Introdução A evolução da administração hospitalar está diretamente relacionada a história dos hospitais e da medicina. Os hospitais no Brasil, como em qualquer outro país, foram administrados por religiosos, médicos, enfermeiros ou pessoas da comunidade, devido ao fato de não serem vistos como uma empresa e sim como uma 'instituição de caridade'. Nem sempre o gestor conhecia a prática hospitalar, nem as técnicas de gerenciamento, pois a escolha ocorria de forma empírica. Na verdade, não existia a figura do gestor, mas, sim, a função de manter a estrutura física e de cuidar das despesas com os poucos recursos existentes. Não se pretende afirmar que o hospital só deva compor seu quadro de gerentes com administradores hospitalares, porém o profissional que for exercer função administrativa, deverá estar consciente da complexidade que é requerida a prestação do serviço na área de saúde. O presente momento da Gestão Hospitalar no Brasil, principalmente se levarmos em consideração os hospitais, clínicas e demais segmentos privados, cumpre com o papel de transformar o cargo, dentro das instituições de saúde privada, em uma exímia administração com visão sustentável e expansão para grandes redes, com abrangência regional, nacional e até mesmo internacional. Não se adapta mais no segmento de saúde uma gestão que não disponha de conhecimentos técnico e científico para a atuação. Para que se obtenha bons resultados, muitas vezes é necessário que sejam adotadas medidas que nem sempre estarão de acordo com a maioria dos envolvidos. Esse cenário de mudança vem sendo corroborado pelos processos de Certificação de Aferição da Qualidade por Institutos Nacionais e Internacionais que capacitam um serviço diferenciado, com maior qualidade e segurança para seus usuários, e a redução de despesas decorrentes de práticas erradas. Ser acreditado é seguir uma padronização sempre se preocupando com a qualidade em tudo o que faz para evitar a ocorrência de danos à saúde. Administradores que visam por estas certificações em sua gestão, levam a empresa para um para um processo de excelência na prestação de serviços e resultados. A atuação do Administrador na gestão privada vem passando por grandes transformações. A principal mudança ocorre em razão de uma competitividade cada vez mais acirrada, sendo necessário que o profissional esteja atento aos movimentos e tendências do segmento. A expansão de serviços de saúde seguidos da gestão privada tem exigido que os administradores busquem sempre atualizações na área, para que possam enfrentar as transformações que ocorrem no setor de saúde privado. As grandes expectativas estão sobre os futuros gestores, que buscam uma especialização minuciosa e, por vezes específica, para atender uma forte demanda voltada para cada segmento da área. Perfil do Administrador Hospitalar A complexidade da administração hospitalar exige uma direção bem preparada, com grande capacidade de liderança, habilidosa, pró-ativa, com autoridade, sensata e que haja com base em princípios e valores éticos, pois o administrador hospitalar não pode ser um tecnocrata eticamente neutro. Isso faz da administração hospitalar um trabalho complexo e com uma vasta gama de componentes, como poucos outros. O diretor é, antes de mais nada, um coordenador de pessoas, esforços, grupos, atividades e tecnologias que, graças ao manejo eticamente correto e profissional das relações humanas, conduz todo o pessoal a um compromisso com a filosofia, as estratégias, as metas e os objetivos da organização. “Os administradores não podem ser líderes efetivos com um desempenho apenas mínimo; para tanto, devem configurar exemplos de excelência” (FLOWER, 1991a; DAR, 1993, MALAGÒN-LODOÑO E COL., 1996, apud. ZABOLI, 2002, p. 44). Como todos os administradores, os da área hospitalar também estão sempre às voltas com a urgência da tomada de decisões, devendo saber quando decidir rapidamente e quando uma decisão pode ser adiada ou talvez nem tomada. Nesse envolvimento cabe ao administrador desde as decisões referentes às obras e reformas, objetivando uma planta física funcional que permita um fluxo adequado às atividades de cada área, até as que dizem respeito ao cuidado na formulação das diretrizes necessárias, pois muitos são os erros cometidos em decorrência da falta de diretrizes ou excesso. E o administrador deve ter sempre presente que suas decisões trazem implicações para os pacientes, as equipes, a organização e a comunidade. A finalidade do trabalho de um administrador hospitalar, como integrante da alta administração de uma organização social com características empresariais, consiste em alcançar resultados positivos que possam ser mensurados econômica e médico-assistencialmente, a fim de garantir o funcionamento, presente e futuro, da instituição. Com o intuito de atender a aquela finalidade, deve lançar mão das ferramentas administrativas para revisar resultados, identificar necessidades, corrigir erros, reprogramar