Artigo / Gestão Internacional

Os efeitos da globalização na economia: sua relação com o emprego, a educação e a família brasileira

Tendo em vista as transformações econômicas e sociais em curso, promovidas pelo processo de internacionalização das economias, procuraremos discutir neste artigo os efeitos da globalização e sua relação com o emprego, a educação e a família contemporânea no Brasil. O agravamento da exclusão social no País pode ser inicialmente creditado ao modelo capitalista hegemônico, acentuado nas últimas décadas do século XX. O objetivo geral deste artigo é procurar esclarecer os efeitos da globalização na economia brasileira nas décadas de 1980 e 1990 e sua relação com o emprego, a educação e a família no Brasil. As discussões sobre a organização econômica mundial estão em pauta, principalmente a questão da internacionalização das economias, incorporando neste objeto de estudo o mercado de trabalho, a educação brasileira e os grupos familiares, estudando os problemas econômicos, sociais e políticos, e engendrando uma influente reflexão sobre suas causas e conseqüências para a sociedade brasileira.

Valdec Romero,
Os efeitos da globalização na economia: sua relação com o emprego, a educação e a família brasileira


Artigo Científico Publicado na Revista Eletrônica do Programa Interdisciplinar em Educação, Administração e Comunicação. Pesquisa em Debate - Universidade São Marcos. Os efeitos da globalização na economia: sua relação com o emprego, a educação e a família brasileira. São Paulo: Ano I, n. 1, jul-dez 2004, p. 25-37.


Valdec Romero Castelo Branco

Professor universitário há 20 anos, formado em administração de empresas; mestre em administração de empresas; mestre em educação, administração e comunicação (multidisciplinar); pós-graduação Lato Sensu em Docência do Ensino Superior. Trabalha, desde 1995, como consultor associado, prestando consultoria e assessoria nas áreas de gestão de pessoas: treinamentos, palestras, seminários, workshops, cursos in company etc. profvaldec@uol.com.br


RESUMO

Tendo em vista as transformações econômicas e sociais em curso, promovidas pelo processo de internacionalização das economias, procuraremos discutir neste artigo os efeitos da globalização e sua relação com o emprego, a educação e a família contemporânea no Brasil. O agravamento da exclusão social no País pode ser inicialmente creditado ao modelo capitalista hegemônico, acentuado nas últimas décadas do século XX. O objetivo geral deste artigo é procurar esclarecer os efeitos da globalização na economia brasileira nas décadas de 1980 e 1990 e sua relação com o emprego, a educação e a família no Brasil. As discussões sobre a organização econômica mundial estão em pauta, principalmente a questão da internacionalização das economias, incorporando neste objeto de estudo o mercado de trabalho, a educação brasileira e os grupos familiares, estudando os problemas econômicos, sociais e políticos, e engendrando uma influente reflexão sobre suas causas e conseqüências para a sociedade brasileira.


Palavras-chave: Globalização; Emprego; Educação; Família Brasileira.


ABSTRACT

In view of the economic and social transformations in course, promoted by the process of internationalization of the economies, we will try to discuss in this article the effect of the globalization and its relation with the job, the education and the contemporary family in Brazil. The aggravation of the social exclusion in the Country can initially be credited to the hegemonic capitalist model, accented in the last decades of the 20th century. The general objective of this article is tried to clarify the effect of the globalization in the Brazilian economy in the 80s and 90s and its relation with the job, the education and the family in Brazil. The discussions on the world-wide economic organization are in guideline, mainly the question of the internationalization of the economies, incorporated in this object of study the market of work, the Brazilian education and the familiar groups, studying the economic, social problems and politicians, and producing an influent reflection on its causes and consequences for the Brazilian society.


Key-words: Globalization. Job; Education; Brazilian Family.


INTRODUÇÃO

Em relação à globalização, podemos preliminarmente afirmar que vêm se atribuindo a determinados fatos proporções maiores do que as reais, isto é, alguns fatos aparentam ou são classificados como maiores do que realmente são. A partir disto, podemos nos referir ao excessivo crédito que o fenômeno da globalização exerce sobre as economias dos diferentes países. No Brasil, a partir da década de 1990, com maior intensidade.

