1 – INTRODUÇÃO A gestão de desempenho é um mecanismo de acompanhamento da companhia em relação aos seus objetivos. Ela tem um caráter voltado para metas físicas e quantitativas, podendo também abranger aspectos qualitativos. Deriva da necessidade de transformar um objetivo estratégico em resultados operacionais. Por exemplo, se uma companhia deseja crescer x por cento, quanto que ela tem que gerar de receita, qual a redução de despesas necessária, quais os volumes de produção necessários e assim por diante. É preciso que a organização como um todo tenha a percepção do seu papel para o alcance daquele resultado esperado, até porque essa é a forma de manutenção da competitividade da companhia e da empregabilidade de seus empregados. Grandes empresas no Brasil vêm adotando um sistema de gestão baseado nas competências do empregado, que são os valores que cada um deve possuir para exercer determinada tarefa, alguma atividade, um cargo ou função. Há dois anos, o modelo vigente era o da gestão por desempenho, que privilegiava o cumprimento de metas, estabelecidas pelos órgãos estratégicos da companhia e desdobradas pelos seus diversos órgãos. Observou-se que as empresas não abriam espaço para o desenvolvimento do empregado, para realizar cursos e buscar o seu aprimoramento. Aspectos como a responsabilidade social também ficavam abandonados pela necessidade de voltar todos os esforços para cumprir as metas de produção e de serviço estabelecidas. A busca pelo desenvolvimento tornou-se imprescindível, pois conforme Dutra et al. (2001), a empresa, ao se desenvolver, desenvolve as pessoas, e estas, ao se desenvolverem, fazem o mesmo com a organização. Observou-se que o modelo antigo gerava uma sabotagem por parte dos empregados que para cumprirem suas metas utilizavam-se de diversos expedientes considerados como imorais que por vezes causavam prejuízos a empresa e aos clientes. As empresas se viam obrigadas a burlar seu sistema de gestão, como explica Dutra et al. (2001). É muito comum empresas sabotarem seu próprio sistema formal de gestão para criar brechas que o tornem mais adequado à sua realidade. Esse modelo foi gradualmente abandonado pelas empresas em função dos vários questionamentos que começaram a ocorrer a respeito da desvalorização do homem e da volta aos procedimentos outrora adotados na época da industrialização por meio das teorias de Taylor e Ford, pertinentes a metas de produção e estudo de tempos e movimentos para otimização do processo. O ambiente atual é de 'extrema competitividade, no qual a economia se globaliza, as relações de negócio e trabalho são marcadas pela crescente flexibilidade, o ritmo das inovações desafia as mais brilhantes estratégias e a sociedade exige muito mais das empresas' (Rodriguez et al). Dessa forma assim são definidas as práticas de avaliação: 'Tendências contemporâneas de avaliação convidam à substituição de práticas centradas na análise mecânica do trabalho e no julgamento por outras, nas quais o poder é exercido como uma forma de aprendizagem e de educação. Nestas, o homem passa a ser o centro da tomada de decisão, sendo o respeito e a valorização de diferenças condições sine qua non' (Souza, 2003). Assim, surgiu o processo de avaliação por competências que passou a valorizar o homem em suas várias dimensões: técnica, humana e pessoal. Este processo trouxe diversas contribuições para o real significado do trabalho. Não há ilusão de que a Gestão de Competências irá resolver todas as questões relacionadas às cobranças absurdamente altas por metas. O que se pretende demonstrar é que esse mecanismo de avaliação além de buscar o melhor profissional para cada função desempenhada, pode contribuir significativamente para a busca do auto-desenvolvimento, da análise crítica da gestão e da melhoria dos processos por meio de uma avaliação constante e que busca não a punição, mas o aprendizado. 2 – GESTÃO DE COMPETÊNCIAS E GESTÃO POR COMPETÊNCIAS Conforme Brandão e Guimarães (2001), a gestão de competências trata do planejamento, da organização e do controle por parte da administração, que avalia as competências necessárias ao negócio. Já a gestão por competência refere-se à divisão das tarefas na equipe conforme as competências de cada um. 