A CONTABILIDADE E A CRISE MUNDIAL Podemos afirmar, sem medo de errar, que a crise mundial decorre de duas obras da engenharia financeira, são elas: os derivativos e as securitizações. Há uma entidade no mundo chamada 'Global Derivatives Study Group' a qual, em julho de 1993, escreveu: 'apesar de a concepção sob a qual os derivativos se baseiam ser simples, eles são flexíveis e poderosos: uma contraparte exposta a um risco indesejado pode transferir este risco a outra contraparte, assumindo assim um risco diferente do original, ou pagando para se livrar daquele risco' e continua: 'Um tomador de recursos pode, de fato, trocar o pagamento de dívidas em franco suíço por uma obrigação em dólares americanos. Um investidor pode trocar o retorno de uma combinação de ações norte-americanas por um de ações alemãs. Um comprador de petróleo pode fixar o preço futuro desse produto em ienes japoneses, ou em qualquer outra moeda'. Neste mesmo trabalho, é definido o que seja derivativo: 'um contrato bilateral ou um acordo de troca de pagamentos cujo valor deriva, como seu nome indica, do valor de um ativo ou objeto referenciado em uma taxa ou índice'. Já a securitização é uma espécie de conversão de empréstimos bancários e outros ativos em títulos (securities) para a venda a investidores que passam a ser os novos credores desta dívida. Iniciou-se nos Estados Unidos na década de 70, quando o governo dos EUA e suas agências ligadas ao crédito hipotecário promoveram o desenvolvimento do mercado de títulos lastreados em hipotecas. Assim, as instituições financeiras perceberam as vantagens desta nova técnica financeira, incorporando nela outros tipos de ativos. Na metade da década de 80 foi elaborado o primeiro “commercial paper” lastreado em duplicatas, outros recebíveis financeiros foram utilizados na securitização, com a introdução de títulos lastreados em financiamentos do setor automobilístico. A globalização financeira fez com que os agentes econômicos começassem a demandar e a ofertar formas mais eficientes de financiamentos e de proteção, tentando minimizar alterações nas paridades de moedas e de índices. Neste contexto surgiram os euronotes, eurodólares, petrodólares, samurai-bond, project finance e várias outras formas de engenharias financeiras com o capital sempre procurando maximizar o retorno e minimizar o risco. Em 2003, quando já podíamos estudar as crises do México, da Coréia, da Rússia e do Brasil, para citar apenas estes países, quando também era objeto de estudo o que aconteceu com a Procter & Gamble, Banco Barings, Kashima Oil, Orange County e outras grandes empresas, o ex-primeiro ministro da Alemanha, Helmut Schmidt, afirmava, mais ou menos assim: 'Há uma grande possibilidade de uma crise de impacto global nos mercados financeiros, devido ao desconhecimento que as autoridades financeiras e a própria administração das grandes empresas possuem a respeito das operações com derivativos'. De fato, operações com derivativos, a partir de um bem ou um direito em determinada moeda ou outro indexador, podem gerar uma obrigação em outra moeda ou outro indexador e haverá assim uma dança de indexadores e de moedas, tantos quantos sejam os atores (os bancos, os fundos de investimentos e as demais empresas financeiras e não financeiras) deste imenso palco que é o mercado financeiro. A Securitização de Recebíveis é uma operação financeira estruturada onde o emissor de títulos, sociedade de propósito específico, oferece como garantia, aos adquirentes desses papéis, os direitos creditórios, ou recebíveis, segregados de seu originador. O principal objetivo dessa operação é minimizar o risco de crédito a que os detentores dos títulos emitidos estarão expostos, e, desta forma, captar recursos a uma taxa de juros mais favorável. Todas