Compreender o atual processo de globalização das economias e seus efeitos, em especial nos países em desenvolvimento, é na verdade procurar desvendar, não só ao público acadêmico, mas para a sociedade, a concepção do papel do Estado nesta nova fase do capitalismo pós-Segunda Grande Guerra, representada pelos agentes econômicos: as famílias, as empresas e o governo.

Em virtude da automação, da racionalização dos processos produtivos, do aumento da competitividade das empresas, apresenta-se uma crescente inelasticidade da oferta de empregos em relação ao nível de produção, evidenciando-se a necessidade cada vez menor da utilização do número de trabalhadores para gerar maior quantidade de bens, ou seja, a produção está dissociada do nível de emprego, a produção aumenta extraordinariamente com os ganhos de competitividade, mas os postos de trabalho não aumentam na mesma proporção.

Portanto, ao tratarmos da questão econômica, não podemos deixar de vinculá-la à reorganização do nosso sistema econômico, do sistema educacional e a participação da sociedade no esforço permanente em busca do desenvolvimento do País.

A educação torna-se um importante elo entre o emprego e a família no Brasil, principalmente, porque uma parcela significativa de chefes de família ainda são as principais fontes de renda familiar, lembrando que o termo chefe de família não representa necessariamente o gênero masculino.

Por hora, interessa-nos tão-somente ressaltar que as instituições familiares, integrantes do objeto de nosso estudo, foram apontadas como detentoras de um importante papel social e, como parte de um processo sócio-político dinâmico, poderão reagir às mudanças contextuais atuais e com elas interagir.

As mudanças sociais no País fizeram surgir uma nova realidade às famílias. As transformações que estão ocorrendo, na maioria das vezes sem o conhecimento das partes envolvidas, exigirão cautela na análise das causas e conseqüências da desestruturação ou reestruturação familiar.

A família constitui um ponto de ligação entre os membros do grupo familiar e a sociedade. Sob esta óptica, a família não só interioriza aspectos ideológicos dominantes na sociedade, mas também efetua a projeção em outros grupos dos modelos de relação criados e recriados dentro do próprio grupo.

O PROCESSO DE GLOBALIZAÇÃO DAS ECONOMIAS

Podemos observar que ao final do século XX e início deste, a globalização das economias revela-se através de políticas liberais adotadas por inúmeros governos que vêm atuando sistematicamente a favor do mercado financeiro, dificultando a relação entre a produção e a utilização da força de trabalho.

Devemos aí colocar parênteses. As influências e créditos à globalização reforçam-se e ampliam-se com o uso excessivo da própria palavra que se revela, na verdade, na retórica de governantes – incluam-se aí os do Brasil – como maneira para abrandar e/ou justificar tanto a adoção de medidas impopulares como a inexistência de resultados prometidos ao longo das suas campanhas: crescimento econômico, elevação dos níveis de emprego e inclusão social.

O significado da palavra globalização para os ricos e poderosos é inteiramente específico, foi idealizado de forma particular, significando que a difusão desse processo tem uma única finalidade – servir aos seus interesses, baseado no livre mercado, na flexibilização do sistema financeiro e no fim das fronteiras nacionais dos países emergentes, pobres, periféricos etc. Evidentemente esse processo não se aplica aos países desenvolvidos.

Stiglitz salienta:

Em muitas situações, os benefícios da globalização têm sido menores do que seus defensores apregoam, e o preço pago tem sido maior, já que o meio ambiente foi destruído e os processos políticos, corrompidos, além de o ritmo acelerado das mudanças não terem dado aos países tempo suficiente para uma adaptação cultural. As crises, por sua vez, que trouxeram em seu rastro o desemprego em massa, têm sido acompanhadas por problemas de desintegração social de maior prazo – desde a violência urbana na América Latina até os conflitos étnicos em outras regiões do mundo, como na Indonésia. Esses não são novos, mas a reação cada vez mais veemente no mundo todo contra as políticas que impulsionam a globalização é uma mudança significativa.1

O que deveria ser correto afirmar é que a globalização, ao contrário do que muitos defendem, é a supremacia de um grupo social sobre outros; em outras palavras, estamos assistindo à hegemonia do processo de internacionalização do mundo capitalista. O atual processo de globalização pode ser entendido, de certa forma, como o apogeu da ideologia capitalista.