'A gestão de competências pode incluir, ou não, a gestão por competências'. Nesse caso, ambos os conceitos são aplicáveis ao estudo desse artigo, já que a visão das duas empresas estudadas é a de mapeamento das competências e como são estruturadas dentro de suas iniciativas para a distribuição pelas equipes. No ano 2000 já se falava em competências no Brasil, certamente de maneira ainda insipiente. Dutra (2000) relatou em seu artigo que autores americanos desenvolveram estudos nas décadas anteriores, baseados no que eles determinaram como o conjunto de qualificações que a pessoa tem para executar um trabalho com nível superior de desempenho. Mais recentemente, o debate entre duas escolas: as teorias do paradigma SCP de Porter e a escola estratégica de posicionamento deu origem a uma proposta integradora das duas visões, centrada em um conceito multidimensional de competências. (Carbone et al, 2005) O contexto empresarial atual exige muita competitividade, para que se possam manter as instituições alinhadas com a globalização e o mundo da informação e do constante desenvolvimento tecnológico. As competências nesse sentido estão fortemente relacionadas com a gestão no sentido que são aplicadas a três dimensões que impulsionam a empresa para o atingimento de seus objetivos. O conceito de 'CHA' passa a ser empregado como sinônimo de expressão das competências requeridas que são: Conhecimento, Habilidade e Atitude. O conhecimento está relacionado ao processo de aprendizagem, ao saber, a deter as informações técnicas e cultura geral. Habilidade é o método, é saber como fazer, empregar os conhecimentos adquiridos de maneira eficiente e eficaz. Por último, atitude é querer fazer, é ter motivação para executar as atividades. Que tipo de instrumento pode medir se as competências requeridas? No caso de conhecimentos, por exemplo, a formação acadêmica e cursos são bons instrumentos de medição. O Banco do Brasil vem empregando um sistema de certificações internas, utilizando-se de institutos externos para realização das provas, o que é um bom parâmetro para medir o nível de conhecimentos. Essa certificação serve como parâmetro para concorrências internas, inclusive. A educação corporativa contribui para o desenvolvimento desse conhecimento conforme sugerem Brandão e Freitas apud Carbone et al (2005): O subsistema educação corporativa, por exemplo, atua diretamente no processo de desenvolvimento de competências humanas, promovendo a socialização das competências existentes e provendo a organização de ações de aprendizagem que permitam eliminar eventuais lacunas de competências. No ambiente público, evidenciaram-se esforços de mudança no sentido de implementar uma gestão de pessoas centrada em resultados, o que revelou uma crescente preocupação com a busca da revitalização do serviço público. ( Souza, 2003) 3 – OUTRAS TENDÊNCIAS Segundo SOUZA, outra tendência que ganha força é o olhar plural da avaliação, ou seja, a avaliação 360 graus. Trata-se de um dos mais relevantes avanços no campo da gestão de resultados humanos, caracterizado por ser uma abordagem que privilegia o diálogo. As empresas Petrobras e Banco do Brasil têm estratégias diferentes com relação à avaliação. No caso do Banco do Brasil, essa avaliação abrange a todos os níveis, com exceção aqueles locais onde não é possível se avaliar por pares. Já na Petrobrás, a avaliação 360 graus é empregada apenas nos níveis gerenciais. A questão é: já que é aceito que esse tipo de avaliação é mais isenta, por que não utilizá-la em todos os níveis da empresa como fez o Banco do Brasil? Cabe ressaltar que um dos principais focos da Gestão por Competências é capacitar o empregado naquele fator que ele precisa de aprimoramento. Isso pode ser facilmente verificado na avaliação de pares, pois afinal de contas são as pessoas de mesmo nível hierárquico aquelas que convivem mais próximo do avaliado. Carbone et al (2005) citam o programa de desenvolvimento profissional da Embraer. Trata-se de uma usina de intercâmbio, capacitação e inteligência; que possibilitou à empresa alcançar a liderança mundial na categoria de aviões a jato em que atua. Diversos autores discutem ainda o compartilhamento de conhecimentos. Esse compartilhamento se dá de diversas formas, tendo algumas delas já sido discutidas aqui. No entanto, ainda não existem mecanismos confiáveis de medição. Em recente pesquisa realizada pela PUC e pela empresa Milestone, foi identificado que em praticamente metade das empresas pesquisadas o planejamento contempla a Gestão de Competências e a Gestão do Conhecimento, o que mostra que elas estão intimamente ligadas. Nessa mesma pesquisa constatou-se que se por um lado a Gestão de Metas e a Avaliação de Resultados estão bem evoluídas na maioria das