as operações de securitizações e derivativos possuem contratos, assim, existem contratos futuros, contratos a termo, contratos de opções, contratos de swaps. Para todos os contratos, no caso dos derivativos, existem agentes que podem ser os hedgers, os arbitradores, os especuladores, as corretoras, as câmaras de compensação. Uma infinidade de empresas operando, podendo ser qualquer um dos agentes, tais como: bancos, fundos, bolsas, pessoas físicas e outras pessoas jurídicas financeiras ou não. Mais: para a maioria das operações há necessidade de depósitos de margem. E nada foi detectado? Ninguém viu ou pôde ver a bolha? Claro que viram. A contabilidade das empresas e dos bancos 'incham' com ativos primários que derivam para vários outros ativos e o 'inchaço' se dá tanto em contas patrimoniais representativas de direitos e obrigações, como também em contas de compensação que registram prováveis alterações patrimoniais. O 'inchaço' provoca um fenômeno chamado alavancagem financeira onde se vê que para cada unidade monetária de capital próprio, quanto há de capitais totais. Um banco americano, no auge da crise, apresentava o indicador ATIVO sobre PATRIMÔNIO LÍQUIDO igual a 34, isto significa que, de todo o capital originado por este banco, 97,06% são capitais de terceiros (33/34) e, por diferença, 2,94% (1/34) são capitais próprios, em outras palavras, os acionistas. Quando os ativos se tornam podres, como pagar os capitais de terceiros? Foi o que ocorreu em escala mundial, tudo amplificado pela absoluto descasamento dos prazos, moedas e taxas entre seus ativos e passivos. Desde 1995, o mundo viu vários ataques especulativos a moedas de diversos países, quebras cinematográficas de empresas e bancos e quase todos envolvendo operações globais e derivadas de outras. Será possível, com tantos exemplos, que atualmente não tenha havido algum sinal de que o mundo poderia sofrer uma 'epidemia financeira'? Pois acreditem, havia todos os sinais e todos não puderam ou não foram considerados. Sabem aquela história de transformar um dado em informação e informação em conhecimento? Os dados estavam lá, 'marcadinhos a mercado', como manda o figurino, mas dispersos e em milhares de fundos, bancos, corretoras e outros tipos de empresas. Era preciso 'juntar' tudo num único relatório para 'virar' informação e daí em conhecimento. Havia sinais emitidos pela Contabilidade dos Bancos, dos Fundos, das Corretoras, das câmaras de compensação e de várias outras empresas financeiras e não financeiras. A Economia dava sinais por intermédio dos agregados monetários de que também havia algo errado. Vejamos um exemplo provocado pela capacidade de os bancos criarem moeda. Vamos depois fazer uma analogia com o que ocorreu no mundo entre 2007 e 2008. O raciocínio é direto: quando um banco empresta cria-se um depósito secundário, derivado de um depósito primário, quando uma empresa financeira ou não financeira possui ativos primários, tais ativos podem ser derivados e securitizados Supondo, apenas para contextualizarmos o problema, que os encaixes dos bancos estão na ordem de 10% sobre a média dos Depósitos à Vista, vamos com este exemplo mostrar que tanto a Contabilidade quanto a Economia podem apontar o problema para a sociedade, só não houve ação tempestiva alguma que o interrompesse. O exemplo a seguir é muito análogo com o que ocorreu no mundo, está sendo usado porque didaticamente é muito mais fácil de ser entendido pelo leigo. Vejamos: Sabemos que há somente duas maneiras de se expandir os meios de pagamento (M1), que é a soma do papel moeda em circulação mais os depósitos à vista dos bancos: a) Emitindo-se moeda. b) Criando-se Moeda Escritural (Depósitos à Vista). Condição possível de ser efetuada pelos Bancos Múltiplos ou Comerciais. De fato, um