atividades e promover mudanças, tendo sempre presente que sua atuação e seu estilo administrativo constituem exemplos de disciplinas, trabalho, liderança e ética. Desafios para o profissional de Administração na Gestão da Saúde no setor privado Não é só a alteração do perfil mercadológico, o nível de especialização do administrador nesta área vem se modificando ao longo do tempo, com dedicação exclusiva à atividade administrativa. Nosso país apresenta dimensões continentais e isto causa distorções em todos os segmentos, com a formação de profissionais dos mais distintos graus de competência. É imprescindível para o administrador que atue em hospitais, clínicas ou demais áreas da saúde possuam uma formação sólida, seguindo os princípios da ética administrativa, da ética médica e da justiça social. A partir daí é desenvolvido os preceitos da sustentabilidade e da gestão em busca da perenidade institucional. Devido ao envelhecimento da população e o avanço tecnológico os custos são progressivos e crescentes no âmbito da atenção à saúde. Futuramente, será necessário adequar novos custos e novas necessidades sem alterar o equilíbrio e a sustentabilidade do sistema. Instituições que possuem visão de futuro e um bom gerenciamento, conseguem manter suas taxas de sucesso sempre crescentes. Saber controlar gastos e suprimentos, evitando desperdícios de materiais e a reposição do estoque, além de observar o controle de custos diariamente, checando o faturamento para que todo processo realizado seja cobrado de maneira assertiva evitando a glosa, fazem parte da rotina de um bom administrador. Para facilitar este processo e garantir que tudo ocorra como o planejado, é importante dispor de todas as informações em um sistema muito bem estruturado. Este sistema irá gerar indicadores que pautam a percepção dos administradores (gestores) sobre eventuais ajustes em sua gestão, como melhorias no sistema de ocupação de leitos e tempo médio de permanência do paciente, acompanhar também o atendimento da recepção ao cliente e permite incluir controles por setores, regras e fluxos do trabalho, reduzindo assim a taxa de erros e diminuindo a taxa de glosa em 8%, proporcionando melhor conhecimento dos rendimentos da instituição para diminuir os custos e aumentar a produtividade e a qualidade do atendimento. Estas mudanças indicam a necessidade de se pensar formas alternativas de gerenciamento em saúde. Para responder às demandas da problemática advinda do processo assistencial e, paralelamente, às demandas do processo gerencial, há que se rever e recompor os modelos de gestão, bem como as competências inerentes à formação de profissionais administradores. Torna-se assim imperativo que todo um processo de tomada de decisão seja implantado e que, através do planejamento, da execução e do controle, possam os administradores qualificar seus serviços a custos previsíveis, atenuando todo elenco de conflitos que são inerentes à instituição. É a criação de uma nova arquitetura organizacional para buscar vantagem competitiva num mundo incerto. A resposta está nos desenhos flexíveis, usados como vantagem competitiva. Executivos gerentes e funcionários mudam a forma da organização sempre que precisam adequar-se ao ambiente externo. O sucesso para este impasse acaba se apresentando na capacidade que as pessoas da organização têm em ´´aprender a aprender “o novo e a desaprender o passado, o obsoleto, ou seja, passa fundamentalmente por uma reconceitualização dos modelos mentais de cada indivíduo, refletindo, por conseguinte, na própria mudança de atitude da organização enquanto instituição constituída. Ser administrador hospitalar é uma função complexa, além de todas as atribuições, este passa parte significativa do seu tempo negociando. A negociação interna abrange os funcionários e os profissionais. Exteriormente, negocia com as entidades tomadoras dos serviços do hospital (seguradores, convênios ou o Estado), com os órgãos reguladores e com os grupos de planejamento, entre outros. A verdadeira negociação significa chegar a um acordo mútuo entre as partes envolvidas, o que exige do administrador empenho em soluções criativas para os conflitos que enfrenta, ou seja, ele deve mover-se de uma situação “ganha-perde” para um resultado final “ganha-ganha”. Como para todo o gestor, a eficiência é indispensável ao administrador hospitalar, pois somente por meio dela, ou seja, de iniciação, integração, facilitação e apoio, o dirigente será capaz de implementar mudanças institucionais e sociais que levem a melhoria no acesso e na qualidade da atenção à saúde e à contenção de custos. Segundo dar, propiciar melhor acesso aos serviços de saúde é uma das grandes contribuições do administrador hospitalar: Ser eficiente na organização e prestação dos serviços é a maior contribuição que os administradores hospitalares podem fazer; o resultado será mais acesso e viabilidade da atenção à saúde para todos os segmentos da sociedade. Não