empresas, por outro, a análise de gaps e a Gestão da Mudança são pontos que precisam avançar, encontrando-se em um baixo grau de evolução. A liderança também se mostra como fator crítico do sucesso do processo de avaliação de desempenho. Orlean e Ferreira sugerem um ciclo de competências conforme a figura abaixo: 4 – CONCLUSÃO Dada a complexidade que o fator pessoas exerce quando se trata de uma coletividade, valores que são difíceis de mensurar devem ser cuidadosamente observados, devendo ser dimocomizados dos aspectos emocionais que possam estar envolvidos quando se trata de um processo de avaliação. Dessa forma o aspecto emocional fica minimizado, pois a visão de uma pessoa pela outra nem sempre espelha a realidade dos fatos. A avaliação quando mal-feita por ser objeto de desavenças pessoais, de corporativismo, de se esconder as falhas do outro e toda a sorte de questões que tornam o processo de Gestão um mecanismo de retaliação, de ameaças, de escolhas e que não podem existir em um ambiente profissional. Obviamente as pessoas não são isentas de emoção, mas o processo considerando isso tem que possuir travas para que ele possa ser o mais justo possível. A busca pela transparência é preponderante, porque o processo de avaliação está intimamente relacionado com o processo de ascensão profissional e em muitas empresas também condiciona o recebimento de benefícios melhores. Então, se o processo é identificado pelos avaliados como mal-feito, pode gerar uma grande insatisfação na equipe e motivar desligamentos, transferências e outros tipos de deserção. É possível dizer que a Gestão de Competências ainda está em desenvolvimento no Brasil, sendo adotado por empresas que servem de Benchmark em área de gestão. Gradualmente, empresas em expansão tecnológica passarão a adotar ferramentas de análise de desempenho de seus empregados, sendo que as ferramentas aqui descritas são as que vêm sendo utilizadas com melhor aproveitamento no momento. Em tempos de turbulência, a aprendizagem organizacional torna-se uma vantagem competitiva por proporcionar às organizações formas de alavancar o conhecimento dentro do sistema no qual elas habitam (Angeloni et al,2002). É preciso, no entanto, deixar muito claro que não é simplesmente um processo que prioriza treinar aquele funcionário que está tendo um mau desempenho, mas sim de desenvolvimento. Em última escala, o que está em jogo hoje é a sustentabilidade das empresas, o que só poderá ser alcançado se toda a força de trabalho estiver engajada em alcançar os objetivos cada vez mais desafiadores que o mercado exige para a sua sobrevivência. 5 – BIBLIOGRAFIA ANGELONI, Maria Terezinha et AL. Organizações do conhecimento (Infra-estrutura, Pessoas e Tecnologias). São Paulo: Saraiva, 2002. BRANDÃO, Hugo Pena; GUIMARÃES, Tomás de Aquino. Gestão de Competências e Gestão de Desempenho: tecnologias distintas ou instrumentos de um mesmo construto? Revista RAE – Revista de Administração de empresas, São Paulo, v.41, n.1, p. 8-15, jan./mar. 2001. CARBONE, Pedro Paulo et al. Gestão por competências e gestão do conhecimento. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2005. DUTRA, Joel Souza et al. Gestão por competências: um modelo avançado para o gerenciamento de pessoas. São Paulo: Editora Gente, 2001. DUTRA, Joel Souza; HIPÓLITO, José Antônio Monteiro; Silva, Cassiano Machado. Gestão de pessoas por competências: o caso de uma Empresa do Setor de Telecomunicações. Revista RAC – Revista de Administração Contemporânea, Rio de Janeiro, v.4, n.1, p 161-176, Jan./Abr. 2000. Disponível em <http://www.anpad.org.br/periodicos.pdf> NEZELLO, Fabiano; STRAUHS, Faimara do Rocio. O mapeamento de processos como método para identificação de competências: o caso da Companhia Paranaense de Energia. Disponível em <http://www.escolanarede.sefaz.rs.gov.br/webpart/public/itemvisua- liza.pdf>. Acesso em 01 Jul. 2008. ORLEAN, Daniel; FERREIRA, Francisco. Mapeamento e Gestão por Competências na prática: Metodologias e Soluções Tecnológicas. Trabalho apresentado na Sala de Inovação do Conarh 2005. Disponível em <http://www.milestone-ti.com.br/view.do.pdf> PETROLEO BRASILEIRO S.A. (PETROBRAS). Disponível em <http://www2.petrobras.com.br/portugues/index.asp> RODRIGUES, Martius V. R. et al. Gestão Estratégica de Recursos Humanos – Compartilhando Conhecimento para o Desenvolvimento dos Negócios. Rio de Janeiro: Qualitymark, 2005. SOUZA, Vera Lúcia de. Gestão de Desempenho: julgamento ou diálogo? Rio de Janeiro: Editora FGV, 2003. 2 ed.