O professor Milton Santos elucida:

Hoje haveria um motor único que é, exatamente, a mencionada mais-valia universal. Esta se tornou possível porque a partir de agora a produção se dá em escala mundial, por intermédio de empresas mundiais, que competem entre si segundo uma concorrência extremamente feroz, como jamais existiu. As que resistem e sobrevivem são aquelas que obtêm a mais-valia maior, permitindo-se, assim, continuar a proceder e a competir.2

Fica claro na ideologia globalizante em curso que as influências seletivas no processo da comunicação de massa foram largamente utilizadas: as características do comunicador, a capacidade exercida pelo poder da oratória dos defensores do neoliberalismo sobre a multidão, o conteúdo das mensagens com característica intimidadoras e ao mesmo tempo unificadoras. Assim se difunde a inserção do País às novas regras para caminharmos rumo ao desenvolvimento, mas o que estamos assistindo é o inverso: a perpetuação do atraso e a subordinação.

A GLOBALIZAÇÃO E O DESEMPREGO NO BRASIL

O processo de desenvolvimento econômico brasileiro, no início do século XX, já se mostrava desigual, estruturado no modelo de produção capitalista, resultado da colonização e do escravismo. A economia brasileira teve seu desenvolvimento industrial subordinado a poderosos grupos capitalistas internacionais, tornando-se uma "economia dependente", lembrando que esses grupos tiveram suas ações favorecidas no Brasil em função do desequilíbrio gerado pela Primeira Guerra Mundial.3

Hoje o Brasil apresenta uma economia industrializada bastante desenvolvida, apesar de passar por profundas transformações, entretanto sua riqueza encontra-se mal distribuída. O processo de globalização em curso e as políticas econômicas "sugeridas" pelo FMI na última década do século XX no Brasil apresentaram indicadores sociais péssimos, comprovados por meio de uma enorme desigualdade, tanto na repartição da renda como na distribuição espacial da população, e um longo processo de concentração das atividades econômicas.

As profundas transformações tecnológicas reduziram enormes quantidades de postos de trabalho, passando a predominar o produtivismo, que é, a busca contínua por aumentos de produtividade a qualquer custo, sem critérios para a valorização humana, a ética, entre outros.

Vale destacar que uma das exigências impostas pelo novo paradigma tecnológico e de gestão empresarial está voltada à produção de bens e serviços com elevada carga de qualificação aplicada; isto requer uma mão-de-obra rápida e eficiente capaz de sobreviver em um mundo cada vez mais competitivo.

O que se nota é a intensificação na precarização do mercado de trabalho, aumentando a participação dos postos de trabalho informais no total das ocupações no País, associada à instabilidade nos contratos de trabalho com a presença de maior rotatividade nos empregos, e ameaçada também pela terceirização e pela subcontratação. O desafio maior que se apresenta hoje nas sociedades capitalistas é buscar um caminho com a finalidade de conciliar os interesses sociais e os interesses das empresas contemporâneas, que vêm, ano a ano, introduzindo cada vez mais novas tecnologias e novos métodos de gestão empresarial nos seus processos produtivos, com a finalidade de sobreviver e crescer em um ambiente de grandes mudanças e de elevada competitividade como o atual, atribuído ao fenômeno da globalização.

A GLOBALIZAÇÃO E O PAPEL DA EDUCAÇÃO NO BRASIL

Tratar do assunto educação não é apenas falar de escola, é defender prioridade absoluta para a educação e abordar vários temas que mostrem as inter-relações entre o problema educacional e os vários problemas sociais, políticos e econômicos, uma vez que há uma identidade muito grande entre educação, emprego e família.

O mercado estimula os jovens a obter maior grau de escolaridade, pois, "de acordo com a ideologia da mobilidade social, a única maneira de ser bem sucedido em uma meritocracia é conseguir o máximo de escolaridade que se possa"4.

