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4 inovações que mudaram a história -- e você não sabia

Nem toda nova tecnologia surgiu a partir de um processo planejado e bem financiado

3M Inovação,
Geni/Creative Commons (CC-BY-SA)

A história da humanidade é permeada por inovações que variam em escala e importância. Todas elas definiram a maneira como as pessoas das gerações subsequentes conviveriam, se relacionariam e preparariam o terreno para o futuro. O grande negócio da humanidade é descobrir; portanto, a inovação tem um papel fundamental na nossa existência.

Mas nem toda nova tecnologia surgiu a partir de um processo planejado e bem financiado. Na verdade, o domínio dos processos de inovação é algo recente. As inovações que criaram técnicas essenciais no nosso dia a dia se desenvolveram a partir da demanda, de maneira reativa, atropelada, e só foram aperfeiçoadas através dos séculos.

Mesmo hoje um produto ou processo não deve nascer pronto -- é uma imperfeição desejável. À medida em que o ciclo de adoção se desenrola, melhorias são efetuadas -- ou seja, a inovação é viva e orgânica. O que a humanidade fez com sucesso foi reduzir um intervalo de tempo de séculos para meses ou semanas, aumentando a taxa de sucesso e simplificando algo que é complexo por natureza.

Para entender melhor como isso aconteceu, podemos observar alguns exemplos históricos de técnicas que se desenvolveram e sem as quais hoje não saberíamos viver -- ao menos não da maneira que vivemos.

1. Contratos

Podemos não perceber, mas tudo o que fazemos hoje gira em torno de contratos documentados. O pão comprado no fim da tarde, os termos de software aceitos, os títulos públicos adquiridos para render juros compostos no futuro, as operações de crédito e as relações de trabalho são apenas alguns exemplos.

Embora Thomas Hobbes tenha teorizado a sociedade contratual no século XV, a história dos contratos teve início em tempos mais antigos.

Pedaços de ossos, troncos e outros objetos eram utilizados em várias regiões do mundo para estabelecer uma noção de quantidade, o que facilitava transações simples. Quando sociedades mais complexas começaram a se formar, as técnicas passaram a se tornar mais sofisticadas, o que deu origem ao termo "cuneiforme", conforme todos nós aprendemos na escola.

Por volta de 8 mil a.C, na região onde hoje é o Iraque, os contratos passaram a ser garantidos por uma bola oca de argila chamada bulla. As peças que representavam as transações -- trigo, cevada ou ovelhas, por exemplo -- eram depositadas nessa urna e suas marcas eram registradas no lado externo.

Nada parecido com os contratos de hoje (imagem: Museu do Louvre/Departamento de Antiguidades Orientais)

Assim, ficavam registrados não apenas os produtos usados nas transações, como também as quantidades, representadas por símbolos. Dessa maneira, formava-se uma dupla verificação contra fraudes. Apesar de simples, foi uma medida útil em uma época em que as aglomerações já reuniam milhares de pessoas, e muitas não se conheciam.

Sim, hoje temos tecnologias extremamente sofisticadas, como o blockchain. Mas as bullas foram uma resposta prática e inteligente a uma demanda da sociedade à época; não é à toa que foram amplamente utilizadas e favoreceram também tecnologias mais sofisticadas, como a escrita e as cédulas.

2. Papel-moeda

Medir o grau de riqueza devia ser mais simples em tempos antigos. Bastava saber o número de servos, terras, animais e, para os mais afortunados, ouro, o principal lastro de câmbio até o início do século XX, bem como outros metais preciosos.

Na província de Sichuan, na China, por volta de 1.000 d.C, foi instituído que o ouro e a prata ficariam sob controle do Estado para coibir sua evasão para nações vizinhas e inimigas. Para as transações cotidianas, os comerciantes deveriam utilizar moedas de ferro -- pesadas e de baixo valor quando comparadas com ouro ou prata.

Após a Segunda Guerra Mundial, o papel-moeda passou a ser a representação da força econômica de uma nação (imagem: domínio público)

A solução não foi bem aceita. Então os empresários passaram a utilizar os jiaozi -- que nada mais eram do que notas promissórias, como conhecemos hoje. Essas notas poderiam ser repassadas adiante e, em pouco tempo, ganharam tanta popularidade que passaram a ser produzidas livremente, sem qualquer valor oficial.

