Como a gestão de dados pode aumentar a aderência do paciente a tratamentos

A não-aderência aos tratamentos é um problema para toda a sociedade. A tecnologia e a ciência de dados, porém, podem ajudar os pacientes

Renan Pessim, Administradores.com,

Um dos principais desafios do setor de saúde é a aderência dos pacientes aos tratamentos. Estudos da Organização Mundial de Saúde (OMS) mostram que, nos países desenvolvidos, 50% dos pacientes que sofrem de doenças crônicas, como hipertensão, diabetes, depressão, etc, para o seu tratamento logo no primeiro ano, e uma boa parte delas não alcançam nem o segundo mês de tratamento.

As principais razões por de trás da falta de adesão ao tratamento são: esquecimento (23%), efeitos colaterais indesejados (20%) e altos custos (17%). Apesar dos efeitos colaterais serem difíceis de controlar, há uma enorme oportunidade de trabalhar com o esquecimento e os custos, o que resolveria 40% do problema.

Mudar este comportamento dos pacientes representa uma oportunidade de R$ 4 tri para todo o ecossistema de saúde no mundo (Indústrias Farmacêuticas, Retalho, Governo, Prestadores de cuidados de saúde, Médicos, Seguro de Saúde, etc).

Em países em desenvolvimento, a aderência aos tratamentos ainda conta com agravantes como: dificuldades de acesso ao sistema de saúde e ao acesso limitado aos medicamentos. A combinação de todos os fatores cria uma barreira ainda maior para a aderência nesses países.

Isso faz com que a não aderência aos tratamentos se torne um problema para toda a sociedade. A tecnologia e a ciência de dados, porém, podem ajudar muito esses pacientes.

Para a diretora do programa mundial de combate à tuberculose da OMS, Dra. Tereza Kasaeva, “as tecnologias digitais podem ser uma ferramenta poderosa de apoio a pacientes ao longo de sua jornada de cura”. Três tecnologias amplamente disponíveis já mostram resultados concretos nesse sentido: suporte por meio de vídeo, sistemas de monitoramento e mensagens SMS. Mas é possível ir além e obter ainda mais retorno a partir dos dados que indústria, varejistas, hospitais, clínicas e seguradoras têm sobre os pacientes e podem e devem usar a favor dos clientes.

De modo geral, as pessoas não aderem aos tratamentos porque não têm recursos financeiros ou porque decidem ignorar a doença. Quem não conhece alguém com diabetes ou colesterol alto, por exemplo, que decide abandonar o tratamento por algum tempo e, ao perceber que essa interrupção não trouxe nenhum problema de curto prazo, passa a ignorar que sua condição é séria? Tanto na questão financeira quanto para lembrar sobre a gravidade da doença, o uso dos dados do ecossistema da saúde pode fazer uma imensa diferença.

E há um estímulo financeiro para que os participantes da cadeia de suprimentos da saúde organizem seus dados e passem a utilizá-los a favor dos clientes. Um varejista que registra que o paciente adquiriu um medicamento contra diabetes sabe que aquele medicamento será usado continuamente e, portanto, que tal enviar lembretes de recompra para o cliente? Especialmente quando acompanhados de descontos na compra desse item, essa é uma ação que estimula o cliente a voltar a comprar. A saúde do paciente é preservada e o varejista fideliza o consumidor (lembre-se que não é incomum que o cliente busque concentrar em uma única farmácia todas as suas compras da categoria).

É possível também gerar aderência ao tratamento por meio de serviços. O tradicional telemarketing, quando usado com inteligência, pode ser usado pelo médico ou pela clínica para oferecer um suporte adicional ao paciente. Quando uma enfermidade é crônica, o contato pessoal torna-se ainda mais importante, pois o tratamento é longo e o risco de abandono aumenta.

Os exemplos são inúmeros. As Indústrias, varejistas e seguradoras têm à disposição uma grande quantidade de dados sobre seus pacientes. Quer compartilhem essas informações, quer usem de forma independente, elas podem, a partir do entendimento do comportamento de seu público e da adoção de uma abordagem baseada na análise de dados e na tomada de ações a partir dos insights, aumentar a fidelidade do público, ampliar as vendas e, ao mesmo tempo, contribuir para o bem-estar do paciente. A análise de dados abre a possibilidade de aumentar a expectativa de vida da população e oferecer um atendimento pessoal e humanizado.

Renan Pessim é diretor da Unidade de Negócios de Saúde da dunnhumby Brasil