Ao longo de séculos, os conhecimentos existentes vêm sendo difundidos por meio da educação, incorporando-se novas parcelas de inovações tecnológicas. A acelerada capacidade na geração de conhecimentos à disposição do homem leva à necessidade de enormes investimentos nos recursos humanos. Podemos caracterizar como "investimentos não-materiais"5 os imensos investimentos na capacitação dos recursos humanos da nação, e a educação, mais do que nunca, surge com uma força potencial de transformação.

Devemos destacar a ação do educador na recuperação do universo da práxis humana, pautada pelos valores éticos. Refletir a respeito das noções e dos princípios que fundamentam a vida moral: o mito do progresso e o apelo à produtividade e à competitividade, destacadamente num momento marcado pelo pragmatismo técnico-organizacional.

A inversão de valores na sociedade brasileira passa pela clara compreensão de que somente a educação criará condições para fazer do Brasil "um País fácil de governar, difícil de dominar e impossível de escravizar"6, com um projeto nacional que amplie o grau de alfabetização do povo, baseado na ética do trabalho e no aprendizado em conjunto, num comportamento ordenado que coloque o bem-estar do grupo acima do bem-estar individual.

A escola tem importância singular no desenvolvimento das condições de crescimento da economia, e é evidente que cabe ao Estado conceder uma política educacional apoiada antes de tudo no ensino básico de qualidade no Brasil, e qualquer outro pensamento suscitará uma discussão estéril perpetuando a pobreza e os desníveis sociais. Mas, o processo de globalização parece não dar sinais de ruptura no Brasil com o secular desprestígio, desvalorização e desrespeito com os professores e alunos e a própria nação brasileira.

Aranha salienta:

Apesar de pertencer ao mundo do trabalho, a escola deve dar condições para que se discuta criticamente a realidade em que se acha mergulhada. Ou seja, para exercer sua função com dignidade, precisa manter a dialética herança-ruptura: ao transmitir o saber acumulado, deve ser capaz de romper com formas alienantes, que não estão a favor do homem, mas contra ele.7

O potencial humano representa, sem dúvida, a grande alavanca que assegura o desenvolvimento da economia. Portanto, o valor do potencial dos recursos humanos de uma nação depende de sua situação. As crescentes pressões dos jovens que desejam melhor situação social e profissional conduzem, não raro, à opção do Brasil tender a oferecer o ensino de massa, que ao invés de qualidade, atende apenas à exigência da quantidade.

AS TRANSFORMAÇÕES NAS FAMÍLIAS BRASILEIRAS E A GLOBALIZAÇÃO

Para Bilac8, os conceitos e modelos de reprodução da família, bem como dos grupos familiares, deve exigir muito cuidado por parte dos pesquisadores. Aceitando-se a hipótese de que prevalecem nas sociedades contemporâneas, com maior ou menor força, modelos básicos de reprodução humana a que chamamos "família"9, é preciso ter bem claro que esse modelo reprodutivo não corresponde a uma família em geral, e na sociedade contemporânea freqüentemente não se realizará da mesma forma em todas as organizações e segmentos sociais.

A redução dos índices de crescimento populacional no Brasil deu-se sob uma complexa conjuntura política e econômica, durante as décadas de 1960 e 1970, que por interesse tomou o controle demográfico como estratégia. Mesmo considerando a política de controle da natalidade, a princípio, pelo seu caráter compulsório, não se pode deixar de atribuir à educação um papel importante na queda do índice demográfico.

As mulheres brasileiras, a partir dos anos de 1960, promoveram a ruptura com o antigo e exclusivo papel social que lhes era conferido – o de ser mãe e rainha do lar. Gradualmente ampliaram a sua inserção no mercado de trabalho, dilatando desta forma a sua cidadania.

Com um controle mais eficiente e eficaz da fecundidade, a anticoncepção passou a ser aspiração e desejo das mulheres.

As transformações nos anos de 1960 não ocorreram apenas nas comunicações, as mulheres brasileiras iniciavam um processo de ruptura do modelo clássico do papel social que lhes queriam impor, o de mãe e rainha do lar. Com a participação da mulher no mercado de trabalho cresceu, o seu desejo de livremente controlar a fecundidade. Também as mulheres ampliaram suas aspirações de cidadania, além do papel de mãe.