Ou seja, era uma versão primitiva dos bitcoins.

O problema é que o lastro dessas notas era a reputação dos vendedores -- ou seja, a promessa de que o dinheiro de verdade seria pago quando a circulação de ouro voltasse a ser liberada. Foi quando as autoridades chinesas decidiram regulamentar a emissão e uso dos jiaozi e proibir os títulos privados. Todos os lados ganhavam: ouro e prata ficavam protegidos contra saques e evasões, além de garantir reservas valiosas, e as pessoas não precisavam transportar baús cheios de ferro.

A inovação foi um sucesso do ponto de vista da usabilidade. Durante o império mongol, o sistema foi mantido: as cédulas eram produzidas a partir da casca da amoreira e carimbadas com o selo do Khan. O mesmo princípio existe hoje: o papel-moeda conta com dispositivos contra falsificações e sua produção é centralizada na Casa da Moeda.

3. Máquina analítica e seus algoritmos

Sem computadores, é impossível imaginar o mundo do trabalho, dos bancos, da ciência e do entretenimento hoje. É fácil lembrar da história dos computadores domésticos, da epopéia da Apple e da Microsoft contra gigantes corporativas como a IBM e Xerox. Ou até mesmo da genial máquina de Alan Turing, que era capaz de decodificar as mensagens dos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial e deu origem às máquinas modernas para uso comercial.

O que nem todos sabem é que o protótipo do computador foi elaborado um século antes, em 1833, pelo matemático britânico Charles Babbage. A máquina analítica, ou um computador mecânico, era capaz de realizar operações complexas; ou melhor, seria, se o projeto tivesse sido concretizado.

Máquina foi finalmente construída em 1991 segundo as instruções de Babbage -- e é completamente funcional (imagem: geni/creative commons)

Devido aos altos custos e à tecnologia incipiente da época, a máquina analítica não saiu do papel. Mas o trabalho de Ada Lovelace, matemática e parceira de Babbage no projeto, deu uma nova dimensão ao universo de possibilidades da máquina: ela criou a primeira aplicação prática -- melhor descrita como uma linguagem de programação.

Seus algoritmos permitiriam à máquina analítica operar valores de funções matemáticas, como os números de Bernoulli. Seu trabalho foi tão relevante para a computação moderna que foram republicados na década de 1950. Embora a condessa de Lovelace nunca tenha experimentado digitar palavras e números em um teclado de computador, ela é considerada a primeira programadora da história.

4. LED

Essa tecnologia percorreu um longo caminho até que chegasse aos faróis do seu carro e à sua sala. Para que as lâmpadas de LED (light emitting diode, ou diodo emissor de luz) fossem possíveis, era necessário provar a possibilidade de gerar luminosidade a partir de materiais inorgânicos percorridos por uma corrente elétrica. O mérito da prova foi do inglês Henry Round, em 1907.

Foi apenas em 1962 que o engenheiro Nick Holoniak, da General Electric, conseguiu produzir a primeira lâmpada de LED, na cor vermelha. O uso mais amplo da tecnologia, a princípio, foi nas luzes indicadoras de funcionamento de vários dispositivos, como ainda existe hoje.

Demorou alguns anos para que fossem criados diodos de LED nas cores verde e amarelo. O diodo de cor azul foi tão difícil de criar que os cientistas envolvidos no projeto, Isamu Akasaki, Hiroshi Amano e Shuji Nakamura, ganharam o prêmio Nobel de Física em 2014. Essa descoberta viabilizou o uso de LED para aplicações como iluminação, um feito inédito.

Ela tem um impacto significativo na sua conta de energia (imagem: Led-neolight/creative commons)

A luz fria é capaz de economizar uma boa quantidade de energia em relação aos métodos tradicionais de iluminação -- lâmpadas incandescentes usam a maior parte da eletricidade para esquentar, e não iluminar. Para se ter uma ideia da escala do avanço, há cerca de 200 anos a iluminação das ruas utilizava óleo de baleia como combustível; dentro das casas, as pessoas se viravam com velas de sebo. É a prova definitiva que inovação garante maior eficiência.




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