Isso não é testamento, desabafo ou carta de despedida, apenas uma mensagem para gente do futuro. A vida virtual teve sua parcela de culpa no atual mal estar da civilização, não porque imitaria a vida, exatamente pelo contrário. Poderia ter sido a revolução na educação, mas, na prática, especialmente sob as redes sociais, tornou-se apenas o espelho da ilusão, o narcisismo absoluto. Claro que reconheço que tinha potencial, mas a educação de qualidade deveria preceder a criação de instrumentos tão poderosos. Do jeito que esteve formatada nos últimos anos a onda digital deixou sequelas, restringiu perspectivas e tolheu habilidades. Potencial que teríamos alguma chance de ter desenvolvido se ainda tivéssemos acesso a uma vida lúdica fora do mundo cibernético. Parece contraditório mas não é. O cárcere psicológico criado pelo vício da web transformou nossas vidas num falso playground. Baudelaire nomeou o mundo que fica fora do mundo de paraísos artificiais. A globalização do mundo virtual tornou-se uma epidemia pior, de proporcões mundiais. Depois que a rede rostodig se associou aos governos, a informação privada se tornou propriedade dos governos. Foi quase um efeito colateral, um bônus inesperado que essa mania tenha ajudado os Estados a melhor controlar politicamente as pessoas. O resultado prático é que estamos todos fichados. Mas talvez isso nem seja mesmo o pior. A substituição de vivências reais pela sensação de que a vida e os relacionamentos podem ser manejados via wi-fi, falsificou a experiência vital. Os centros de tratamento 'para educar usuários a usar a rede com parcimônia' começaram a aparecer em 2015. Em 2016 estavam já espalhados pelo mundo. Fui internado em vários webcômios e escapei de todos. No último, de segurança máxima, depois de passar dias à fio sendo obrigado por instrutores humanos que falavam como robos a navegar — fiquei limpo por quase dois anos – e também forçado a enviar milhares de mensagens inúteis. Fora ter que voltar a preencher meio milhão de vezes aquela ficha ridícula 'o que você está pensando'. Juro, cheguei a imaginar que eles tinham razão. Para que lutar contra a massa? Sim, devíamos viver dia e noite num mundo idealizado e apartados da realidade. Era isso ou os antidepressivos. Na verdade, para a maioria, os dois juntos. Sim, havia o vazio, a falta do contato físico. E daí? Para que se aborrecer com mazelas sociais, a realidade e a chatice do quotidiano? Depois de uma noite sem ver aquela maldita tela, o velho bibliotecário preso na ala norte, Quino Barra, me arrastou para sua sala de refúgio e me fez acordar do pesadelo com leituras de livros físicos clandestinos que escondia na sala de máquinas descartadas. Dias depois, eu e mais três pessoas, refuses como eu, escapamos para a única zona de exclusão digital que sobrou no hemisfério sul, a 45 kilometros a noroeste da cidade de Manaus. (simbolos ininteligiveis – sinais criptografados?) Hoje, 3 de fevereiro de 2017, e ainda vemos várias gerações completamente à merce dessa tecnoadição. Ninguém se ocupa do perigo político que isso representa. Só lucram os de sempre: donos dos megaoligopólios que detém as ações das redes sociais. O número de internados neste vício tão incurável quanto o jogo é perturbador. Não divulgam, mas pode chegar a quase um bilhão. Podemos fazer muito pouco. Nosso trabalho fica limitado a alertar pessoas. No lugar de mais inclusão, precisamos espalhar zonas de exclusão digital. Lutarei… Paulo Rosenbaum é médico e escritor. Mestre e PhD em ciências, é pós-doutor em medicina preventiva (USP). É autor de “A Verdade Lançada ao Solo” (editora Record). Tem uma coluna semanal em “Coisas de Política”, do Jornal do Brasil