As transformações socioculturais levaram a uma redução da taxa de natalidade, alterando valores e desejos no contexto familiar, somando-se a isso as perspectivas de ascensão no mercado de trabalho, que proporcionaram a ampliação dos papéis tradicionalmente atribuídos às mulheres, para além do papel de mães, expandindo as perspectivas de inclusão de um projeto profissional como parte do seu projeto de vida.

Em relação à reprodução humana, nos grupos sociais deve ser claramente entendida, por exemplo, que nas famílias pobres não é a quantidade da prole a causa da perpetuação da pobreza, mas é evidente que um número elevado de filhos traz enormes dificuldades.

O que perpetua a reprodução dessas classes não é a pobreza, e sim o preconceito, o abandono do poder público e as condições socioeconômicas adversas.

A reflexão sobre o individualismo e as mudanças na caracterização familiar, hoje, tem um denominador comum – a extraordinária rapidez nas mudanças ocorridas, tanto no interior das famílias como nos aspectos políticos, econômicos e sociais, principalmente a partir dos anos de 1930 no Brasil.

Atualmente a institucionalização de novas formas de relações familiares, juridicamente aceita ou não, é composta por um todo, porém com elementos diversos. Manifesta-se aí um importante elemento de pesquisa, possibilitando entender as transformações na organização dos grupos familiares; além do mais, possibilita compreender o caráter fundamental dos membros que compõem essas novas formas de organização e os impactos causados sobre o cotidiano.

A noção geral sobre família ainda recai sobre o modelo de família nuclear burguesa, composto por pai, mãe e filhos convivendo em uma casa, determinado principalmente pela relação mãe-filho e o desenvolvimento emocional do filho, cabendo ao pai promover o sustento do lar.

É interessante ressaltar que os modelos familiares passaram por enormes transformações ao longo do tempo: as mudanças estruturais que determinaram novos grupos familiares, que se distanciaram do modelo nuclear e foram fortalecidas pelos movimentos em favor da mulher, fazendo com que o homem deixasse de representar na família o poder exclusivo sobre o grupo e sua única fonte de sustento.

As alterações na organização da família essencialmente estão acontecendo desde as mudanças no modo de viver das mulheres, em particular das esposas (companheiras), que se tornaram provedoras de rendimentos, contribuindo na constituição do orçamento familiar.

Essa nova condição feminina afetou também, os papéis masculinos, necessitando uma revisão no estudo de gênero na família a fim de reorganizar os papéis sexuais familiares materializados em novos sentimentos, vivências e percepções masculinas, ou seja, o novo papel do homem na família, não mais como patriarca ou o único provedor de sustento da mesma.

A emancipação da mulher evidentemente trouxe mudanças na estrutura familiar, mas houve um grave erro nesse processo. Criou-se uma confusão entre os excessos promovidos pela autoridade do tipo tradicional e a prática ou desempenho na avaliação legítima, e na aprendizagem necessária à autoridade na nova ordenação da família. Esse processo levou a um afrouxamento socialmente consentido dos costumes, permitindo às crianças ficarem sem limites preestabelecidos.

Porém o que vemos neste início de século é a ausência de autoridade, acentuada pelo temor dos pais modernos de criar "neuróticos e reprimidos"10, permitindo às crianças enaltecerem sua natureza narcisista, não desenvolvendo nelas uma consciência solidária e coletiva, pelo contrário, alimentando o individualismo, não se respeitando as normas de convivência.

Com o intuito de equacionarmos esse problema, a família não deve ser tratada apenas como um agente econômico, mas deve ser vista e tratada como agente revigorador na sua função socializadora, ressaltando o papel que deve adotar, isto é, que exerça autoridade e saiba definir limites às crianças e adolescentes. A família precisa estar empenhada na socialização de seus membros e assegurar vínculos relacionais dispostos de modo a evitar o dano causado pelo isolamento social decorrente da inexistência de ocupações regulares.

