Uma das tarefas mais difíceis para o profissional de marketing é a globalização de uma marca. Diversas barreiras são encontradas durante os estudos de viabilidade e durante o processo de lançamento da marca no mercado alvo. Diferenças culturais, ambientais, econômicas, concorrência, custos de mão de obra e produção são apenas alguns dos problemas mais comuns. A Starbucks, gigante do cafezinho nos Estados Unidos, após alguns anos resolveu apostar suas fichas no Brasil, país que teoricamente tem todas as características necessárias para receber de braços abertos mais uma cafeteria. O Brasil é um dos maiores produtores de café do mundo e também um dos maiores consumidores. Em pesquisa realizada pela InterScience a pedido da ABIC (Associação Brasileira da Indústria do Café) verificou-se que o consumo per capita de café no país é de aproximadamente 74 litros ao ano1. Além disso, o segmento de café Gourmet vem crescendo a taxa de 20% ao ano2 enquanto o convencional cresce em média apenas 5%. A economia do país também atravessa um bom momento com taxa de desemprego em queda e aquecimento do consumo interno. Tudo isso faz do Brasil um cenário muito positivo para que a Starbucks se estabeleça. Entretanto diversas outras variáveis devem ser consideradas para que a empresa alcance o sucesso. Sua estratégia bem sucedida em outros países não significa necessariamente que o sucesso irá se repetir. O mercado brasileiro tem suas particularidades que podem dificultar a instalação da rede por aqui. Essas particularidades exigiram algumas reformulações como a inclusão de produtos no cardápio como pães de queijo e muffins, e um novo blend especial para o café expresso, o Brasil Blend. 'O Brasil Blend é uma expressão de respeito e um gesto de carinho da Starbucks pelos mais finos cafés do Brasil”3. A afirmação é da CEO no Brasil, Maria Luiza. Respeito pelo consumidor é uma das principais características da Starbucks. Seus produtos são desenvolvidos com grãos de alta qualidade, seus baristas recebem treinamento e cada loja possui pelo menos dois deles. A grande maioria das bebidas pode receber personalização na hora do pedido como a troca do leite integral por leite de soja ou desnatado4. A atenção ao produto é tão grande que segundo a empresa 'para manter o aroma do café, é proibido fumar em praticamente todas as suas lojas. Pelo mesmo motivo os funcionários são proibidos de trabalhar com perfumes fortes' 4. Porém alguns detalhes podem trazer problemas no mercado nacional como o nome dos produtos, uma vez que a decisão foi de manter o cardápio com todos os nomes em inglês, com pronúncias nem sempre tão fáceis. Algumas adaptações e traduções poderiam reduzir um pouco o caráter elitista e facilitar a expansão do público alvo para os grupos de aspiração, ou seja, os consumidores que querem o status de trafegar em uma loja da Starbucks com um copo na mão sem que ele pertença efetivamente à classe social que normalmente freqüenta o estabelecimento. A empresa explora o mercado de cafés especiais, na verdade um nicho de mercado já abordado por outras redes de café com a Fran´s Café. Embora existam boatos de que a Starbucks tenha negociado sua compra, a rede Fran´s Café continua operando com sucesso no país e se preparou para a chegada da concorrente mudando a arquitetura das lojas, melhorando o cardápio e ampliando a rede5. O posicionamento no mercado nacional também poderá enfrentar algumas dificuldades se for seguir os padrões americanos. Nos Estados Unidos a Starbucks conseguiu implementar um conceito interessante nos consumidores: o 'Terceiro Lugar'. Segundo este conceito, as lojas da empresa são o terceiro lugar onde as pessoas procuram passar o tempo, atrás apenas da residência e do trabalho. Aplicar este mesmo conceito no Brasil será extremamente difícil e exigirá uma mudança radical de cultura, pois o 'terceiro lugar' no Brasil são os bares onde as pessoas procuram cerveja e bate papo, ou seja, o nosso famoso 'happy hour'. O sucesso do conceito também se deve à massificação da marca no país de origem, onde em alguns quarteirões existem duas lojas da rede, uma verdadeira opressão da concorrência e disseminação da marca. Resta saber se essa massificação também será trazida para o Brasil. Nossa cultura do cafezinho da padaria pode ser uma outra barreira para a expansão da empresa. Uma vez que é possível beber um bom café por R$ 2,00, o que levaria um consumidor a pagar 50% a mais por um café da Starbucks? Mesmo apresentando produtos de excelente qualidade e lojas confortáveis que oferecem wi-fi e tomadas elétricas para notebooks, será que o consumidor perceberá estas diferenças? O posicionamento da empresa e o cultivo do 'status' de ser um cliente Starbucks podem determinar o sucesso dessa diferença no preço. Apesar dele ter sido reajustado para ser competitivo no mercado brasileiro, ainda é superior à média, mas se formos levar em consideração a satisfação das necessidades hedônicas do consumidor, podemos dizer que R$ 1,00 ou R$ 2,00 podem ser irrelevantes em vista do que a experiência de consumir um café especial em um ambiente diferenciado pode proporcionar. Se formos levar em consideração os consumidores que fazem parte do público alvo da rede, notadamente classe A, o preço acaba sendo bastante justo por produtos de alta qualidade. A decisão de compra de um simples cafezinho, ou mesmo as bebidas mais requintadas requer uma decisão de compra rotineira, com baixo envolvimento e pouquíssimo esforço. Apesar de existirem algumas redes de café com ótimos produtos, a avaliação da decisão de consumo normalmente não envolve processos complexos principalmente na avaliação das marcas disponíveis. No máximo a decisão pode ser limitada dependendo do tipo de consumidor e do ponto de venda. As lojas da Starbucks no Brasil estão localizadas em sua maioria dentro de Shopping Centers, pontos que concentram mais de uma rede de café, o que possibilita ao consumidor mais facilidade na avaliação das marcas disponíveis. 1. www.abic.com.br/estatisticas.html – Acesso em: 13 jan 2009 2. www.sindicafesp.com.br/nota_gourmet_set07.html – Acesso em: 13 jan 2009 3. AITH, Marcio. O grão que mudou o mundo. Veja. São Paulo, nov. 2006. Disponível em: http://www.abic.com.br/noticias/nota_veja21nov06.pdf. Acesso em: 30 jan. 2007. 4. http://pt.wikipedia.org/wiki/starbuks – Acesso em: 13 jan 2009 5. Agora é quente! Disponível em http://www.terra.com.br/istoedinheiro/h38/negocios/starbucks_brasil.htm