Depósito à Vista num banco representa um direito que o depositante possui sobre uma determinada quantia. Inversamente, os bancos assumem a obrigação de devolver aquela quantia quando lhe for solicitado. Ocorre que, num banco, a todo instante existem depósitos e saques em 'dinheiro vivo', de tal forma que somente uma parcela do total dos Depósitos à Vista é necessária para atender àqueles saques.Supondo que apenas 10% do volume médio dos Depósitos à Vista seja necessário para que os bancos atendam aos saques em dinheiro de seus correntistas, significa dizer que, para cada 1000 unidades monetárias médias de Depósitos à Vista, somente 100 unidades monetárias necessitam permanecer encaixadas, isto é, dinheiro vivo no cofre das agências e das matrizes dos bancos, a diferença, se não houver algum impedimento, os bancos podem, por exemplo, emprestar. Este tipo de encaixe que visa atender aos depositantes que procuram dinheiro vivo é chamado tecnicamente de Encaixe Voluntário,ou seja, quanto que os bancos precisam ter de dinheiro vivo para atender seus clientes. Admitamos a seguinte situação: Seja 'r' a relação Encaixes/Depósitos à Vista de determinado sistema bancário. Neste hipotético sistema, o governo incentiva os bancos a emprestarem recursos, não há uma regra que limite a capacidade de os bancos emprestarem. Admita mais: O encaixe voluntário para a demanda por papel moeda e moeda metálica é da ordem de 10%. Assim, teremos: r = Encaixe Voluntário = 10% Depósitos à Vista Suponha agora que o governo emitiu papel moeda no total de 100.000 unidades monetárias (UM) e que todas aquelas unidades monetárias foram depositadas nos bancos daquele país em Depósitos à Vista (DAV). Vamos chamar este acréscimo de 'R'. Nesta situação, o sistema bancário precisa encaixar voluntariamente 10.000 UM ou (r x R). A diferença, se não houver nada impedindo, os bancos vão querer emprestar. Teríamos assim a seguinte relação: NECESSIDADE DE ENCAIXE = r x R Þ 0,10 x 100.000 = 10.000 SOBRA PARA EMPRESTAR = R ( 1 – r ) Þ 100.000 x (1 – 0,10) = 90.000 Total = 100.000 Se admitirmos que os bancos emprestarão os recursos e que o público não guardará esses empréstimos sob a forma de moeda manual e sim os depositará novamente no sistema, teremos novos depósitos nos bancos no valor exato dos empréstimos concedidos, E aí teremos uma nova relação: NECESSIDADE DE ENCAIXE = r x R Þ 0,10 x 90.000 = 9.000 SOBRA PARA EMPRESTAR = R ( 1 – r ) Þ 90.000 x (1 – 0,10) = 81.000 Total = 90.000 Os bancos agora emprestarão os 81.000 que sobraram: NECESSIDADE DE ENCAIXE = r x R Þ 0,10 x 81.000 = 8.100 SOBRA PARA EMPRESTAR = R ( 1 – r ) Þ 81.000 x (1 – 0,10) = 72.900 Total = 81.000 Já é possível perceber que o governo gerou um Depósito Primário na Economia no valor de 100.000 UM. O Sistema bancário daquele país, se nada o impedir, vai transformar aquele depósito primário em vários outros depósitos derivados (os empréstimos). A questão é: Num nível de encaixe voluntário de 10%, quanto crescerão os depósitos por conta daquele primeiro ou primário depósito na Economia? Vamos transformar os dados do sistema bancário numa tabela: DEPÓSITOS ENCAIXEVOLUNTÁRIO 100.000(1) 10.000 90.000(2) 9.000 81.000 8.100 72.900 7.290 65.610 6.561 .. .. .. .. .. .. TOTAL ? TOTAL ? (1) DEPÓSITO PRIMÁRIO (2) DE 90.000 EM DIANTE, DEPÓSITOS DERIVADOS. Obs. Atente para o fato de que quando um banco empresta, credita uma conta corrente (Depósito à Vista) Através de uma formulação matemática teríamos: D = R [ 1 + ( 1 – r ) + ( 1 – r )² + ( 1 – r )³ + … ] Onde: D = Depósitos totais após acréscimo R = Acréscimo nos Depósitos r = Encaixe Voluntário Estamos diante de uma PG de ordem decrescente e sabemos que a soma dos termos de uma PG é igual ao termo inicial dividido por um menos a razão. Então teríamos: D = R 1 D = R 1 1-(1-r) r Substituindo, vem: D = 100.000 X 1 → D = 1.000.000 0,10 Em resumo, se houver apenas encaixe voluntário de 10%, o sistema bancário multiplica a moeda em até 10 vezes, a partir de um único depósito primário de 100.000 UM. O sistema bancário do nosso país hipotético expandiu os Meios de Pagamento (M1) e como se diz em Economia: 'criou moeda'. Na prática, cada banco possui centenas, alguns bancos milhares de correntistas. A experiência indica que: a) Somente uma parte dos Depósitos são movimentados em espécie ao mesmo tempo; b) A outra parte, (a maior) é movimentada por papéis (cheques, DOCs, TEDs); c) A todo momento existem correntistas sacando e outros depositando. Logo, podemos concluir que, no sistema bancário, somente uma pequena parte dos valores existentes num banco são utilizados para lastrear o movimento das agências. A maior parte, permanece no banco. Se pensarmos no sistema bancário como um todo vale a observação de que todos os cheques sacados serão novamente depositados no sistema. E, desta forma, o mecanismo de expansão é o mesmo. O importante a destacar é que se o sistema bancário utiliza, por exemplo, 10%, em média, do total dos seus depósitos para garantir suas obrigações e não há encaixes obrigatórios para reduzir a capacidade de os bancos de criarem moeda, podemos concluir, no exemplo hipotético, que este sistema pode assumir obrigações de até 10 vezes do que ele (sistema) disponha de valores médios encaixados. Na fórmula utilizada, a razão 1/r é chamada de multiplicador dos depósitos bancários. Reparem que tanto menor r, maior será a capacidade de os bancos expandirem a moeda. É exatamente para conter esta capacidade de expansão que existem os recolhimentos compulsórios (encaixes obrigatórios). Mas aqui o problema será outro, vamos imaginar um crise de credibilidade deste sistema. Haverá uma corrida por moeda ou por outros ativos reais. Haverá muitos saques nos bancos. Reparem que nos bancos somente existem somente 100.000 unidades monetárias, as outras 900.000,00, se sacadas, pelo 'efeito manada' deverão ser bancadas (criadas) pelas autoridades monetárias deste país imaginário. A Contabilidade dos bancos registrava o seguinte: ATIVO PASSIVO Disponibilidades 100.000,00 Depósitos à Vista 1.000.000,00 Empréstimos 900.000,00 Total do Ativo 1.000.000,00 Total do Passivo 1.000.000,00 E os agregados monetários estavam lá apontando que os depósitos à vista haviam se elevado para 1.000.000,00 de unidades monetárias, partindo das 100.000,00 lançadas primariamente na Economia. Façam uma analogia agora com o sistema 'cheinho' de direitos derivados e securitizados, olhem para a Contabilidade deste sistema que verão que os bens, direitos e obrigações estarão lá contabilizados nas empresas financeiras e não financeiras, olhem para a Economia deste sistema que estarão lá no M2 e no M3 os títulos privados, as quotas dos FIF(s) de renda fixa, as operações compromissadas indicando a liquidez do sistema e a capacidade de captação de recursos do sistema (que é para isso, entre outras coisas que servem os agregados monetários). Vejam a semelhança, no caso atual ocorreram muitos empréstimos imobiliários, lastreados em letras hipotecárias, as quais, aos milhares, foram securitizadas e derivadas em vários pontos do mundo. Quando o americano pobre (sub-prime) não pagou ao banco, o banco não pagou ao detentor do direito sobre a letra e este detentor não pagou a outro detentor de direitos, que não pagou, que não pagou… e foi assim até chegar o setembro negro de 2008, quando todos estupefatos se entreolharam e perguntaram, o que está acontecendo? Por favor, não culpem a Contabilidade desta vez. Raimundo Aben Athar Prof. Universidade Candido Mendes – RJ Prof. Fundação Getúlio Vargas raimundoathar@globo.com