CONCLUSÕES

Ao tratarmos neste artigo dos aspectos econômicos, em especial do atual processo de globalização das economias e de seus efeitos na economia brasileira nas décadas de 1980 e 1990, relacionando-o com o mercado de trabalho, a educação e as famílias, podemos afirmar que esse processo vem dia a dia ampliando o desprezo à ética, à solidariedade, e ao mais simples sentimento de felicidade, o respeito à vida.

A globalização privilegia a intensificação dos valores e vantagens individuais, tornando- se as pessoas resumidas a um sistema que consideram todos os acontecimentos como irrevogavelmente fixados de antemão por uma causa única e irreversível. O cotidiano das pessoas consiste em adquirir cada vez mais o poder de consumo, capacitando-as a obterem mais e mais quinquilharias tecnológicas, caminho do sucesso e felicidade.

A sociedade da maneira como está hoje articulada não poderá sobreviver sem formas mais avançadas de organização social, capazes de alterar os interesses corporativos sob o rótulo de economia de mercado ou, como preferem alguns, neoliberalismo, aí sim, podemos afirmar que os resultados dessa destruição têm um impacto universal e irreversível.

É lícito concluir que o atual processo de globalização internacionalizou as economias, movimentando trilhões de dólares diariamente de um mercado a outro, com bilhões de dólares transferidos anualmente dos países pobres e em desenvolvimento aos países ricos, porém não há um poder capaz de organizar uma compensação efetiva para a demanda social dos países periféricos, cabendo exclusivamente a eles gerenciar o controle social de suas populações.

A questão demográfica dependerá da forma concreta que assumirá a organização da sociedade brasileira; portanto, a organização política deve sofrer uma ruptura no modelo colonialista que criou um sistema político, impressionantemente, enredado por uma infinidade de instituições que têm o poder de decidir sobre a vida das pessoas, e na maioria das vezes, são dirigidas por gestores que não conhecem e não têm poder de decisão sobre as realidades que efetivamente enfrentam.

A ideologia do capitalismo impede, pelas próprias regras de eficiência e eficácia, que se possa refletir sobre valores, princípios ou padrões sociais que priorizem o coletivismo em lugar do individualismo, e a organização de uma sociedade baseada na construção de uma comunidade fundamentada no compromisso e na compaixão. Os valores para os capitalistas têm a denominação comum a quaisquer títulos públicos ou privados, e a outros bens facilmente realizáveis em dinheiro.

A sociedade global desarticulou a família e a solidariedade deixou de ser assunto de coração; os sentimentos não são mais gerados naturalmente, amor virou sinônimo de sexo, sucesso passou a ser a capacidade que um indivíduo tem de superar o outro, a relação ganha-perde se sobrepõe ao ganha-ganha.

Dessa maneira, o individualismo ultrapassa o coletivo, as ações tornam-se alvos do interesse individual, fomentando a racionalização e a competição sem limites. Pior, estamos impotentes e inertes diante desta bestificação da sociedade, e para reverter esse processo as soluções têm de passar por um profundo reentrelaçamento do tecido social.

Pode-se concluir que um dos fatores que levaram à desestruturação do mercado de trabalho, com a redução sistemática do emprego assalariado formal e o crescimento das ocupações precárias, tem suas raízes no abandono do projeto de industrialização nacional, resultado da falta de investimentos nas décadas de 1980 e 1990 em infra-estrutura, e da entrada numa fase de especialização competitiva desde a acelerada abertura comercial e a flexibilização do sistema financeiro no Brasil.

Um outro traço marcante dessa nova era é quanto à falta absoluta de instrução, em vez do analfabetismo tradicional determinado nos séculos XIX e XX pelo não-conhecimento ou ausência na capacidade de ler e escrever, requisitos mínimos para se obter um conhecimento pleno; está surgindo, concomitantemente, um outro tipo de analfabetismo: o de analfabeto digital decretado pelas mudanças técnico-informacionais.

Analisando os aspectos econômicos no mundo contemporâneo, podemos afirmar que propiciaram graves mudanças à estrutura familiar, destacando-se a perda do sentido de tradição, que vem sendo desdenhada.

