível"

O documentário não é um exercício de futurologia ou idealismo projetado em iniciativas isoladas. "Os negócios já estão acontecendo, e são um dos pilares importantes de um novo capitalismo, e de inovação social. Quando trazemos casos reais, inspiramos com histórias, é fácil perceber que um novo modelo é possível", ressalta Nina Valentini.

Para a administradora, há uma diferença entre a filantropia, estratégia de legitimação social amplamente usada por bilionários para ocultar o impacto negativo de seus negócios, e as empresas que têm no aspecto social o seu core business.

"Os negócios sociais operam dentro das lógicas de mercado - ou seja, geram receita e lucro a partir de uma demanda real, e muitas vezes surgem a partir da inspiração de modelos de negócios que já existem - ao mesmo tempo, colocam o impacto social no centro da tomada de decisão", explica.

"A filantropia, por outro lado, destina serviços, atendimento, a públicos que talvez nem mesmo cheguem a ser atendidos por negócios sociais. Ou seja, em muitos casos, não há soluções de mercado para resolver todos os desafios", diferencia.

Os negócios sociais, por estarem inseridos em uma lógica de mercado, teriam mais facilitade de atuar em espaços onde a filantropia não chega. "Nosso filme trata da fronteira e causas em que os negócios podem ter papéis mais ativos e modelos mais criativos de gerar impacto social com escala — escala essa que as iniciativas filantrópicas possuem mais dificuldade de atingir por não conseguir alavancar recursos com a mesma facilidade que os negócios sociais", enfatiza Valentini.

A administradora conta que, mesmo no Brasil, onde a dinâmica de mercado convive com o sequestro do Estado por interesses econômicos, há espaço para que os negócios sociais façam a diferença. "As barreiras para o crescimento de um capitalismo mais consciente que existem aqui não são uma exclusividade do Brasil. Existem em diversos países, talvez com configurações diferentes, mas existem", lembra.

Ela acredita que acabar com a desigualdade deve ser uma ação conjunta entre diferentes atores da sociedade. "E no Brasil, bem como em outros países em desenvolvimento, há muitos buracos deixados pelo estado e muita gente cheia de criatividade. Essa criatividade das pessoas, combinada com o propósito e com a vontade de trabalhar, vai gerando novos negócios sociais e, ainda que gradativamente, vai mudando a cultura da iniciativa privada e do Estado. Mas isso não vai acontecer do dia pra noite", explica.

"É um processo. E ele está avançando no Brasil", conclui.

Ficha técnica

Produção: Talk Filmes

Coprodução: Dois e Meio

Roteiro e direção: Henry Grazinoli

Elenco: Muhammad Yunus, Antonio Ermírio de Moraes Neto, Haripriya, Ravindran, Claudio Sassaki, André Albuquerque, José Ignacio Ávalos, Alessandra Gonçalves de França, Luis Velasco, Carlos Labarthe Costas, Carlos Danel