há nenhuma contradição entre eficiência e qualidade (DARR, apud. ZOBOLI, 2002, p. 41). Análise interessante é feita por Lima; Barbosa (2001, p. 40) que considera a organização hospitalar como “[…] uma empresa de multiprodutos, com vários processos de produção altamente interdependentes, cujos produtos se articulam para a produção de seu principal produto, qual seja, o diagnóstico e tratamento do paciente”. A necessidade de transformação nas organizações de saúde está gerando o aparecimento de um novo tipo de gestor: o gerente profissional, voltado para a melhoria da qualidade, focada nos desejos e anseios dos clientes com vistas a aumentar a procura dos mesmos por serviços prestados pelo seu hospital, com benefícios para a eficiência e a qualidade da assistência médica (NEIRA (2000, p.25) . É preciso estar consciente de que os hospitais e clínicas são instituições com estrutura pública ou particular com finalidade também de ensino e pesquisa; é um lugar de contraste emocional, de nascimento, alívio ou morte; os serviços são pessoais, porque não existe a enfermidade, existe o enfermo; a autoridade médica é maior que a administrativa; o pessoal que trabalha é heterogêneo e de nível universitário; nunca se encerra o serviço, deve-se contar com pessoal para trabalhar 24 horas; é de difícil medição e interpretação, pois não dá para medir quanta saúde se tem obtido, mede-se quantas cirurgias e quantas consultas; e muitas unidades trabalham provocando déficit econômico, mas não podem ser desativadas. Outro desafio encontrado pelo administrador no setor de saúde privado é a crise econômica, com o fim da hiperinflação, por exemplo, as empresas de saúde, como muitas outras, pararam de ter ganhos no mercado financeiro, e foram obrigadas a investir mais na profissionalização do setor, apesar de continuarem a ter suas perspectivas de expansão favorecidas pelo sucateamento e pelo atraso tecnológico da rede pública. Mas a estagnação econômica posterior, com a consequente perda de poder aquisitivo da classe média, fez muitos clientes trocarem seus planos pelo sistema único de saúde.Com isso, mais de sete milhões de pessoas deixaram o sistema de saúde privado, e aquelas que permaneceram passaram a representar, no mínimo, uma seleção de risco. Neste momento em que vivenciamos a retração do setor, nenhum dos atores da cadeia quer ter sua liberdade de escolha ou de trabalho limitada. Administradores, pacientes, médicos, laboratórios e hospitais estão insatisfeitos tanto com o que é cobrado quanto com o que é pago. Além disso, os controles exagerados e a baixa rentabilidade desestimulam os investimentos no setor. Além desses problemas, o administrador ainda tem que lidar com muitas distorções ocasionadas pelo sistema privado de saúde e vícios antigos, por exemplo, o modelo de atenção à saúde vigente no país facilita e financia o tratamento dos pacientes que não se cuidam como deveriam e passam a usar o sistema de forma imoderada. Também existem problemas na rede de atendimento, que encontra meios de produzir cada vez mais prestações de serviços, numa atitude difundida entre clientes e prestadores segundo a qual as relações com um plano de saúde só serão vantajosas desde que seja possível 'aproveitar-se' do sistema. Com a queda nos salários da população e o aumento dos preços dos planos de saúde, os custos médicos se avolumam, mas o reajuste das mensalidades dos planos individuais está sob regulamentação da ANS e tem ficado muito atrás dos custos da saúde e dos principais índices de inflação. Isso tudo implica em: elevação contínua dos custos, tentativas inócuas de controle, reajustes de custos acima dos reajustes de salários, glosas de difícil justificativa, liminares na justiça, queixas nos órgãos de defesa do consumidor, desgaste nas relações entre todos os envolvidos e tendência dos legisladores a multiplicar regras e controles.O Brasil é um dos maiores sistemas de saúde privada do mundo e um dos R$ 500 bilhões gastos com saúde em 2013, R$ 260 bilhões vieram de despesas particulares, tanto não reembolsáveis como dos planos de saúde. Para ter uma ideia mais clara, estes valores representaram um gasto médio em saúde de 13% em 2013 o que representou cerca de 10% do PIB no ano de 2015. Em 2016, as consultas emergenciais aumentaram de 65% para 78%, sendo que 3% das internações que ocorreram nesta época partiram destes atendimento. O constante aumento do custo direto dos planos de saúde, ocasionado por inúmeros fatores, o aumento sistemático dos índices de sinistralidade, na limitação de oferta de profissionais para a atenção básica e de algumas especialidades, bem como o modelo de contratação e prestação dos serviços, o aumento da demanda decorrentes da codificação de enfermidades antes letais , da longevidade e da oferta decorrente da sofisticação tecnológica nas áreas de diagnóstico e terapêutica, vem exigindo o uso de estratégias e tecnologias que o controlem, e a não menos importante redução dos