Os aspectos econômicos tornam-se mais relevantes nas atuais estruturas familiares, nas quais o amor, o casamento, a família, a sexualidade e o trabalho, antes preestabelecidos na família, passaram a ter um papel centrado no individualismo.

Devemos explicitar que não são as mulheres as autoras ou cúmplices do individualismo, porquanto os aspectos econômicos baseados na ideologia capitalista, sem dúvida, são os grandes impulsionadores dessa condição humana. Contudo não se pode negar que a emancipação da mulher veio a contribuir para as transformações na sociedade, seja na prática social e política, seja de caráter privado ou público.

A questão educacional no Brasil e suas origens históricas estão ligadas diretamente às formas do poderes econômico e político estabelecidos desde o domínio dos portugueses.

As causas do desemprego, por exemplo, não podem ser apenas explicadas pela desestruturação, pobreza ou condições das famílias. O sistema educacional tem forte influência nas condições socioeconômicas familiares, e a raiz desse problema está na desconsideração das diferenças étnico-culturais.

A família constitui uma das interposições entre os membros do grupo familiar e a sociedade. Desta perspectiva, as famílias não só interiorizam os aspectos ideológicos dominantes na sociedade, mas também efetuam a projeção em outros grupos de modelos de afinidade criados e recriados dentro do próprio grupo.

Deve-se evitar a valorização demasiada do passado, que defendia sobremaneira a autoridade paterna, cabendo à mulher e aos filhos uma obediência sem contestação; também não se deve responsabilizar a mulher como elo desagregador da família, por sua inserção no mercado de trabalho, nem acreditar que a família é dispensável na sociedade contemporânea.

NOTAS

1. STIGLITZ, Joseph E. A globalização e seus malefícios: a promessa não cumprida de benefícios globais. São Paulo: Futura, 2002, p.35. Joseph E. Stiglitz é um dos mais respeitados economistas e pesquisadores sobre crescimento e desenvolvimento no Terceiro Mundo e outros temas da área de economia. Passou sete anos em Washington como chefe do Conselho de Consultores Econômicos do governo do presidente Bill Clinton e como economista-chefe e vice-presidente sênior do Banco Mundial. Foi um dos três ganhadores do Prêmio Nobel de Economia de 2001, e atualmente é professor da Universidade Columbia.

2. SANTOS, Milton. Por uma outra globalização. 3. ed. Rio de Janeiro. Record, 2000, p. 29-30.

O professor Milton Santos era geógrafo, professor emérito da Universidade de São Paulo, ganhador do Prêmio Internacional de Geografia Vautrin Lud em 1994 e autor de mais de 30 livros e 400 artigos científicos, publicados em diversos idiomas.

3. ALENCAR, Fancisco. História da sociedade brasileira. 2. ed. Rio de Janeiro: Ao Livro

Técnico, 1981, p. 214.

4. CARNOY, Martin. Educação, economia e Estado: base e superestrutura – relações e mediações. 4 ed. São Paulo: Cortez, Autores Associados, 1990, p. 77-78.

5. ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. Filosofia da educação. São Paulo: moderna, 1996, p.23.

6. PIMENTA, Aloísio. Educação e cultura: a construção da cidadania. São Paulo: Unimarco,1997, p.14.

7. ARANHA, op. cit., p.26.

8. BILAC, Elisabete Dória. Família: algumas inquietações. A autora é doutora em Ciências

Humanas pela Faculdade de Letras e Ciências Humanas da USP, professora aposentada do Departamento de Sociologia da Faculdade de Ciências Humanas da Unesp-Araraquara, coordenadora de investigação do Programa Latino-Americano de População (Prolab) junto ao Nepo-Uicamp. In: CARVALHO, p. 35.

9. Neste nível de abstração, a família poderia ser concebida como: estrutura particularista de relações entre sexo e gerações organizadas pelo princípio do parentesco (consangüíneo e aliança), implicando em direitos e deveres recíprocos e vínculos de poder e também de dependência afetiva, econômica e social entre seus membros. Idem.

10. ARANHA, op. cit., p. 61.

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