Profissionais muito qualificados podem ter de aceitar salário incompatível

A empregabilidade do profissional muito qualificado depende do cenário econômico pelo qual passa o País. Em época de vacas magras, é possível que encontremos alguém com doutorado e experiência internacional reclamando do fato de que está à procura de um emprego há mais de seis meses, e que nada encontra.

Na sua consciência, você sabe que não é verdade. Uma pessoa com um currículo desses não pode simplesmente não achar emprego! Você está, provavelmente, certo. De acordo com o responsável pela pesquisa salarial da Catho, Mário Fagundes, as empresas raramente descartam um profissional overqualified (superqualificado) porque acreditam que não irão conseguir pagar por ele.

"A maioria das companhias pensaria: opa, vamos aproveitar esse candidato. Vamos contratar o pós-graduado e pagar salário de graduado", explica. Mas é claro que isso não pode ser generalizado. Além disso, em um bom momento econômico, como o que estamos vivendo agora, as empresas sofrem com escassez de mão-de-obra qualificada, pagando muito bem por ela. "É o caso do setor de engenharia", acrescenta.

Salário incompatível e falta de motivação

A conclusão que se chega é de que alguém superqualificado não passa grandes dificuldades para encontrar emprego. Porém, muitas vezes, diante de um cenário econômico ruim, ele pode ter de aceitar cargos mais baixos na hierarquia e salários menores, que não são compatíveis com seu know-how.

Não se trata propriamente de uma injustiça, uma vez que a contratação é uma via de mão dupla: as duas partes concordam com os termos da relação empregatícia. O problema é que isso pode ocasionar a falta de motivação por parte do profissional. "Vai chegar um momento em que ele irá notar que a contribuição que dá à empresa é desproporcional com seu salário".

Outra hipótese é a de que a organização o contrate para um cargo que não necessite tanto conhecimento ou experiência. "No processo seletivo, é comum as empresas exigirem qualificações e competências que vão além daquilo que é importante para a função. Isso ocorre em menos de 50% das vezes, mas é comum", adverte o gerente da Page Personnel (unidade de negócio do grupo Michael Page International), Igor Schultz.

O contratado costuma ter expectativas em relação ao trabalho que jamais serão cumpridas. "Como é muito qualificado, geralmente o profissional espera ser mais estratégico. Mas, se as atividades desenvolvidas não requererem tanta teoria, sendo mais operacionais, ele fica desmotivado. Às vezes, deixa a empresa", explica.

Idade e o mito do preconceito


Não existe preconceito por parte das empresas com relação ao overqualified, mas pesquisas indicam que há preconceito com relação à idade. "No entanto, a idade não tem uma relação direta com a qualificação e a experiência profissional", pondera o responsável pela pesquisa salarial da Catho, que ainda conclui: "a empregabilidade dos mais velhos qualificados é maior do que dos mais velhos com menos escolaridade".

O gerente geral da área de cursos da Catho, Rodolfo Ohl, concorda. "Não há preconceito. O profissional de Recursos Humanos do Brasil tem a mentalidade aberta. A questão, independentemente da qualificação, é se o candidato ao emprego é a peça-chave que a empresa procurava para completar seu time".

Quanto ao preconceito, por parte do contratante, originado da insegurança de ter que trabalhar com alguém que possa demonstrar mais capacidade, crescendo, desta maneira, na hierarquia, somente ocorre quando a organização é muito atrasada (ou o chefe que participa do processo seletivo é muito inseguro). "Bill Gates uma vez disse que sempre procurava contratar pessoas mais inteligentes do que ele. O empresário também disse que uma empresa é formada por constelação, e não por estrelas isoladas", lembra Ohl. Não tenha medo de investir na carreira

A dica de Fagundes é: não tenha receio de investir na carreira. "Para ter sucesso profissional, são necessárias duas coisas: fazer o que gosta e ser o melhor naquilo que faz. E para ser o melhor, é preciso ter técnica, conhecimento teórico, formação", sublinha. "Em algum momento da conjuntura econômica, o superqualificado pode se sentir um pouco injustiçado, mas, sem dúvida, a qualificação é um investimento futuro".


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