Uma boa parte dos profissionais que hoje vivem a fase da meia-idade começa a manifestar uma forte preocupação com as perspectivas da sua aposentadoria. E uma das causas tem relação direta com a forte queda nos rendimentos financeiros, na medida em que o Brasil vai se inserindo no padrão das economias tidas como mais avançadas. Ou seja, se torna cada dia mais real a perspectiva de queda no padrão de vida em relação ao que foi planejado, quando os rendimentos das aplicações eram elevados. A solução para muitos será a de adiar, em média entre 4 e 6 anos, sua aposentadoria. Caso queiram manter a remuneração planejada. Mas o alerta de todo este novo panorama deve merecer especial atenção também da parte de todos aqueles que se preparam para o ingresso no mercado de trabalho. O preparo e planejamento da carreira no mundo do trabalho precisa também incluir o tema do preparo para a aposentadoria. Ela não é um assunto tão distante quanto muitos imaginam. E este preparo não é só na perspectiva financeira. Uma análise mais ampla do tema mostra que esta equação envolve outras causas e ações. E que na sua maioria devem ser examinadas tanto na perspectiva do passado, do presente e do futuro de cada indivíduo e sua estrutura familiar. E até mesmo cultural. Indicadores como o aumento da longevidade e a redução nos índices de natalidade já provocam sérios efeitos na Europa e Estados Unidos. Mas vale registrar que nós também não estamos isentos destas mesmas causas. Para entender um pouco melhor todo este processo, e até agir preventivamente, vale um olhar para o que vem ocorrendo na crise européia e seus diferentes efeitos nos países de culturas distintas. Artigo recente do “The Wall Street Journal Americas”, que analisa o impacto das mudanças econômicas e sociais européias, na estrutura das famílias, tais como aposentadoria, acesso das mulheres no mercado de trabalho, desemprego entre os jovens, cuidados dos filhos, longevidade, etc. merece algumas reflexões. “Não é de hoje que a família é a argamassa da sociedade na Europa meridional. O apoio intergeracional tem profundas raízes históricas e religiosas. Na orla mediterrânea do continente, onde reinam o catolicismo e influências muçulmanas, não há lugar para o individualismo de nações protestantes do norte europeu e do mundo anglo-saxão, onde aceitar uma ajuda expressiva dos pais é vergonhoso. Na Itália, não sair de casa ou repassar ao pai e à mãe a missão de cuidar dos netos é perfeitamente aceitável”. “Onde o Estado do bem-estar é fraco, – prossegue a pesquisa – a estrutura de apoio familiar é alta, pois as pessoas precisam se valer de recursos privados. Esse modelo “tudo em família”, no entanto, é uma das muitas estruturas sociais que reformas econômicas no continente europeu ameaçam desmontar”. “A existência de uma vasta rede de cuidado infantil custeada pelo Estado é uma das grandes razões para que 72% da população feminina na Dinamarca, e 60% na França, trabalhe fora, em comparação com 53% na Espanha e 46% na Itália”. Enfim, boa parte do aprendizado em relação a este tema é de que o preparo para a aposentadoria não é uma mera questão financeira ou de transição do emprego para o pós-emprego. Envolve as relações do casal, da família como um todo e dos projetos de vida de cada indivíduo neste contexto. Portanto, é mais do que urgente incluir este tema nas agendas dos assuntos a serem discutidos, formulados e encarados no plano das ações práticas a serem consideradas no presente e futuro de todos.