custos indiretos, para a manutenção dos preços relativos. Médico x Administrador Dizer que hospitais/clínicas não devem ser administrados por um profissional administrador e sim somente por um diretor clínico (médico) é uma visão equivocada. Talvez pela ideia antiga do viés destas entidades, muitos acreditam que estes estabelecimentos seria, no mínimo, complexo demais para serem gerenciados com as ferramentas administrativas e de gestão em uso. De fato, são organizações que apresentam uma série de particularidades que devem ser pormenorizadamente estudadas a fim de possibilitarem uma compreensão mais ampla. Embora o médico seja um profissional imprescindível nas instituições da saúde e apto a promover as relações humanas e práticas públicas de saúde, faltava a este profissional a técnica administrativa para o bom desempenho das instituições. De forma alguma estaria menosprezando estes profissionais, muito pelo contrário, conheço excelentes Administradores hospitalares e excelentes médicos Gestores, porém, na maioria das vezes estes profissionais não são treinados adequadamente para as funções Humanas e Administrativas que são necessárias ao gestor hospitalar. Para que este processo funcione de maneira eficaz seria necessário agregar os dois profissionais, tanto o administrador quanto o médico, pois os dois seriam um complemento na gestão. O médico tem todo o embasamento do que seria necessário na parte da saúde como aparelhos, materiais necessários para o consultório, compras de medicamento e necessidades do corpo clínico bem como o acolhimento dos pacientes, o administrador entraria neste caso, com a parte burocrática, realizando negociações com clientes, fornecedores e expandindo os negócios bem como buscando melhorias na parte administrativa como treinamento dos colaboradores, melhorias na área de atendimento, busca pelas certificações tanto internacionais quanto nacionais, contratação de novos funcionários, entre outros. Nesta visão unificada podemos aliar a experiência de dois profissionais pois teremos o apoio clínico e o administrativo trabalhando juntos para o crescimento empresarial e desmistificando a crença de que somente o médico seria o melhor para administrar um estabelecimento na área de saúde ou de que somente o administrador seria o mais recomendado para exercer esta gestão. Conclusão A competitividade do mercado acaba trazendo novos desafios para o administrador, um deles é manter uma gestão ética, fazendo com que toda equipe permaneça engajada, com uma visão empreendedora, ofertando aos pacientes um atendimento diferenciado, que consiste em dedicação e qualidade elevada. Como se pode perceber na literatura dos autores transliterados acima, a administração sempre se interpõe entre a organização e seus objetivos, ou seja, uma variável interveniente. Os problemas são inúmeros, e os desafios do sistema de saúde privado são muito elevados: precisa adaptar-se à nova realidade demográfica e epidemiológica, ampliar a oferta de atendimento e criar ações e atividades de educação e promoção da saúde. E, ainda, manter-se economicamente viável. As clínicas e hospitais privados necessitam de um modelo de gestão inovador e administradores capacitados que compreendam todas as variantes que esta complexa atividade tem, além de fazer com que a organização preste os serviços a que se propôs da forma mais eficiente e eficaz possível. Deve-se aumentar o acesso da população aos tratamentos, entender a preocupação com a saúde nas classes baixas, médias e altas e atender a demanda por mais qualidade na prestação deste serviço. Acredito que uma das primeiras medidas em busca do aumento dessa eficiência será a implementação de um atendimento primário para selecionar a demanda dos pacientes evitando procedimentos desnecessários proporcionando um corte de custos significativo e evitando um desgaste por parte do paciente. Em conjunto desta busca por excelência no atendimento, os prestadores devem ter em igual nível de prioridade a eficiência operacional, medidas como fechamento de unidades, formação de centros de excelência especializados, monitoramento de processos e rotina dos pacientes nas instituições devem ser aplicadas como forma de reduzir a necessidade de investimentos. Outro ponto que garante um atendimento eficiente aos pacientes sem prejudicar a rentabilidade das clínicas e hospitais e que os administradores deveriam estar atentos é a medicina preventiva. Ao proporcionar serviços integrados que vão além do episódio agudo, os prestadores podem aumentar o portfólio de serviços oferecidos em unidades com infraestrutura mais simples, a fim de rentabilizar o investimento. No longo prazo, apenas os modelos de negócio transformadores serão capazes de capitalizar as novas ondas de crescimento da indústria de saúde e, ao mesmo tempo, garantir a sustentabilidade em custos. O futuro do setor certamente passará por uma maior colaboração entre governo, prestadores de serviços e pacientes.